CANNIBAL CORPSE + NAPALM DEATH - 15/09/2018 (Carioca Club, São Paulo)

Existem eventos que simplesmente não precisamos imaginar para ter a certeza de que serão de proporções esmagadoras e dentre esses muitos, podemos citar esse aqui com facilidade. Os veteranos do Death Metal estadunidense do Cannibal Corpse e os pioneiros do Grindcore britânico do Napalm Death retornaram ao Brasil nesse ano para uma turnê avassaladora, cobrindo quatro cidades, sendo elas Limeira (SP), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo, Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Manaus (AM), Fortaleza (CE) e Recife (PE).
Aqui em São Paulo, as apresentações desses dois pesos pesados da música extrema mundial ocorreram no último sábado (15), no Carioca Club, casa de shows bem conhecida e localizada no bairro Pinheiros. Sem contar com nenhuma atração de abertura, as portas do local se abriram por volta das 18h. Porém... Quem disse que não teve banda de abertura? O duo brasileiro do Test, encabeçado por João Kombi (vocal/guitarra) e Barata (bateria) fez um considerável grupo de fãs de som extremo se aglomerar ao seu redor para conferir o Grindcore sujo e pútrido concebido por eles em frente a casa.
Algum tempo depois, os presentes se aglomeravam cada vez mais no interior da casa para assistir a primeira banda da noite, o Napalm Death. Às 19h, as luzes se apagam e as cortinas do palco se abrem lentamente, revelando o baixista Shane Emburry, - que curiosamente estava vestindo uma camiseta do já mencionado Test, assim como no show realizado em 2014, também no Carioca Club - , assim como o baterista Danny Herrera, o guitarrista substituto John Cooke e claro, o enorme backdrop com o logo da banda atrás da bateria. Dos P.A.'s. ecoam as ondas sonoras cataclísmicas de "Multinational Corporations", a introdução visceral que abre o clássico álbum de estreia do grupo, "Scum" (1987). Nesse exato momento, o vocalista Mark "Barney" Greenway sobe ao palco e urra os versos "Multinational corporations/Genocide of the starving nations". Assim que a introdução se encerra, um turbilhão de caos incessante e absolutamente colérico e anti-musical toma conta da pista do Carioca Club. A Old School "Instinct of Survival" desencadeou um moshpit truculento e mortal na pista, como já era de se esperar.
Quem acompanha o trabalho do Napalm Death sabe que os caras são esmagadores tanto em estúdio como ao vivo e a performance dessa noite certamente não foi exceção. Mesmo com a ausência do guitarrista Mitch Harris, que está afastado da banda desde 2014, o músico substituto John Cooke fez, assim como na turnê brasileira de 2016, um ótimo trabalho. Para quem não sabe, Cooke também toca com o baixista e o baterista do ND na banda de Hardcore/Punk visceral Venomous Concept, banda que compartilha do mesmo sentimento caótico. Logo, não haveria substituto melhor, não é mesmo? O restante da apresentação contou ainda com a execução de "When All is Said and Done", uma das mais conhecidas de "Smear Campaign" (2006) e da clássica "Unchallenged Hate", uma das melhores músicas do segundo disco da banda, "From Enslavement to Obliteration" (1988).
Antes de tocarem a música seguinte, "Barney" faz um de seus muitos discursos de cunho político e social, declarando que os seres humanos deveriam, em sua totalidade, ser reconhecidos como seres humanos e então, oferece a todos o Grind arrasa-quarteirão de "Smash a Single Digit", direto do último álbum de estúdio do quarteto, "Apex Predator - Easy Meat" (2015). "The Wolf I Feed", de "Utilitarian" (2012) veio na sequência e sua performance foi perfeita e merece aplausos extras pelo fato de "Barney" ter que urrar e cantar as partes que originalmente são feitas pelo guitarrista afastado Mitch Harris. O vocalista se saiu muito bem e aproveito para ressaltar que seu desempenho como frontman apenas melhora com o tempo. O cara está sempre agitando de forma hiperativa pelo palco, urrando com vontade e sempre mandando discursos bem interessantes ao longo dos shows.
Antes de se prepararem para tocar a música seguinte, ainda presenciamos um momento ligeiramente engraçado, pois algum fã atirou uma camiseta do Six Feet Under no palco e "Barney" a pegou logo em seguida, fazendo uma brincadeira e deixando a mesma em algum lugar do palco. Descontrações a parte, o grupo mandou a curta pedrada "Practice What You Preach" e na sequência, "Standardization", a primeira faixa da coletânea de lados B que estão promovendo, "Coded Smears and More Uncommon Slurs" (2018), além da igualmente devastadora "Everyday Pox".
Se os fãs queriam algo realmente Old School, o momento havia chegado quando "Barney" anuncia que tocariam a faixa título do álbum de estreia do Napalm Death. Muitos presentes urram em uníssono "Scum" e pouco depois a pista se tornou um inferno completo. Outros hinos de "Scum" foram tocados em seguida, é claro. "Life" e o hino antifascista "Control" botaram todos pra agitar de alguma forma e então, era hora dos sons mais "progressivos" da banda serem tocados, as infames "micro músicas" - no melhor sentido da palavra - "You Suffer" e "Dead", que como todo fã da banda sabe, são algumas de suas menores "composições". Após a execução de ambas, "Barney" ainda brinca dizendo que esses sons eram "bem diferentes um do outro".
"Narcoleptic", uma das mais ferozes pedradas de "Order of the Leech" (2002) veio logo após. Depois, ainda tivemos o excepcional cover dos veteranos suecos do Crust Punk Anti-Cimex, "Victims of a Bomb Raid", releitura registrada no álbum de covers "Leaders Not Followers: Part 2" (2004). É hora de mais um breve intervalo, na qual "Barney" discursa como de costume, tecendo uma ácida crítica contra a religião como um todo. Então, é hora de um dos maiores hinos da banda. Diretamente do álbum "Harmony Corruption" (1990), "Suffer the Children" foi um dos pontos altos da noite, é claro. Se o moshpit já estava insano, durante a performance desse som o caos tomou proporções astronômicas.
O Hardcore experimental e "groovado" de "Breed to Breathe", do subestimado "Inside the Torn Apart" (1997) faz todos pogarem e agitarem no mesmo ritmo e, por sua vez, o Grindcore ensurdecedor e frenético de "Silence is Deafening", do excelente "The Code Is Red... Long Live the Code" (2005) incinera tudo e todos. Já "Call That an Option?", outra representante de "Coded Smears and More Uncommon Slurs", mantém o pique da apresentação. Depois de todo esse massacre sonoro, "Barney" oferece outro discurso muito interessante e humanitário, desejando dignidade para todos os seres humanos, uma reflexão a respeito da política migratória do governo de Donald Trump, nos EUA. O frontman sempre toca na ferida de forma sábia e em seguida anuncia a já bem conhecida do público "How the Years Condemn".
O clássico cover do hino antifascista do Dead Kennedys "Nazi Punks Fuck Off" é recebido calorosamente por todos - ou pelo menos quase todos, conforme explicarei mais adiante -, como sempre e as músicas "Cesspits" e "Inside the Torn Apart" encerram a apresentação da melhor maneira possível. A escolha de "Inside the Torn Apart" para finalizar o setlist foi brilhante, visto que se trata de uma composição cadenciada, densa e hipnótica. "Barney" e o baixista Shane Emburry dividiram os vocais com exímio e o desempenho da banda inteira foi irrepreensível. Ao término do show, "Barney" desejou a todos uma ótima noite e que apreciassem a apresentação do Cannibal Corpse. Os integrantes deixam o palco saudados por todos os seus fãs.
Como dizia, aparentemente nem todos os presentes aprovaram a postura antifascista do grupo, visto que um fã supostamente tentou mandar inutilmente um "Bolsonaro 2018" bem no meio do cover de "Nazi Punks Fuck Off". Como se não bastasse isso, ainda estavam vendendo camisetas com os dizeres "Bolsonaro Presidente" e uma gravura do mesmo na porta do evento. Honestamente, sem querer entrar no mérito de falar a respeito de política, ideologia ou qualquer um desses assuntos, apenas acho muito estranho e ilógico vender esse tipo de material na porta de um show, seja apoiando o político que for, diga-se de passagem. Em segundo lugar, apoiar um candidato como Jair Messias Bolsonaro e ouvir bandas extremas como Cannibal Corpse e principalmente Napalm Death, uma das bandas mais politicamente engajadas que se pode encontrar no território da música extrema mundial, é outra incoerência, entretanto, "vida que segue", como dizem.

Exatamente às 20h40, após uma pequena demora, o quinteto estadunidense do Cannibal Corpse entrou no palco, com direito a muitos fãs ovacionando o nome da banda bem alto. Atrás da bateria, era possível ver o seu enorme e sanguinário backdrop. Promovendo o seu novo álbum, "Red Before Black" (2017), Alex Webster (baixo), Paul Mazurkiewicz (bateria), Rob Barrett (guitarra), Pat O'Brien (guitarra) e George "Corpsegrinder" Fisher (vocal) começam a sua sangrenta aula de Death Metal com "Code of the Slashers", seguida por "Only One Will Die" e "Red Before Black", três representantes do mais recente trabalho do grupo. O público demonstrou total reconhecimento pela fase atual da banda, agitando sem parar e proporcionando moshpits cada vez mais violentos durante o decorrer do show.
"Scourge of Iron", de "Torture" (2012) e "Evisceration Plague", do disco homônimo de 2009 representaram o momento groovado do show e "Scavenger Consuming Death", outra do novo disco, prosseguiu com o massacre na pista. Então, tivemos uma pausa, onde carismático vocalista "Corpsegrinder" troca algumas palavras com o público e introduz a mortal "The Wretched Spawn", clássico do álbum homônimo de 2003. Eis aqui outro ponto alto - e sangrento da noite.
Também é importante destacar que, durante toda a performance, "Corpsegrinder", - que assim como Shane Emburry, do Napalm Death, também vestia uma camiseta de uma banda brasileira, nesse caso uma do Krisiun, com a estampa da capa do novo álbum "Scourge of the Enthroned", lançado nesse ano -, questionou a todos os presentes se estavam se divertindo e sempre exigia uma resposta intensa de todos, algo bem divertido. Além disso, o vocalista chegou até mesmo a gravar um de seus urros em um celular de uma fã que estava na grade, um gesto realmente admirável.
A esmagadora "Pounded Into Dust", de "Bloodthirst" (1999) fez a pista girar e tremer novamente, assim como "Kill or Become", de "A Skeletal Domain" (2014). Agora, o final da apresentação foi o mais insano e Old School possível. O quinteto nos presenteou com uma sequência de sete clássicos da banda, sendo eles "Gutted", de "Butchered at Birth" (1991), "Devoured by Vermin", de "Vile" (1996), "A Skull Full of Maggots", de "Eaten Back to Life" (1990), "I Cum Blood", de "Tomb of the Mutilated" (1993), "Make Them Suffer", de "Kill" (2006), "Stripped, Raped And Strangled", de "The Bleeding" (1994) e "Hammer Smashed Face", também de "Tomb of the Mutilated", que encerrou a apresentação da maneira mais grotesca possível, com um tenebroso e violento circle pit consumindo quase a pista inteira, - como um redemoinho sedento por sangue. Antes da carnificina se encerrar por completo, "Corpsegrinder" ainda disse, em sua tradicional voz gutural, para todos continuarem apoiando o Death Metal como um todo.
Em poucas palavras, foi uma noite completamente devastadora. Napalm Death e Cannibal Corpse são duas legítimas instituições em seus respectivos gêneros e proporcionaram a todos verdadeiras aulas de Grindcore e Death Metal. O Napalm Death moeu tudo e todos com sua proposta anti-musical e politizada, enquanto o Cannibal Corpse propagou seu esquartejamento sonoro com extremo sucesso. Inquestionavelmente, foi uma noite que entrou para a história dos eventos da música extrema mundial.

Napalm Death

Integrantes:
Shane Embury (baixo/vocal de apoio)
John Cooke (guitarra/vocal de apoio)
Mark "Barney" Greenway (vocal)
Danny Herrera (bateria)


Setlist:
1. Multinational Corporations
2. Instinct of Survival
3. When All is Said and Done
4. Unchallenged Hate
5. Smash a Single Digit
6. The Wolf I Feed
7. Practice What You Preach
8. Standardization
9. Everyday Pox
10. Scum
11. Life
12. Control
13. You Suffer
14. Dead
15. Narcoleptic 
16. Victims of a Bomb Raid (Anti-Cimex cover)
17. Suffer the Children
18. Breed to Breathe
19. Silence is Deafening
20. Call That an Option?
21. How the Years Condemn
22. Nazi Punks Fuck Off (Dead Kennedys cover)
23. Cesspits
24. Inside the Torn Apart



Cannibal Corpse

Integrantes:
Alex Webster (baixo)
Paul Mazurkiewicz (bateria)
Rob Barrett (guitarra)
George "Corpsegrinder" Fisher (vocal)
Pat O'Brien (guitarra)


Setlist:
1. Code of the Slashers
2. Only One Will Die
3. Red Before Black
4. Scourge of Iron
5. Evisceration Plague
6. Scavenger Consuming Death
7. The Wretched Spawn
8. Pounded Into Dust
9. Kill or Become
10. Gutted
11. Devoured by Vermin
12. A Skull Full of Maggots
13. I Cum Blood
14. Make Them Suffer
15. Stripped, Raped and Strangled
16. Hammer Smashed Face

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