Antes de ontem (15), rolou a segunda edição do Overload Beer Fest, festival que reúne som pesado e cerveja. A edição anterior foi extremamente bem sucedida e não demorou para que o fest ganhasse uma nova edição. Novamente trazendo cervejas artesanais, hambúrgueres e lanches veganos, o evento ainda contou a presença das bandas nacionais Cerberus Attack (SP), Manger Cadavre? (São José dos Campos - SP), Desalmado (SP), Surra (Santos), Periferia S.A. (SP), além da atração internacional D.R.I., um dos nomes mais emblemáticos do crossover thrash. Como podem imaginar, com um line up desses, foi um evento estupidamente destruidor em todos os aspectos e nas próximas linhas fanfarrônicas vou discorrer mais à respeito.
Aliás, antes de falar propriamente sobre o fest em si, é importante ressaltar que a pandemia do coronavírus evidentemente impactou no público do evento. Muitos dos presentes desistiram e solicitaram reembolso ou venderam seus ingressos, o que é perfeitamente compreensível mediante o cenário em que estamos. Todavia, o público que compareceu nesse último domingo foi certamente generoso. O local escolhido para os shows foi o Carioca Club, localizado na região de Pinheiros. As portas da casa se abriram às 14h30 e os shows se iniciaram às 15h30, com os thrashers do Cerberus Attack.
Formado por Jhon França (vocal/guitarra), Marcelo Araujo (guitarra/vocal de apoio), Marcelo Maskote (baixo/vocal de apoio) e Bruno Morais (bateria), o quarteto do Cerberus Attack promove atualmente o seu full-length de estreia, "From East with Hate" (2017) e fizeram uma apresentação energética, como sempre. O guitarrista Marcelo Araujo incentivou o moshpit e foi prontamente atendido. É interessante comentar também que, durante a apresentação, Marcelo ainda comentou que era um sonho da banda tocar ao lado do D.R.I. desde o show ocorrido no Carioca Club em 2011. Além disso, o vocalista Diego Nogueira Sábio (Blasthrash, Anthares) também faz uma rápida participação cantando "Retrocesso" (Ratos de Porão). Em poucas palavras, foi uma excelente forma de iniciar o evento. Um aquecimento daqueles!
Na sequência, às 16h30, foi a vez do crust punk contestador do Manger Cadavre? incendiar a pista. Quem acompanha a banda sabe que o grupo sofreu duas baixas recentemente, que foram as saídas de Marcelo Dod (guitarra) e Jonas Morlock (baixo). Para esse show, a banda recrutou dois músicos substitutos para tocarem baixo, sendo eles Estevam Romera (Desalmado) e Guilherme Elias (Surra), que revezaram durante o set. Também é importante dizer que esse foi o último show do grupo com Marcelo Dod na guitarra, algo que certamente tornou a apresentação muito especial.
"Somos o Manger Cadavre?, de São José dos Campos", diz a vocalista Nata Nachthexen, que assim como Marcelo Dod (guitarra), Marcelo Kruszynski (bateria) e Estevam Romera (baixo), iniciou a apresentação encapuzada, dando um tom mais teatral à performance. "Abril Vermelho" abriu o show de forma intensa e já fez o moshpit ferver logo de cara. Após o primeiro som, a frontwoman brinca dizendo que o visual encapuzado era "anti-Corona Vírus". A vocalista também agradeceu ao público que chegou cedo para prestigiar todas as bandas. O restante do repertório contou com as composições "Incendiar", "Amazônia", "Fracasso", "Caminhos de Ferro", "Existimos", "Prefácio", "Desmascarar as Mentiras", "Déspota", "Origem da Queda", "Há Tempo Para os Sonhadores" e "O Homem de Bem". É bom ressaltar que, em um determinado momento da apresentação, Nata proferiu "Fora Bolsonaro e militares", enfatizando o posicionamento antifascista da banda. Novamente, outra performance irrepreensível!
Por sua vez, às 17h30, foi a vez do deathgrind politicamente engajado do Desalmado. A banda, formada por Bruno Leandro (baixo), Estevam Romera (guitarra), Caio Augusttus (guitarra) e Ricardo Nutzmann (bateria), promove atualmente o seu segundo full-length, "Save Us from Ouselves" (2018), primeiro registro do quarteto com letras em inglês. O vocalista Caio Augusttus já se apresenta fazendo o clássico discurso da banda, "Contra o Estado fascista e contra a opressão religiosa". O primeiro som a ser tocado é "Preço da Liberdade", que já faz o moshpit comer solto na pista novamente. O repertório da apresentação ainda contou com composições de quase todos os lançamentos da banda, sendo elas "Privilege Walls", "Hidra", "Glória", "Delírio", "Sem Nome", "Sofrer, Morrer e Apodrecer", "Bridges to a New Dawn", "Corrosion", "It's Not Your Business" e "Blessed by Money". Durante a performance, o frontman Caio disse "Foda-se Jair Messias Bolsonaro" e enfatizou que o underground é antifascista, sendo aplaudido por todos. Uma excelente apresentação e também uma aula de deathgrind/música extrema em si.
Às 18h30 foi a vez do thrashcore antifascista do Surra moer tudo e todos. O power trio formado por Guilherme Elias (baixo/vocal de apoio), Victor Miranda (bateria) e Leeo Mesquita (vocal/guitarra) já se consolidou como um dos nomes mais proeminentes do hardcore/crossover atual, graças às suas composições ultra velozes, recheados de letras tão afiadas quanto seus arranjos e riffs. Promovendo o seu segundo full-length, "Escorrendo Pelo Ralo" (2019), o Surra fez uma apresentação avassaladora e monstruosamente energética, como sempre. O repertório do show contou com as pedradas "Escorrendo Pelo Ralo", "O Mal que Habita a Terra", "Do Lacre ao Lucro", "Ultraviolência", "Embalado Pra Vender", "Peso Morto", "Tamo na Merda", "7 a 1", "Virou Brasil Pt. 2", "Caso Isolado", "Mais Um Refém", "Anestesia", "Viver em Santos", "Bom dia Senhor", "Parabéns aos Envolvidos", "Daqui Pra Pior" e "Merenda", ou seja, foi realmente matador.
Também tem alguns acontecimentos que rolaram durante a apresentação que merecem ser destacados. Além do circle pit monstruoso que tomou conta da pista desde o início da performance do power trio, stage dives e crowd surfings rolavam à todo instante. Alguns fãs conseguiram ultrapassar a grade de segurança e mandaram backing vocals em alguns sons e falando em backing vocals, Bruno Leandro (Desalmado) e Marcelo Araujo (Cerberus Attack) cantaram alguns versos de dois sons, sendo eles respectivamente "Parabéns aos Envolvidos" e "Daqui Pra Pior". Infelizmente, também teve um episódio de briga durante o show, algo que fez com que a apresentação fosse interrompida temporariamente. Apesar dos pesares, de uma forma geral, foi um show brutalmente impecável!
Logo após, às 19h50, foi a vez dos veteranos do Periferia S.A. mandarem sua aula de hardcore punk. Jão (vocal/guitarra), Jabá (baixo) e Boka (bateria) fizeram uma apresentação simples, direta e reta, como deve ser e que contou com pérolas como "Facit Indgnation Versum", "Eles", "Segunda-Feira", "Devemos Protestar", além de covers de Ratos de Porão, como "Vida Ruim", "Poluição Atômica", "Caos", "Sentir Ódio e Nada Mais", "Agressão/Repressão", "Asas da Vingança", "F.M.I." e claro, "Periferia". É interessante destacar algo que o frontman Jão disse antes de iniciar o show: "Nenhum político me representa". Como disse antes, simples, direto e reto e isso inclui a atitude da banda. Outra performance digna de nota e que fez boa parte dos presentes girarem ensandecidamente no circle pit.
Pra fechar a noite com chave de ouro, foi a vez da atração internacional mandar a sua aula de crossover. Sim, fanfarrões e fanfarronas, era hora dos mestres pioneiros do D.R.I. mostrarem mais uma vez o motivo de serem um dos maiores nomes de seu estilo. Após um dos organizadores do fest anunciar a banda, as cortinas se abrem revelando Spike Cassidy (guitarra), Kurt Brecht (vocal), Rob Rampy (bateria) e Greg Orr (baixo), que rapidamente mandam as primeiras notas da mortal "The Application". Em seguida, a pista se torna um pandemônio completo, com o circle pit tomando conta de boa parte do local. Muitos que inclusive sequer queriam fazer parte daquela diversão insana eram "atingidos" vez ou outra por muitos que estavam moshando.
Além da roda estar absolutamente intensa, é importante destacar que ainda rolava crowd surfings à todo instante e a parte mais legal de tudo isso foi ver diversas mulheres tanto na roda como promovendo stage dives e crows surfings. É do conhecimento de todos que a cena principalmente do metal é bastante machista e precisamos acabar com esse tipo de coisa. É muito gratificante ver o público feminino interagindo e participando dessa forma.
Outro ponto que merece ser destacado na apresentação dos saudosos Sujos, Podres e Imbecis foi o repertório, sempre afiado e inspirado, que contou com diversas pérolas. Além da já citada "The Application", rolaram pedradas como "Hooked", "Commuter Man", "Probation", "Wages of Sin", "Equal People", "I'd Rather Be Sleeping", "Think for Yourself", "The Explorer", "Acid Rain", "Violent Pacification", "Argument Then War", "Thrashard" (o moshpit nessas duas últimas estava fora de série!), "Slumlord", "Suit and Tie Guy", "Who Am I", "Abduction", "I Don't Need Society", "Beneath the Wheel" e claro, "The Five Year Plan". O público representou e muito, com um circle pit brutal e volumoso até dizer chega. Ao término do show, a banda arremessou palhetas, baquetas, águas e cervejas. É importante mencionar que uma fã foi atingida na testa por uma das cervejas, infelizmente.
De uma forma geral, essa segunda edição do Overload Beer Fest foi tão monstruosa como a primeira. Infelizmente, o fest ocorreu numa época tão conturbada como essa em que estamos agora, com essa onda de coronavírus. Que possamos ter muitas outras edições do Overload, especialmente numa época mais propícia para shows e eventos em geral.
D.R.I.
Integrantes:
Spike Cassidy (guitarra)
Kurt Brecht (vocal)
Rob Rampy (bateria)
Greg Orr (baixo)
Setlist:
1. The Application
2. Hooked
3. Time to Act
4. Commuter Man
5. Probation
6. Wages of Sin
7. Dry Heaves
8. Equal People
9. I'd Rather Be Sleeping
10. Yes Ma'am
11. The Explorer
12. Karma
13. Think for Yourself
14. Acid Rain
15. Violent Pacification
16. Argument Then War
17. Against Me
18. Mad Man
19. Couch Slouch
20. Who Am I
21. Slumlord
22. Dead in a Ditch
23. Suit and Tie Guy
24. Manifest Destiny
25. Syringes in the Sandbox
26. Thrashard
27. Abduction
Encore:
28. I Don't Need Society
29. Beneath the Wheel
30. The Five Year Plan
Texto e fotos por David "Fanfarrão" Torres
















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