Os Melhores do Ano - BxNxFx: Lançamentos Nacionais 2020

Dizer que 2020 foi um ano muito ruim beira simultaneamente o eufemismo e o óbvio. Definitivamente foi um ano completamente tenebroso e deplorável em todos os sentidos. Além do surgimento da covid-19 e de todo o quadro pandêmico e de quarentena, tanto a saúde física como psicológica de todos nós foi severamente abalada e não é para menos. 

Falando sobre o cenário da música pesada, principalmente o meio underground, as coisas também não foram nada fáceis, visto as incontáveis adversidades enfrentadas pelos artistas independentes, que estão até agora sem poder fazer shows e tudo mais. Muitas bandas optaram por mergulhar no universo das lives, além de investirem mais em singles, splits e EPs. Entretanto, se engana quem imagina que mesmo assim não teríamos lançamentos de peso nessa época tão delicada e traumática. Muito pelo contrário, pois em matéria de novidades na cena independente, não faltou nada disso. 

Surpreendentemente, tivemos a grata surpresa de sermos presenteados com lançamentos primorosos tanto de bandas consagradas como de grandes revelações de nossa terrinha tupiniquim, algo que nos dá um certo alívio e ao mesmo tempo um sentimento de orgulho e felicidade. Sem mais delongas, vamos ao que interessa, meus caros fanfarrões e fanfarronas mosheiros, stage diveiros e afins: a lista em si!

À seguir, vocês terão um listão de diversos lançamentos brasileiros que tivemos durante esse ano maldito e totalmente esquecível. Antes que eu me esqueça, gostaria de explicar algumas coisas. Primeiramente, a lista foi separada por álbuns (full-lengths), EPs, singles e coletâneas. Os EPs, singles e coletâneas foram listados apenas em ordem alfabética e não por importância. Agora, com relação aos álbuns, os 16 primeiros também seguem esse padrão por ordem alfabética, porém temos um Top 10 bem na sequência, onde os discos seguem por ordem de preferência de nosso gosto pessoal. Tendo todas essas informações em mente, bora pra lista?

Álbuns:

Dakhmas - "The Plague" (death metal/nu-metal/black metal/industrial metal)

Desprezo - "Desprezo" (crust/powerviolence/grindcore)

Escöria - "Veias Abertas" (crust punk/d-beat)

Evil Corpse - "Apocalyptic Future" (thrash metal)

Exsim - "Exsim"  (grindcore/powerviolence)

Garrafa Vazia - "Birinaite Apocalipse" (hardcore punk)

Goela Abaixo - "A Cagada Tá Feita!" (crossover thrash/hardcore)

Guro - "Anticristo" (grindcore/death metal)

Macakongs 2099 - "Amor" (crossover thrash/hardcore)

Mofo - "Sick and Insane" (thrash metal)

Postmortem Inc - "The Conqueror Worm" (death metal)

Ratas Rabiosas - "Guerra Urbana" (hardcore punk/punk rock)

Rest in Chaos - "Trapped By Yourself" (thrash metal/metalcore)

S.U.C. - "Cartilha da Dor" (grindcore/death metal)

Venomous Breath - "Svb Vmbra Occvltorvm" (death metal)

Wargore - "Cursed Existence" (death metal)

Top 10:

10. Hereticae - "Ecos do Atlântico" (blackened death metal)

Direto de Londrina (PR), o quarteto do Hereticae abre o nosso Top 10 com seu magnífico blackened death metal. "Ecos do Atlântico" é o primeiro álbum da banda e através de suas nove faixas – todas extremamente bem construídas, por sinal –, os músicos buscam abordar a luta anticolonialista pela união e emancipação dos povos da América Latina, assim como pela memória dos ancestrais e pela preservação de nossa Mãe Terra. Além da proposta bastante rica e profunda, vale ressaltar que todas as letras desse trabalho são em português, tornando cada mensagem ainda mais poderosa. Um debut que possui uma qualidade tremenda de produção, gravação e composição, algo que beira o sobrenatural. 


09. Basalt - "Silêncio Como Respiração" (sludge/post metal)

Quatro anos após o lançamento de seu álbum de estreia, "O Coração Negro da Terra" (2016), o quinteto paulistano do Basalt retorna com "Silêncio Como Respiração", um álbum novamente dotado de muita qualidade e que nos faz sentir aquele orgulho genuíno por se tratar de uma banda de nosso país. A energia presente nessa obra é impressionante e pode soar um tanto incômoda para aqueles que não são muito familiarizados ou simplesmente não são chegados a sonoridades mais melancólicas. Entretanto se você se enquadra no time daqueles que apreciam nomes como Neurosis, Isis e Cult of Luna, então provavelmente irá adorar. No disco, temos um clima predominantemente angustiante, denso e uma atmosfera depressiva, porém tudo concebida de forma genial e impecável, resultando num material perfeito para se ouvir naqueles dias nublados e/ou chuvosos.

08. Cäbranegrä - "Abismo" (grindcore/death metal/powerviolence)

Sou extremamente suspeito pra falar de grindcore e vertentes anticomerciais e ensurdecedoras de tímpanos sensíveis e desavisados. Além disso, se tem algo que admiro muito é quando bandas desse estilo conseguem combinar o lado mais pútrido de suas composições com algumas doses cirúrgicas de experimentalismo em determinadas faixas e é exatamente isso que temos nesse debut do Cäbränegrä, banda oriunda de Blumenau (SC) que aposta numa desgraceira sonora que engloba grindcore, death metal e powerviolence, porém que ainda assim flerta com elementos eletrônicos e até remixes em alguns sons, o que torna a experiência da audição ainda mais rica, caótica e perfeita.

07. Eskröta - "Cenas Brutais" (crossover/thrash metal)

Dois anos após o lançamento do sólido EP "Eticamente Questionável" (2018), a Eskröta, grupo originalmente formado apenas por mulheres em Rio Claro/São Carlos (SP) retorna com o seu tão aguardado debut, "Cenas Brutais", registro avassalador que não apenas demonstra um baita amadurecimento das integrantes Tamy Leopoldo (baixo) e Ya Exodus (vocal/baixo), como também traz mais uma vez letras questionadoras, que botam o dedo na ferida sem dó e deixam o posicionamento do trio completamente explícito. Substituindo a baterista Miriam Momesso, entra em cena Jhon França (Blasthrash, Cerberus Attack), que executa o seu papel com muito profissionalismo e talento. Também temos participações especiais de Prika Amaral (Nervosa, Revolta), Fernanda Lira (Crypta, ex-Nervosa), Mayara Puertas (Torture Squad, Regurgimentação Necrovaginal Sangrenta) e Hugo Golon (Cemitério, Flageladör, Heritage, Whipstriker e outros), que agregam ainda mais valor a obra.

06. Vulcano - "Eye in Hell" (black/death/thrash metal)

Fiquei sabendo do novo álbum dos veteranos santistas do Vulcano bem em cima da hora, entretanto devo dizer que foi uma sábia decisão conferir esse trampo a tempo, pois se trata de um pratão cheio para todos os apreciadores daquele metal extremo old school, o que certamente é o meu caso. Vale mencionar também que esse é o primeiro lançamento da banda sem o carismático baterista Arthur Von Barbarian (Skullkrusher), que foi substituído de forma totalmente competente pelo ótimo Bruno Conrado (Heavenly Kingdom). Aqui não há tempo para firulas, apenas uma parede sonora generosamente pesada e estupidamente mortal. Deixe os portões do inferno se abrirem em sua sala logo nos primeiros arranjos dessa diabólica belezura!


05. Institution - "Ruptura do Visível" (hardcore/metal)

E agora chegamos ao Top 5! O mais novo álbum do grupo paulistano de hardcore/metal Institution é o primeiro full-length dos caras à conter letras totalmente em português e o faz com uma propriedade fantástica. Aliás, o fato em si das letras serem em português torna o feedback do disco ainda mais amplo, fazendo com que as mensagens transmitidas pelo quinteto sejam ainda mais claras e claro, mais impactantes. Diga-se de passagem, pessoalmente acho incrível como o cenário da música pesada nacional – e enfatizo muito o HC, inclusive –, está cada vez mais recheado de bandas excelentes, tanto em sonoridade como em letras e posicionamento e o Institution sem sombra de dúvidas é um desses grandes nomes. Disco intenso, subversivo e magnífico.


04. Sangue de Bode - "A Sombra que me Acompanhava era a Mesma do Diabo" (death/thrash metal/crossover)

Direto do Rio de Janeiro (RJ), o power trio do Sangue de Bode é outra grande revelação e seu álbum de estreia é uma experiência deliciosamente nauseante – no melhor sentido da palavra, atirando no caldeirão de sua fórmula mágica "from hell" death e thrash metal, além de crossover, resultando numa desgraceira amedrontadora, tanto em sua sonoridade primitiva como em suas letras em português, ácidas e violentíssimas. Transgressor, imoral, sujo, cru e terrivelmente devastador. Assim é "A Sombra que me Acompanhava era a Mesma do Diabo", uma obra que não pode deixar de ser conferida pelos mais ávidos apreciadores da boa e velha música feia e suja. 


03. Vazio - "Eterno Aeon Obscuro" (black metal)

Quem acompanha as mídias alternativas independentes certamente ouviu falar e muito nesse ano à respeito do álbum de estreia do Vazio, quarteto paulistano que executa um black metal impecável e visceral, totalmente old school e o melhor de tudo, com posicionamento antifascista. Pois bem, esse lançamento certamente não poderia ficar de fora da lista, uma vez que se trata de uma legítima obra-prima do estilo lançada em terras tupiniquins. Soturno, pesado, intenso e completamente atmosférico, "Eterno Aeon Obscuro" é aquele disco gélido desde a arte de capa até a última nota, uma excelente pedida para dias e noites frios, chuvosos e fúnebres. Obrigatório a todos os apreciadores do gênero.


02. Sepultura - "Quadra" (groove/thrash metal)

O mais novo trabalho da maior banda brasileira de metal é uma progressão natural de seu material anterior, o excelente "Machine Messiah" (2017), ou seja, novamente temos um álbum excepcional, extremamente ousado, técnico, pesado e ao mesmo tempo, carregado de uma vasta gama de nuances e harmonias incríveis. O disco é dividido em quatro partes, o que certamente torna a experiência do ouvinte ainda mais intrigante. Novamente, esse trabalho comprova como o Sepultura jamais se limitou musicalmente, sempre experimentando e se aventurando por novos horizontes e territórios, provando ser uma grande potência da música pesada mundial até hoje. Ainda temos uma participação especial da vocalista Emmily Barreto (Far From Alaska) em "Fear • Pain • Chaos • Suffering", a faixa que encerra o trabalho.


01. Maddiba - "Santo André" (crossover/hardcore/thrash metal/rap)

Em primeiríssimo lugar, está o debut do Maddiba, power trio de Santo André (SP) que executa uma fusão viciante e incisiva de crossover, hardcore, thrash metal e rap, um amálgama de subgêneros poderosos e que serve como ferramenta para as letras do grupo, impactantes, socialmente e politicamente engajadas e o mais importante de tudo – totalmente necessárias, principalmente em tempos tão sombrios e calamitosos como o que vivemos atualmente. É fã de nomes como Beastie Boys, Suicidal Tendencies, Excel, Dog Eat Dog, Câmbio Negro, Pavilhão 9, Madball e afins? Então esse disco foi feito para você!

EPs:

Agoniza - "O Significado da Carne" (death/thrash metal)

Basttardz - "Brasil com Z" (crossover/hardcore punk)

Dead Enemy - "Knowing Your Enemy" (crossover/thrash metal)

Desalmado - "Rebelião" (grindcore/death metal)

Desprezo - "Desprezo" (powerviolence/crust)

Escombro - "Cicatrizes" (hardcore)

Expurgo - "Entropic Death" (grindcore)

Imminent Doom - "Ataque!" (black/thrash metal)

Injúria - "Somos Todos Iguais" (hardcore punk)

Life in Grave - "Graveweed" (crossover/thrash metal)

Nihil Gun - "Luta de Classes" (grindcore/noise/hardcore punk)

Six Six Six Terror - "Tempos de Guerra" (crossover/thrash metal/hardcore)

Surra - "Expropriando Sua Fábrica" e "Thrashpunk Teleport: Submundo 2121" (crossover/thrash metal/hardcore)

The Hategrind Project - "Bulshit" (grindcore)

The Troops of Doom - "The Rise of Heresy" (death/thrash metal)

Vermenoise - "O Outro" (grindcore)

Zenön - "Raw, Dirty and Freak" (black/speed metal)

Singles:

Crexpo - "No Fim Há Luz", "Prova Viva", "Falso", "Você Matou Mais Um", "Admitiu", "Força", "O Nosso Apoio Não Tem" (hardcore) 

Fecal Devastation - "Pedrinho Matador (Mato por Prazer)" (grindcore/death metal)

Hempadura - "Fabrica de Revoltados" (hardcore/rap)

Jacau - "Amém, Aleluia, Assalto, Armação" e "Terra do Ódio" (hardcore/crossover)

Life in Grave - "Epidemic out of Control" (crossover/thrash metal)

Kenyatta Leste - "A Cura Pra Corrupção", "Contagem de Corpos", "Versos Preto" e "Necropolítica Aqui no Brasil" (rap)

Revolta - "Hecatombe Genocida" (thrash/death metal)

Transtorno Nuclear - "Conservative Bastard" (thrash metal/crossover)

The Troops of Doom - "Morbid Xmas" (death/thrash metal)

Vermenoise - "Megalomaníaco" (grindcore)

Xico Picadinho - "Onipresente Desolação" (grindcore/black metal)

Coletâneas:

53 Coices de Porco (vários)

Punkadaria Antifascista - Volume 1 (vários)  

Sangue Preto - "Nossa Luta Contra o Racismo" (vários)

E é isso, caros amigos! Nós da Blasting Noise Fanzine esperamos que tenham gostado da lista. Parabéns a todas as bandas e artistas aqui presentes, que conseguiram a proeza de conceber trabalhos realmente primorosos mesmo em um ano tão caótico, turbulento e completamente deprimente como esse. É realmente bastante complicado ser muito otimista com relação ao que nos aguarda em 2021, entretanto vamos cruzar os dedos para que as coisas melhorem em todos os sentidos e claro, que quando isso acontecer, os shows voltem a rolar e possamos prestigiar todas essas bandas e muitas outras, especialmente de nosso tão rico cenário independente. 

Pra finalizar, gostaria de convidar todos a compartilharem nosso conteúdo através das redes sociais, bem como curtirem a nossa fanpage no Facebook, se possível. Também deixo avisado que muito em breve rolará outro listão, dessa vez trazendo nossos lançamentos internacionais favoritos de 2020, portanto fiquem ligados!

Redigido por David "Fanfarrão" Torres

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