MADBALL - 09/04/2017 (Topical Butantã, SP)


Caro leitor(a), sabe quando o show de uma de suas bandas preferidas tem a data e o local alterado repentinamente? Pois é! É uma situação extremamente triste e chata e bem recentemente, os fãs do bom e velho Hardcore de Nova York, mais especificamente da banda veterana Madball, passaram por essa desagradável experiência. O grupo estadunidense originalmente tinha agendado uma única apresentação em solo brasileiro que aconteceria no dia 19 de março (domingo), na casa de shows Carioca Club. Entretanto, devido a problemas familiares do vocalista Freddy Cricien, o show foi adiado repentinamente na véspera do fim de semana que o evento ocorreria. Apesar desse tremendo infortúnio, pouco depois a banda anunciou uma nova data e um novo local. E eis que nesse último domingo, 09 de abril, esses verdadeiros ícones da música pesada retornaram ao Brasil para nos brindar com uma apresentação intensa e absolutamente memorável. Antes de qualquer coisa, posso garantir que a espera realmente valeu a pena!

O local escolhido dessa vez para o show ocorrer foi a Tropical Club, uma casa de shows localizada na região do Butantã, na Zona Oeste de São Paulo. Foi uma ótima escolha, uma vez que o local possui uma infraestrutura ampla e aconchegante, além de possuir fácil acesso para o metrô. Por volta das 17h30, as portas da casa foram abertas e cerca de 18h30 o evento teve início com a primeira banda do cast, Oponente. Formada em São Paulo, em 1994, a banda é veterana no cenário underground brasileiro e tem como influências o Hardcore Nova-iorquino de bandas como Agnostic Front, Terror, Biohazard e o próprio Madball, além do Metal e Hardcore nacional. Ainda que a casa estivesse com um público ainda pouco expressivo, o grupo fez uma apresentação eficiente, ainda que muito breve, que contou com composições autorais e um cover para “Refuse/Resist” (Sepultura).

Algum tempo depois, foi a vez do Bayside Kings subir ao palco. Surgida em Santos, em 2011, a banda lançou no ano passado o seu quarto álbum de estúdio, “Resistance” e já conta com uma legião bastante respeitável de apreciadores. O repertório do grupo se iniciou com a insana “Digital Slave”, dedicada a todos os “escravos digitais”. Pauladas como “Refuse to Sink” e “Get Up and Try Again” foram tocadas na sequência. Aliás, quando o público menos esperava, o vocalista Milton Aguiar desce do palco e prossegue o show ali mesmo, cantando sempre lado a lado dos fãs.  Antes de iniciar “Political Trap”, o frontman fez um breve discurso na qual mencionou que a música que tocariam falava das armadilhas políticas que estão ocorrendo no momento em nosso país e aconselhou ao público a se informar sobre tudo, inclusive sobre as letras dos artistas que ouvem. O setlist ainda contou com “Sober”, que de acordo com o vocalista, ganhará um videoclipe em breve,  “Another Point of View”, “Miles and Miles Away”e “Still Strong”, que encerrou o show de forma apoteótica e irrepreensível.  Assim que o show se encerrou, Milton fala em tom de brincadeira que dessa vez não tocarão “Cyco Vision”, cover do Suicidal Tendencies que costuma estar sempre presente nas apresentações da banda.

Cerca de 20h20, os veteranos paulistanos do Paura sobem ao palco para mandar mais uma lição de Hardcore. A banda existe desde 1995 e quanto mais o tempo passa, melhor soa, especialmente ao vivo, onde a interação entre os músicos e o público é sempre muito grande. Aliás, essa é certamente uma das maiores dádivas da cena Hardcore, uma dádiva que infelizmente não é tão presente na maioria dos outros estilos. A casa já estava mais cheia e o público, que já estava participando bastante no show do Bayside Kings, prosseguiu agitando muito, mandando ver no icônico passo two-step o tempo todo. O setlist se iniciou com a ótima “Truth Hits Hard”, faixa de abertura do até então último álbum de estúdio da banda, “Tameless” (2014). Outras porradas que vieram a seguir foram “Reverse the Flow”, “N.W.A. (Never Walk Alone)”, “Education”, “No Hard Feelings!? Fuck You!”, “In the Desert of Ignorance” e “History Bleeds”. O frontman Fabio Prandini tem um controle admirável sobre a plateia e ainda foi responsável por discursos interessantes. “Somos todos anti-fascistas”, disse ele, mencionando também “Foda-se o Temer! Foda-se o Lula! Foda-se a esquerda e foda-se a direita. Temos que cuidar de nós mesmos...”. Ele também proferiu agradecimentos à organizadora Honorsounds, além das demais bandas do evento.

E então, após tanta expectativa e ansiedade, finalmente, às 21h30, teria início a grande aula de Hardcore da noite. Acompanhado de um membro da produção do evento, o filho pequeno de Baffo Neto, vocalista/guitarrista do Capadócia, subiu ao palco e disse “Boa noite, São Paulo! Vocês gostam de Hardcore? Com vocês, Madball!”. Quando Mitts (guitarra), Hoya Roc (baixo), Mike Justian (bateria) e Freddy “Madball” Cricien” (vocal) subiram ao palco, todos foram ao delírio e o lugar veio abaixo assim que se iniciaram os primeiros acordes de “Hardcore Lives”. Logo em seguida, veio a clássica e curtíssima “Smell the Bacon (What's With You?)”, seguida de “We the People” e da ultra veloz e insana “Get Out”.  O show mal havia se iniciado e o público já estava destruindo tudo. Os músicos fazem uma breve pausa e Freddy Cricien indaga aos presentes se preferiam que ele interagisse ao longo da apresentação em inglês ou espanhol. A maioria optou pela segunda opção e foram prontamente atendidos por Freddy, que se comunicou em espanhol durante todo o show.

Diretamente do álbum “Holt It Down” (2000), a próxima música do setlist foi “Can't Stop, Won't Stop”, acompanhada da igualmente bem recebida “Nuestra Familia”, de “Demonstrating My Style” (1996). O caos prossegue com as clássicas “Set it Off” e “Down by Lawn, do primeiro álbum da banda, “Set it Off” (1994). O moshpit e o stage dive continuavam, incessantes e cada vez mais intensos. “Mi Palabra”, “Across Your Face e “Face to Face”deram continuidade a apresentação com perfeição, trazendo ainda mais groove e peso em cada arranjo. “Infiltrate the System”, faixa do álbum homônimo lançado em 2007 não fez feio perto das demais e pra variar, fez todos cantarem e agitarem sem parar mais uma vez, assim como a clássica “Look My Way”, também de um álbum homônimo, realizado em 1998.

Logo após, Freddy menciona que irão tocar uma música de seu segundo álbum de estúdio, lançado em 1996 e dá-lhe “Demonstrating My Style”, recebida com toda a brutalidade que merece. Em seguida, tivemos também a curtíssima releitura da música do The Animals “It’s My Life”, “Para Mi Gente”,  – “a versão em espanhol de “Pride (Times Are Changing)” – ,  além da truculenta “Heavenhell”. A viciante “Doc Marten Stomp”, faixa presente no até então último disco de estúdio da banda, “Hardcore Lives” (2014), levou novamente o público em peso a subir ao palco e a cantar o seu coro inicial em uníssono, proporcionando um momento realmente épico. Para finalizar a apresentação com chave de ouro, tivemos “100%” e claro, “Hardcore Still Lives”.

Ainda que o evento tenha sofrido um adiamento inesperado de última hora, quem compareceu pôde conferir verdadeiras aulas do bom e velho Hardcore, em especial dos veteranos do Madball, é claro, porém as bandas de abertura foram muito bem escolhidas e mandaram muito bem o seu recado, jamais desapontando, muito pelo contrário. Agora, um detalhe que merece ser mencionado é o setlist do show do Madball. Ainda que tenha rolado uma votação para escolher as músicas que seriam tocadas, realmente houve uma mudança aqui e acolá, provavelmente por conta de algum atraso na apresentação da banda. Muitas músicas escolhidas pelos fãs foram tocadas, entretanto outras ficaram de fora. Seja como for, pessoalmente, não vi ninguém desapontado ou reclamando após o encerramento da apresentação. Sorrisos estampados de orelha a orelha e rostos nitidamente satisfeitos foi o que se viu ao fim do evento. Em poucas palavras, um evento pra lá de memorável, insano e cativante. Que venham muito mais vezes para cá, pois sempre serão muito bem recebidos!


Madball
Integrantes:
Freddy “Madball” Cricien (vocal);
Mitts (guitarra/vocal de apoio);
Hoya Roc (baixo/vocal de apoio);
Mike Justian (bateria).

Setlist:
01. Hardcore Lives
02. Smell the Bacon (What’s With You?)
03. We The People
04. Get Out
05. Can’t Stop, Won’t Stop
06. Nuestra Familia
07. DNA
08. Set it Off
09. Down by Law
10. Mi Palabra
11. Across Your Face
12. Face to Face
13. Infiltrate the System
14. Look My Way
15. Demonstrating My Style
16. Its My Life (The Animals cover)
17. Para Mi Gente
18. Heavenhell
19. Doc Marten Stomp
20. 100%

21. Hardcore Still Lives

Comentários