BRUJERIA + KRISIUN - 22/05/2018 (Espaço 555, São Paulo)

Dois anos após sua última passagem por terras brasileiras, os veteranos do Brujeria desembarcaram novamente na América do Sul nesse mês de maio para mais uma turnê de proporções altamente destruidoras. Aqui em território tupiniquim, o icônico grupo de Grindcore/Death Metal agendou um total de sete shows, com a última data da turnê brasileira em São Paulo, nessa terça-feira (22), uma data um tanto ruim para um show, levando em consideração que muitos teriam que acordar cedo no dia seguinte para trabalhar, entretanto engana-se quem pensa que essa escolha impediria o comparecimento de uma legião de fãs do grupo.
Atualmente promovendo o seu quarto álbum de estúdio, "Pocho Aztlan" (2016), a apresentação do "cartel de narcotraficantes procurados pelo F.B.I." também contou com a ilustre presença dos igualmente veteranos brasileiros do Krisiun. Como podem ver, não havia qualquer possibilidade de não ser um evento avassalador, certo? A seguir, vamos destrinchar tudo o que rolou nessa noite regada a muita pancadaria e caos.
O local escolhido para "el desmadre" em São Paulo foi o Espaço 555, local que fica praticamente ao lado da famosa Galeria do Rock, no bairro República e a abertura da casa ocorreu às 19h. Cerca de 20h, ao som de uma climática introdução que sempre antecede os seus shows e ovacionados pelos fãs, os gaúchos do Krisiun entram em cena para mandar uma aula do mais puro e visceral Brutal Death Metal. Vale mencionar que essa apresentação marcou o fim da turnê do último álbum de estúdio da banda, "Forged in Fury" (2015).

"Boa noite, São Paulo! O Krisiun está aqui!", saúda o sempre carismático frontman Alex Camargo, com seu tom de voz grave e totalmente peculiar. Em seguida, fomos atacados pela fúria impetuosa de "Ominous", do álbum "Bloodshed" (2004). Alex Camargo (vocal/baixo), Moyses Kolesne (guitarra) e Max Kolesne (bateria) realizaram um set curto, porém muito eficiente e profissional, que ainda contou com as pedradas obrigatórias "Ravager", "Combustion Inferno", "Blood of Lions", "Ways of Barbarism", "Vengence's Revelation", "Descending Abomination", "Apocalyptic Victory", o cover de "Ace of Spades" (Motörhead), dedicado a Augusto Tato, um grande fã da banda que faleceu recentemente, "Hatred Inherit" e "Kings of Killing", que encerrou a performance animalesca com exímio.

Algo muito interessante é que o Krisiun é aquela banda cujas apresentações conseguem chamar a atenção até mesmo daqueles que não são tão apreciadores de Brutal Death Metal e evidentemente, esse show também foi marcado por moshpits violentos, algo que certamente foi um aquecimento em tanto para a atração principal.

Após o término da apresentação do Krisiun, infelizmente, tivemos uma demora considerável para que o show headliner tivesse início, visto que a produção ainda estava montando a bateria e os músicos ainda tiveram que fazer a passagem de som. Transtornos a parte, cerca de 22h15, as luzes se apagam e a garotinha Valentina (6) surge no palco, vestindo uma bandana em seu rosto e anuncia a banda: "Boa noite, São Paulo! Bem-vindos a esse show... e agora com vocês... Brujeria!".

Todos gritam em uníssono nesse momento e então, a versão politicamente incorreta e em espanhol da música "Toybox" (Witch Doctor) ecoa. Então, os integrantes do Brujeria entram em cena, já arregaçando tudo com o groove estarrecedor de "Cuiden a Los Niños", de "Brujerizmo" (2000). Como todos os fãs sabem, o grupo compartilha membros de nomes conceituados no cenário da música extrema e devido à agenda de cada um deles, as turnês sempre apresentam lineups diferentes entre si. Dessa vez, a formação que veio para o Brasil foi Hongo Jr. (bateria), El Criminal (guitarra), El Sangrón (vocal), El Enbrujado (baixo) e Juan Brujo (vocal).
O caos toma conta completamente do lugar na sequência, quando executam a clássica "La Ley de Plomo", a primeira das muitas de "Raza Odiada" (1995) que seriam tocadas. Sem perder tempo, os greñudos locos prosseguem com uma sequência totalmente desgraçada, encabeçada por "El Desmadre", "Colas de Rata" e "La Migra (Cruza la Frontera II)". O moshpit estava simplesmente brutal e ocupando boa parte do espaço da pista nessa altura do campeonato, além dos stage dives, que ocorriam a todo instante. Desacelerando um pouco o ritmo sem jamais deixar o peso e a intensidade de lado, os brujos mandam outra pérola muito querida por todos os presentes, "Hechando Chingasos (Greñudos Locos II)", fazendo todos cantarem, em especial o verso "Esos roqueros, son maricones/Greñudos locos, son mas cabrones".

Temos uma breve pausa na apresentação e El Sangrón aproveita um rápido discurso para puxar o coro "Fuck Donald Trump!", dando início pouco depois a recente "¡Viva Presidente Trump!", "canção de amor" em homenagem ao atual presidente dos Estados Unidos e sua notória "consideração" por imigrantes, latinos e, claro, pelo México. Representando o mais recente trabalho da banda, "Pocho Aztlan", "Ángel de la Frontera" deu continuidade ao terremoto sonoro.
Um detalhe que certamente não passará despercebido pelos fãs mais ardorosos é que, nos demais shows da turnê, o Brujeria também inclui no setlist a música "Satongo", outra faixa de "Pocho Aztlan". Contudo, nessa apresentação na capital paulista o som foi limado do repertório. Creio que o atraso no show tenha sido o motivo pelo qual a composição ficou de fora. Seja como for, em seguida os brujos revisitaram as suas raízes tocando alto totalmente Old School: "Desperado", uma das minhas favoritas do álbum de estreia "Matando Güeros" (1993), que por sinal também é meu álbum favorito da banda. Seu riff de abertura e encerramento fez todos "banguearem" e "pogarem" feito loucos e seu trecho acelerado, totalmente voltado para o Grindcore, fez a pista se tornar um verdadeiro inferno.

Outro hino indispensável foi emendado a seguir: "Raza Odiada (Pito Wilson)"! O único ponto chato de quando a banda toca esse clássico na metade do show é não termos a saudosa introdução gravada por Jr. Hozicón – vulgo Jello Biafra (Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine, ex-Dead Kennedys). De resto, tivemos uma performance excepcionalmente violenta, do jeito que tem que ser, com direito a stage dives e um moshpit sempre incessante e brutal. Em compensação, falando em introdução, a música em espanhol com vocal infantil que abre o disco "Brujerizmo" ecoa pelo P.A.'s em seguida, preparando o clima para a obrigatória faixa título do álbum. Pra variar, uma destruição daquelas!
Os vocalistas agradecem ao Krisiun pela presença no evento e sem perder tempo, oferecem mais uma pedrada indispensável, "Anti-Castro", que foi sucedida por "Division del Norte" e "Marcha de Odio" – oferecida ao "exército de Brujeria", ou seja, todos os presentes. Impossível falar das performances dessa última composição ao vivo sem mencionar as coreografias que os integrantes fazem em todos os shows, algo que valoriza ainda mais a apresentação, tornando-a mais teatral e impactante. Mantendo a mesma pegada da música anterior, o set prossegue com "Revolución", cuja letra também foi cantada por todos.

Contando com a participação de algumas fãs no palco, os greñudos locos mandam "Consejos Narcos", uma execução totalmente excelente e dinâmica. Aliás, meus mais sinceros parabéns às fãs por representarem muito nesse momento do show, por sinal. Atitudes como essas são mais que necessárias, pois a música pesada como um todo é predominada por uma maioria masculina e as mulheres também o direito de agitar com a mesma intensidade que os caras, sem mais.
Ainda tivemos "No Aceptan Imitaciones", composição dedicada ao ex-guitarrista da banda Dino Cazares (Fear Factory, Divine Heresy) e seu Asesino, considerado pelos membros do grupo como uma imitação barata do Brujeria. Aliás, uma situação bem engraçada ocorreu quando Juan Brujo foi anunciar essa música e um fã que estava no palco gritou no microfone "Matando Güeros", provocando risos em todos, inclusive no vocalista, que explicou que ainda não era hora de tocar esse som.
Encerrando com chave de ouro, agora sim era o momento do clássico mais emblemático da banda: "Matando Güeros", é claro! Todos os presentes agitaram pra valer uma última vez, promovendo um mosh generoso e violentíssimo, além de stage dives igualmente intensos. Após finalizarem o set, ainda rolou dos P.A's a divertidíssima paródia que a banda gravou do hit noventista "Macarena" (Los Del Río): "Marijuana", que por mais que não tenha sido tocada, foi cantada por Juan Brujo antes dos integrantes deixarem o palco. O show já tinha acabado, mas todos ainda estavam em total clima de diversão, dançando e curtindo muito na pista. Simplesmente impagável!

Ao término do show, todos que compareceram estavam exaustos, mas certamente muito satisfeitos por essa bela aula de Death/Grind que tiveram o privilégio de assistir. Apesar de novamente o Brujeria ter tocado durante a semana, quem compareceu sabe que o investimento valeu muito a pena. Em poucas palavras, tanto o Brujeria como o Krisiun mandaram o seu recado sangrento com excelência. Não posso concluir esse texto sem deixar de enfatizar o quão divertido é um show do Brujeria. Em minha humilde opinião, esse clima de bom humor mesclado ao peso e a pegada selvagem das composições é o que faz da banda um grande símbolo não apenas do Grindcore e do Death Metal, como do Metal Extremo como um todo e é justamente a razão pelo qual são tão queridos dentro desse cenário.
Por fim, tendo em mente que os caras adoram tocar em nosso país, principalmente em São Paulo, cidade na qual consideram ter uma das plateias mais insanas e expressivas e também pelo fato da banda tocar aqui a cada dois anos, muito em breve devemos ser presenteados novamente com mais uma dose de "brujerizmo".

Integrantes:
Juan Brujo (vocal)
El Sangrón (vocal) 
El Criminal (guitarra)
El Enbrujado (baixo) 
Hongo Jr. (bateria)

Setlist:
1. Intro/Cuiden a Los Niños
2. La Ley de Plomo
3. El Desmadre
4. Colas de Rata
5 La Migra (Cruza la Frontera II)
6. Hechando Chingasos (Greñudos Locos II)
7. ¡Viva Presidente Trump!
8. Ángel de la Frontera
09. Desperado
10. Raza Odiada (Pito Wilson)
11. Brujerizmo 
12. Anti-Castro
13. Division del Norte
14. Marcha de Odio 
15. Revolución 
16. Consejos Narcos 
17. No Aceptan Imitaciones
18. Matando Güeros
19. Marijuana (Apenas PA's e Juan Brujo nos vocais)

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