"Os Selvagens da Noite" (1979), "The Warriors", em seu título original, é um longa que alcançou status de clássico cult e certamente um dos fatores primordiais para tal façanha é a inclusão de diversas gangues diferentes entre si em seu enredo, cada uma com seu estilo e características visuais próprios. Inspirado nessa premissa de reunir estilos diferentes entre si, a primeira edição do Warriors Festival ocorreu nesse último sábado (21), no Espaço 555, casa localizada na região central de São Paulo e de fácil localização para todos. O cast do evento contou com a presença das bandas paulistanas Eskröta, Santa Muerte Thrash/Crossover, Direction, Faca Preta, Cosmogonia, Periferia S.A., além da carioca Norte Cartel e da santista Surra. Nove bandas e todas bem diferentes umas das outras.
Também é importante mencionar que, infelizmente, devido a um imprevisto na disponibilização das passagens aéreas por parte da organização do evento, os brasilienses do D.F.C. não se apresentaram no festival. O grupo pioneiro de Crossover Thrash/Hardcore Punk fazia parte da programação e uma boa parcela que adquiriu os ingressos para o evento estava ansiosa para vê-los em ação. Felizmente, a organização já confirmou uma segunda edição para o mês de dezembro e a banda fará parte dessa nova empreitada. Por outro lado, o que rolou nessa primeira e insana edição? Vamos destrinchar tudo isso nas próximas linhas!
A abertura da casa se deu às 14h e lá pelas 15h, o evento teve início com uma energética apresentação do power trio feminino de Crossover Thrash Eskröta. Formada por Yasmin Amaral (vocal/guitarra), Tamy Leopoldo (baixo/vocal de apoio) e Miriam Momesso (bateria/vocal de apoio), a banda paulistana lançou nesse ano o seu EP de estreia, "Eticamente Questionável" e o repertório da apresentação contou com a execução de todas as sete músicas do disco, tais como "Desumana Ação", "Bife do Inferno", "Episiotomia" e "Eticamente Questionável". Durante a apresentação, as integrantes Yasmin Amaral e Tamy Leopoldo pontuaram questões importantes e reforçaram a temática feminista da banda, bem como as mensagens transmitidas nas letras de suas músicas de forma geral. Também não faltaram críticas furiosas às figuras políticas de Michel Temer e Jair Bolsonaro, é claro.
Além disso, ainda rolaram dois covers, "Aids, Pop, Repressão" (Ratos de Porão) e "Censura" (D.F.C.). Esse último cover rolou por motivos óbvios, uma vez que o show da banda foi cancelado aos 45 minutos do segundo tempo. Outro pronto bem interessante e que merece ser ressaltado foi a dupla execução da última música do EP, "Mulheres". Essa curta porrada de apenas 33 segundos foi tocada duas vezes com o propósito de reforçar a mensagem de sua letra: "Ninguém me representa, ninguém me representa, ninguém me representa, ninguém me representa/Não sou obrigada, não sou obrigada, não sou obrigada, não sou obrigada/Machista não passa, machista não passa, machista não passa, machista não passa". Em poucas palavras, foi uma baita apresentação, que contou com uma participação expressiva de parte dos presentes, que promoveram um moshpit intenso durante boa parte do show. Uma forma excepcional de iniciar o evento.
Cerca de 16h30, se inicia a apresentação do Santa Muerte, power trio feminino de Thrash Metal/Crossover. O grupo paulistano, formado em 2012 por Marília Massaro (vocal/guitarra), Rebecca Prado (baixo/vocal de apoio) e Jhully Silva (bateria), mandou composições de seu EP de estreia, "Psychollic" (2017), como "Cyco Pit", "Scars of Guilty", "Reactions" e "Trap on Track", além de um cover para o hino "Troops of Doom" (Sepultura). Parte dos presentes que já conhecia o trabalho das moças agitou durante a performance e ainda tivemos alguns breves discursos por parte da frontwoman Marília Massaro, que falou a respeito da necessidade do público feminino ser respeitado e também ressaltou a ausência do D.F.C. no cast do festival.
Às 17h20, têm início a terceira atração do fest, o quarteto de Hardcore Punk Direction. Composta por rostos conhecidos do Hardcore brasileiro, a banda conta com Fausto Oi (Inspire e ex-Dance Of Days) na guitarra, André Vieland (Good Intentions) no vocal, Thiago de Jesus (Live By The Fist) no baixo e Rafael Stringasci (Dedication) na bateria. Promovendo o seu álbum de estreia "Mesmo Horizonte" (2017), o grupo realizou uma apresentação repleta de energia e mensagens de cunho político e social fortes, complementando a proposta da banda em si.
Na sequência, foi a vez do Punk Rock paulistano do Faca Preta contagiar tudo e todos. Formado em 2013, o grupo encabeçado por Marcelo Sabino, do Chuva Negra (bateria), Anderson Boscari (guitarra), Dudu Elado (guitarra), Fabiano Santos (vocal) e Shamil Carlos (baixo) foi extremamente bem recebido por todos. Por mais que seu show tenha sido relativamente curto, até mesmo porque a banda apenas possui um EP lançado até o momento, o vinil '7"' (2014), boa parte dos presentes agitou e isso inclui Punks, Thrashers, Crossovers, Cycos, Headbangers e Straight Edges. É realmente muito prazeroso e gratificante poder ver tantos estilos distintos entre si curtindo sem preconceitos e com respeito mútuo. Antes de tocarem um dos sons, o carismático frontman Fabiano Santos fala sobre a proposta do fest de reunir estilos e vertentes diferentes. Também destaca que não é um lugar para racistas, fascistas, homofóbicos e afins. Como podem ver, outra apresentação irrepreensível e do mais alto nível.
Dando continuidade ao evento, aproximadamente 18h50 é hora dos cariocas do Norte Cartel fazerem a pista tremer com seu Hardcore Punk com fortes influências de nomes da cena nova-iorquina como Agnostic Front, Sick of it All, Madball, First Blood e afins. Formado por Daniel Portugal (guitarra), Dudu Manel (bateria), Julio Longo (baixo), Felipe Chehuan (vocal) e Marlon Pacheco (guitarra), o grupo promove atualmente o seu segundo álbum, "De Volta Ao Jogo" (2017) e o repertório musical do quinteto mesclou composições desse material com as de seu debut, "Fiel À Tradição" (2010). O show incluiu discursos incisivos a respeito da alarmante situação de nosso país, o que culminou no coro "Ei, Bolsonaro! Vai tomar no cu!" em um determinado momento do show. Mais uma vez, o moshpit tomou conta da pista, dessa vez de modo ainda mais intenso e violento, bem nos moldes das apresentações de bandas dessa vertente.
Durante as apresentações, a playlist da casa estava caprichada, tocando o melhor do Hardcore Punk, Crossover e Thrash, entretanto, algo muito inusitado ocorreu alguns instantes antes da apresentação dos santistas do Surra ter início. Um insólito Pagode – isso mesmo que você está lendo, Pagode! – ecoou dos P.A.'s, botando boa parte do público para dançar e cantar na pista. A música em questão foi "Evidências" (Raça Negra). De repente, esse momento tão adverso foi interrompido pelo frontman do Surra, Leeo Mesquita: "Roqueiro gosta de Pagode? Na minha época roqueiro tinha vergonha...", diz o músico, em um tom totalmente descontraído, provocando risos em todos.
Então, 19h30 é hora do power trio mandar o seu Thrashcore absurdamente veloz e contundente. Formado por Guilherme Elias (baixo e vocal de apoio), Victor Miranda (bateria) e Leeo Mesquita (vocal/guitarra), o grupo é um dos nomes mais proeminentes da cena independente atual e divulga atualmente o EP "Ainda Somos Culpados", lançado nesse ano. O devastador setlist dos santistas incluiu todas as quatro faixas do registro, além de outras porradas dos EPs "Bica na Cara" (2012) e "Somos Todos Culpados" (2015) e claro, do álbum de estreia "Tamo na Merda" (2016).
Falando brevemente, o show dos caras se iniciou com a nova "Arquitetos da Desgraça" e ainda contou com "Merenda", "7 a 1", "Daqui pra Pior", "Não Escolha", "Parabéns Aos Envolvidos", "Sua vez", "Xquema", "Xerifão", "Embalado pra Vender", "Cubathrash", "30 Kg de Merda", "Valeu Memo" e "O Peso da Responsabilidade", que encerrou a performance com chave de ouro. Como já é de costume, os fãs subiram ao palco, promoveram stage dives insanos, cantaram ao lado de Leeo e o moshpit na pista foi simplesmente caótico. Sem dúvidas, um show estupidamente violento pra ninguém botar defeito, como já é de se esperar de uma apresentação do Surra.
Dando continuidade às apresentações, cerca de 20h20, é a vez do quarteto feminino do Cosmogonia mandar o seu Hardcore/Punk Rock/Riot feminista. Formada em São Paulo nos anos noventa, a banda retomou as atividades em 2017, depois de um longo hiato de 12 anos. Também é interessante mencionar que entre os anos de 1998 e 2006, gravaram alguns singles e participaram de coletâneas do estilo. Atualmente composta por Gabi Delgado (vocal), Maria Esther (guitarrista/vocal de apoio), Daniela Lopes (bateria), Karol Storm (baixista), a banda executou temas como "Vida Igualitária", "TV Inculta", "Feminilidade" e "O Sentir Que Violenta". No decorrer da apresentação, a frontwoman Gabi Delgado ressaltou a importância de o público apoiar a cena musical feminina, bem com a dificuldade de tocar nos festivais, uma triste realidade que infelizmente afeta um sem-número de bandas. Ainda que o show do grupo tenha sido curto, elas conseguiram realizar uma performance muito expressiva e também transmitiram as mensagens de suas letras com muita força.
Aproximadamente 21h, era hora da apresentação mais diferenciada da noite ter início: Skamoondongos! Autoproclamados Ska Punk DuBrasil, o grupo paulistano é um dos representantes mais importantes da cena Ska nacional e alcançou um reconhecimento considerável através de videoclipes veiculados nos tempos áureos da extinta MTV. Pra se ter uma ideia, o hit "Pobre Plebeu" chegou a se tornar uma das músicas mais pedidas nas rádios naquele período. Pouco antes de iniciar o show, o vocalista Alessandro Axl Rude declarou: "Somos todas as bandas e não somos nenhuma." Além disso, o frontman reforçou a postura antifascista da banda e também dedicou o show a um black block assassinado. Dito isso, era hora da diversão ter início! Assim que a banda iniciou o seu show, todos os presentes passaram a dançar e se divertir completamente ao som de composições como "Segunda-Feira", "Ska com Maracatu", "Boêmio", "Uma Vez", "Ska de Rua" e claro, a já mencionada "Pobre Plebeu", todas faixas do álbum "Segundo" (1997).
O clima de descontração era tanto que até rolou um improvável stage dive – ou seria ska dive? – de um dos presentes. Também rolaram covers para as clássicas "Aos Fuzilados da C.S.N." (Garotos Podres), "A Message to You Rudy" (The Specials) e até mesmo uma versão para "Bella Ciao", hino da resistência italiana contra o fascismo de Benito Mussolini e das tropas nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Nem tem muito que falar! Apresentação altamente divertida e energética do início ao fim.
Encerrando o evento, beirando 22h20, é hora dos pioneiros do Periferia S.A. tocarem o terror na pista. Trajados como palhaços como uma forma de representar o povo brasileiro mediante o cenário político pelo qual atravessamos, Jão (vocal/guitarra), Jabá (baixo/vocal) e Dru Bateria) botaram todos pra moshar e agitar uma última vez. Veteranos do Punk Rock brasileiro, o trio da Vila Piauí (SP) surgiu no início dos anos oitenta e após uma pausa de 23 anos, a banda foi reativada. Durante o show, os integrantes tiraram as vestes de palhaço, revelando camisetas da CBF rabiscadas. Como podem imaginar, não faltaram comentários ácidos, cômicos e irônicos a respeito do cenário atual de nosso país.
Um momento totalmente hilário e improvável foi quando o baixista Jabá sentiu vontade de urinar e abandonou o palco, fazendo com que um fã assumisse o posto nos vocais nesse momento. Quando Jabá retornou ao palco, Jão mencionou que ele deveria usar fralda geriátrica. Sim, hilário é pouco pra isso! O repertório oferecido por Jão e cia. trouxe pérolas como "Urbanóia", "A Farsa do Entretenimento", "Segunda-Feira", "Devemos Protestar", "Fora Eles", "Recomeçar", além dos tradicionais covers de Ratos de Porão, como "Vida Ruim" e "Periferia". Essa última finalizou o festival de forma apoteótica e perfeita.
Em poucas palavras, essa primeira edição do Warriors Festival foi uma festa matadora e insana, no melhor sentido da palavra. Como foi dito antes, é sempre muito bom ver bandas e públicos heterogêneos curtindo juntos e com muito respeito entre si. Essa quebra de paradigmas e preconceitos é essencial e o festival cumpriu muito bem com a sua proposta. Outro ponto que merece destaque é o valor muito acessível cobrado pelo ingresso, principalmente tendo em mente a quantidade de bandas que integraram o cast do evento. Um excelente custo-benefício. Por fim, não resta muito a se dizer, a não ser que venha a segunda edição e que seja tão – ou mais – foda que a primeira!












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