16 de dezembro de 2016. Caro leitor, você sabe o que aconteceu nessa mesma data há exatos vinte anos? Pois bem, simplesmente o último show do Sepultura com a formação clássica, em Brixton Accademy, em Londres. Na ocasião, a banda que já possuía o status de uma das maiores da história do Metal, promovia o seu sexto álbum de estúdio, “Roots” (1996), uma obra que se tornou extremamente influente e bem sucedida mundo afora. Vinte anos depois, os irmãos Max e Iggor Cavalera, através de uma ideia sugerida pela esposa e empresária de Max, Gloria Cavalera, decidiram embarcar em uma turnê especial comemorando o vigésimo aniversário do último trabalho que gravaram juntos no Sepultura, tocando o disco na íntegra, além de algumas outras músicas.
Muito se falou e se especulou quando surgiram as notícias de que isso aconteceria e como já era de se esperar, essa turnê não poderia ser algo exclusivo dos outros países e continentes, muito pelo contrário. Os Cavaleras passaram por três cidades brasileiras promovendo essa turnê especial: Rio de Janeiro (14/12), Minas Gerais, a sua cidade natal (15/12) e São Paulo (16/12). A apresentação realizada em São Paulo trouxe um aspecto ainda mais especial pelo fato de ter sido realizada exatamente na data do último show que Max fez com o Sepultura. Obviamente, muitos fãs compareceram para prestigiar essa histórica celebração.
O local escolhido para a performance em São Paulo foi a Tropical Butantã, casa de shows localizada na região do Butantã, na Zona Oeste de São Paulo. O espaço foi uma ótima escolha, uma vez que se trata de um local de fácil acesso ao metrô e também por possuir uma infraestrutura agradável. A abertura da casa ocorreu por volta das 19h e a primeira banda a se apresentar foi o Capadócia, banda formada em 2011 na região do ABC Paulista e que executa um Metal livre de rótulos, combinando peso, melodia e agressividade na medida certa. As composições do grupo mesclam elementos de Thrash Metal, Hardcore e Groove com propriedade e o show do grupo foi um ótimo aquecimento.
Algum tempo depois, foi a vez dos estadunidenses do Incite, – banda do enteado de Max Cavalera, Richie –, subirem ao palco. O grupo, que nunca havia tocado no Brasil antes, executou uma performance incendiária e mandou o seu Thrash/Groove Metal com precisão. Destaque total do show para o frontmen Richie Cavalera, que pulou, urrou e interagiu a todo instante com os presentes. O rapaz realmente tem muito feeling e atitude. Um momento, contudo, que soou meio polêmico e controverso para alguns foi quando Richie questionou ao público sobre qual era o significado de 16 de dezembro de 1996. Richie respondeu que essa era a data que marcava o fim do Sepultura. Pois bem, eu avisei que era algo que dividiria as opiniões, mas tudo bem, bola pra frente! O show dos caras foi muito bom, apesar de tudo. Outro grande aquecimento para a atração principal que estava por vir.
Pouco antes do show principal se iniciar, foi possível ouvir o sample com a introdução de “Ratamahatta” ecoar pelos P.A.’s, o que já serviu para “preparar o terreno” para o que estava por vir. Algum tempo depois, as luzes se apagam e os irmãos Max e Iggor Cavalera sobem ao palco, acompanhados pelo guitarrista Marc Rizzo (Soulfly) e pelo baixista Tony Campos (Asesino, Fear Factory). Carismático como sempre, Max se comunica com todos e pouco depois urra “Roots Bloody Roots” algumas vezes, auxiliado por todos os presentes. A casa veio abaixo assim que a música se iniciou. O poder e a intensidade que essa composição possui permanecem os mesmos de vinte anos atrás, não há como negar.
O frontman toca o seu berimbau, marcando assim o início de “Attitude”, da mesma forma que a composição começa em “Roots”. Max profere “Can u take it?” algumas vezes, acompanhado pelo público, que sempre canta em uníssono. A execução da música foi impecável, como sempre é quando é tocada ao vivo. Na sequência, foi a vez de “Cut-Throat”, que também foi recebida muito bem por todos.
Antes de iniciar a próxima música, Max pediu para o público cantar alguns versos com ele:
“Zé do Caixão, Zumbi, Lampião
Zé do Caixão, Zumbi, Lampião
Zé do Caixão, Zumbi, Lampião
Zé do Caixão, Zumbi, Lampião
Hello uptown
Hello downtown
Hello midtown
Hello trenchtown”
E dá-lhe “Ratamahatta”! O mesmo sample que introduz a música no álbum foi reproduzido antes da performance da banda ter início. A sua execução foi igualmente matadora e todos estavam curtindo ininterruptamente, cantando e agitando a todo instante. “Breed Apart”, a música seguinte, também não fez feio e fez todos pularem e agitarem ainda mais, especialmente em seu refrão, simples e grudento.
“What goes around, comes around!”, profere Max. E tome “Straighthate”, cujo groove insano foi a deixa para todos banguearem e pularem no mesmo ritmo da música. O vocalista/guitarrista anuncia que vão tocar um som “Punk Metal” do “Roots” e em seguida anuncia a paulada “Spit”. Outra execução aniquiladora. Os músicos fazem uma pequena pausa e então Max anuncia que vão tocar uma música que nunca foi tocada nem mesmo durante a turnê de “Roots”. E assim se inicia “Lookaway”, uma das composições mais experimentais do álbum, cuja letra foi escrita por Jonathan Davis (Korn). Nesse momento, os presentes aparentemente optaram por apenas assistir a performance, apenas observando a banda tocar.
Uma das músicas mais legais do “Roots” veio a seguir, a destruidora “Dusted”. Seu groove é absolutamente insano e não deixa nenhum presente indiferente quando é tocada. Evidentemente, dessa vez não foi diferente e todos agitaram sem parar. O mesmo pode ser dito de “Born Stubborn”, que também possui uma energia muito grande em seus arranjos. Outra performance de muita qualidade. Ainda que no álbum a música seguinte seja a curta instrumental “Jasco”, a canção não foi executada na sequência. Aliás, em nenhum dos shows da turnê ela está sendo executada ao vivo. Nesse momento, Max anuncia que o seu irmão Iggor Cavalera irá tocar “Itsári”, canção que surgiu de uma jam da banda com os indígenas xavantes. Um sample dos índios acompanhou Iggor durante a execução da música.
A pancadaria foi retomada com “Ambush”. Em um determinado trecho da música, o baixista Tony Campos e o guitarrista Marc Rizzo deixaram o palco. Nessa hora, Max tocou percussão, acompanhando o seu irmão. Agora, um momento que gostaria de fazer uma observação ocorreu em “Endangered Species”, a penúltima música de “Roots”. Quando a música chega por volta de seus três minutos de duração, a banda não termina de executá-la. Nessa parte, deveríamos ter um solo de guitarra e a música possui mais dois minutos de diferença. Para se ter uma ideia, cheguei a consultar na Internet se o Cavalera Conspiracy está tocando a música na íntegra na turnê e para minha surpresa, não está! Seja como for, foi uma boa execução, entretanto poderia ter sido melhor se os músicos tocassem essa música sem cortes.
Encerrando o repertório de “Roots”, Max pede para o público abrir um circle pit e também profere um dos trechos mais marcantes da música que irão tocar: “Tortura nunca mais!”. E então, tome a porrada “Dictatorshit”, sem sombra de dúvidas a música mais violenta do disco, com uma pegada totalmente Hardcore. Performance estupidamente brutal! Após encerrarem o set de “Roots”, Max questiona aos presentes se querem mais músicas e claro que a resposta foi mais que positiva. Nesse momento, Max e Iggor fizeram sozinhos o primeiro medley da noite, que contou com a introdução de “Black Magic” (Slayer), além de alguns versos de “War Pigs” (Black Sabbath). Então, Max diz a todos que irão revisitar os seus tempos de Death Metal e brindam a todos com o cover de “Procreation (of the Wicked)” (Celtic Frost), que por sinal é um lado B de “Roots”. Foi simplesmente genial ver essa releitura ser tocada ao vivo.
Max e Iggor fazem um segundo medley sozinhos. Dessa vez, tocam partes de “Desperate Cry” e “Beneath The Remains” (ambas do Sepultura), “Polícia” (Titãs) e “Orgasmatron” (Motörhead). Após esse medley, o guitarrista Marc Rizzo e o baixista Tony Campos retornam ao palco para tocarem o cover de “Ace of Spades” (Motörhead). Para cantar ao lado de Max, o frontman convidou o guitarrista/vocalista João Kombi, do duo de Grindcore/Death Metal paulistano Test. O show chegou ao fim com uma performance de uma versão veloz e violentíssima para “Roots Bloody Roots”. Max pediu para a galera do moshpit abrir uma roda brutal nessa hora e evidentemente o seu pedido foi atendido prontamente.
Em poucas palavras, posso dizer que o evento foi realmente memorável. Uma legítima celebração de vinte anos de um dos discos mais emblemáticos, ambiciosos, ousados, estranhos e criativos da história da música pesada mundial. Um fato que é interessante de ser mencionado é que, na plateia, pude reparar que muitos dos presentes vestiam não apenas camisetas do Sepultura da época de Max Cavalera, como também da fase com Derrick Green assumindo os vocais. Achei isso bem interessante e legal, pois provou de uma vez por todas que os fãs podem muito bem apreciar todas as fases do Sepultura, além, é claro, do Soulfly e Cavalera Conspiracy. Quem não teve a oportunidade de assistir a um show do Sepultura na turnê de “Roots” e pôde comparecer a essa apresentação ou em uma das outras duas que ocorreram nesse mês de dezembro em solo brasileiro certamente teve o privilégio de assistir a um evento histórico.
Integrantes:
Max Cavalera (vocal, guitarra, berimbau e percussão);
Marc Rizzo (guitarra);
Tony Campos (baixo);
Iggor Cavalera (bateria).
Setlist:
1. Roots Bloody Roots
2. Attitude
3. Cut-Throat
4. Ratamahatta
5. Breed Apart
6. Straighthate
7. Spit
8. Lookaway
9. Dusted
10. Born Stubborn
11. Itsári
12. Ambush
13. Endangered Species
14. Dictatorshit
Encore:
15. Medley 1: Black Magic (Intro) (Slayer cover)/War Pigs (Black Sabbath cover) (Apenas Max e Iggor)
16. Procreation (of the Wicked) (Celtic Frost cover)
17. Medley 2: Desperate Cry (Sepultura)/Beneath The Remains (Sepultura)/Polícia (Titãs)/Orgasmatron (Motörhead) (Apenas Max e Iggor)
18. Ace of Spades (Motörhead cover)
19. Roots Bloody Roots (fast version)
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