Caro leitor(a), sabe quando o show de uma de suas bandas preferidas tem a data e o local alterado repentinamente? Pois é! É uma situação extremamente triste e chata e bem recentemente, os fãs do bom e velho Hardcore de Nova York, mais especificamente da banda veterana Madball, passaram por essa desagradável experiência. O grupo estadunidense originalmente tinha agendado uma única apresentação em solo brasileiro que aconteceria no dia 19 de março (domingo), na casa de shows Carioca Club. Entretanto, devido a problemas familiares do vocalista Freddy Cricien, o show foi adiado repentinamente na véspera do fim de semana que o evento ocorreria. Apesar desse tremendo infortúnio, pouco depois a banda anunciou uma nova data e um novo local. E eis que nesse último domingo, 09 de abril, esses verdadeiros ícones da música pesada retornaram ao Brasil para nos brindar com uma apresentação intensa e absolutamente memorável. Antes de qualquer coisa, posso garantir que a espera realmente valeu a pena!
O local escolhido dessa vez para o show ocorrer foi a
Tropical Club, uma casa de shows localizada na região do Butantã, na Zona Oeste
de São Paulo. Foi uma ótima escolha, uma vez que o local possui uma
infraestrutura ampla e aconchegante, além de possuir fácil acesso para o metrô.
Por volta das 17h30, as portas da casa foram abertas e cerca de 18h30 o evento
teve início com a primeira banda do cast, Oponente. Formada em São Paulo, em
1994, a banda é veterana no cenário underground brasileiro e tem como
influências o Hardcore Nova-iorquino de bandas como Agnostic Front, Terror, Biohazard
e o próprio Madball, além do Metal e Hardcore nacional. Ainda que a casa
estivesse com um público ainda pouco expressivo, o grupo fez uma apresentação
eficiente, ainda que muito breve, que contou com composições autorais e um
cover para “Refuse/Resist” (Sepultura).
Algum tempo depois, foi a vez do Bayside Kings subir ao
palco. Surgida em Santos, em 2011, a banda lançou no ano passado o seu quarto
álbum de estúdio, “Resistance” e já conta com uma legião bastante respeitável
de apreciadores. O repertório do grupo se iniciou com a insana “Digital Slave”,
dedicada a todos os “escravos digitais”. Pauladas como “Refuse to Sink” e “Get
Up and Try Again” foram tocadas na sequência. Aliás, quando o público menos
esperava, o vocalista Milton Aguiar desce do palco e prossegue o show ali
mesmo, cantando sempre lado a lado dos fãs. Antes de iniciar “Political Trap”, o frontman
fez um breve discurso na qual mencionou que a música que tocariam falava das
armadilhas políticas que estão ocorrendo no momento em nosso país e aconselhou
ao público a se informar sobre tudo, inclusive sobre as letras dos artistas que
ouvem. O setlist ainda contou com “Sober”, que de acordo com o vocalista,
ganhará um videoclipe em breve, “Another
Point of View”, “Miles and Miles Away”e “Still Strong”, que encerrou o show de
forma apoteótica e irrepreensível. Assim
que o show se encerrou, Milton fala em tom de brincadeira que dessa vez não
tocarão “Cyco Vision”, cover do Suicidal Tendencies que costuma estar sempre
presente nas apresentações da banda.
Cerca de 20h20, os veteranos paulistanos do Paura sobem ao
palco para mandar mais uma lição de Hardcore. A banda existe desde 1995 e
quanto mais o tempo passa, melhor soa, especialmente ao vivo, onde a interação
entre os músicos e o público é sempre muito grande. Aliás, essa é certamente
uma das maiores dádivas da cena Hardcore, uma dádiva que infelizmente não é tão
presente na maioria dos outros estilos. A casa já estava mais cheia e o público,
que já estava participando bastante no show do Bayside Kings, prosseguiu
agitando muito, mandando ver no icônico passo two-step o tempo todo. O setlist
se iniciou com a ótima “Truth Hits Hard”, faixa de abertura do até então último
álbum de estúdio da banda, “Tameless” (2014). Outras porradas que vieram a
seguir foram “Reverse the Flow”, “N.W.A. (Never Walk Alone)”, “Education”, “No
Hard Feelings!? Fuck You!”, “In the Desert of Ignorance” e “History Bleeds”. O
frontman Fabio Prandini tem um controle admirável sobre a plateia e ainda foi
responsável por discursos interessantes. “Somos todos anti-fascistas”, disse
ele, mencionando também “Foda-se o Temer! Foda-se o Lula! Foda-se a esquerda e
foda-se a direita. Temos que cuidar de nós mesmos...”. Ele também proferiu
agradecimentos à organizadora Honorsounds, além das demais bandas do evento.
E então, após tanta expectativa e ansiedade, finalmente, às
21h30, teria início a grande aula de Hardcore da noite. Acompanhado de um
membro da produção do evento, o filho pequeno de Baffo Neto, vocalista/guitarrista
do Capadócia, subiu ao palco e disse “Boa noite, São Paulo! Vocês gostam de
Hardcore? Com vocês, Madball!”. Quando Mitts (guitarra), Hoya Roc (baixo), Mike
Justian (bateria) e Freddy “Madball” Cricien” (vocal) subiram ao palco, todos
foram ao delírio e o lugar veio abaixo assim que se iniciaram os primeiros
acordes de “Hardcore Lives”. Logo em seguida, veio a clássica e curtíssima “Smell
the Bacon (What's With You?)”, seguida de “We the People” e da ultra veloz e
insana “Get Out”. O show mal havia se
iniciado e o público já estava destruindo tudo. Os músicos fazem uma breve
pausa e Freddy Cricien indaga aos presentes se preferiam que ele interagisse ao
longo da apresentação em inglês ou espanhol. A maioria optou pela segunda opção
e foram prontamente atendidos por Freddy, que se comunicou em espanhol durante todo
o show.
Diretamente do álbum “Holt It Down” (2000), a próxima música
do setlist foi “Can't Stop, Won't Stop”, acompanhada da igualmente bem recebida
“Nuestra Familia”, de “Demonstrating My Style” (1996). O caos prossegue com as
clássicas “Set it Off” e “Down by Lawn, do primeiro álbum da banda, “Set it
Off” (1994). O moshpit e o stage dive continuavam, incessantes e cada vez mais
intensos. “Mi Palabra”, “Across Your Face e “Face to Face”deram continuidade a
apresentação com perfeição, trazendo ainda mais groove e peso em cada arranjo.
“Infiltrate the System”, faixa do álbum homônimo lançado em 2007 não fez feio
perto das demais e pra variar, fez todos cantarem e agitarem sem parar mais uma
vez, assim como a clássica “Look My Way”, também de um álbum homônimo,
realizado em 1998.
Logo após, Freddy menciona que irão tocar uma música de seu
segundo álbum de estúdio, lançado em 1996 e dá-lhe “Demonstrating My Style”,
recebida com toda a brutalidade que merece. Em seguida, tivemos também a
curtíssima releitura da música do The Animals “It’s My Life”, “Para Mi Gente”, – “a versão em espanhol de “Pride (Times Are
Changing)” – , além da truculenta
“Heavenhell”. A viciante “Doc Marten Stomp”, faixa presente no até então último
disco de estúdio da banda, “Hardcore Lives” (2014), levou novamente o público em
peso a subir ao palco e a cantar o seu coro inicial em uníssono, proporcionando
um momento realmente épico. Para finalizar a apresentação com chave de ouro,
tivemos “100%” e claro, “Hardcore Still Lives”.
Ainda que o evento tenha sofrido um adiamento inesperado de
última hora, quem compareceu pôde conferir verdadeiras aulas do bom e velho
Hardcore, em especial dos veteranos do Madball, é claro, porém as bandas de
abertura foram muito bem escolhidas e mandaram muito bem o seu recado, jamais
desapontando, muito pelo contrário. Agora, um detalhe que merece ser mencionado
é o setlist do show do Madball. Ainda que tenha rolado uma votação para
escolher as músicas que seriam tocadas, realmente houve uma mudança aqui e
acolá, provavelmente por conta de algum atraso na apresentação da banda. Muitas
músicas escolhidas pelos fãs foram tocadas, entretanto outras ficaram de fora.
Seja como for, pessoalmente, não vi ninguém desapontado ou reclamando após o
encerramento da apresentação. Sorrisos estampados de orelha a orelha e rostos
nitidamente satisfeitos foi o que se viu ao fim do evento. Em poucas palavras,
um evento pra lá de memorável, insano e cativante. Que venham muito mais vezes
para cá, pois sempre serão muito bem recebidos!
Madball
Integrantes:
Freddy “Madball” Cricien (vocal);
Mitts (guitarra/vocal de apoio);
Hoya Roc (baixo/vocal de apoio);
Mike Justian (bateria).
Setlist:
01. Hardcore Lives
02. Smell the Bacon (What’s With You?)
03. We The People
04. Get Out
05. Can’t Stop, Won’t Stop
06. Nuestra Familia
07. DNA
08. Set it Off
09. Down by Law
10. Mi Palabra
11. Across Your Face
12. Face to Face
13. Infiltrate the System
14. Look My Way
15. Demonstrating My Style
16. Its My Life (The Animals cover)
17. Para Mi Gente
18. Heavenhell
19. Doc Marten Stomp
20. 100%
21. Hardcore Still Lives

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