BLACK SABBATH - 04/12/2016 (Estádio do Morumbi, São Paulo)

Sempre que uma banda consagrada anuncia uma turnê de despedida, a euforia é sempre de proporções astronômicas e isso não é novidade para ninguém. Com quase cinquenta anos de atividade (!), o Black Sabbath embarcou nesse ano de 2016 em sua turnê mundial “The End”. Em solo brasileiro, a banda encabeçada por Tony Iommi (guitarra), Geezer Butler (baixo) e Ozzy Osbourne (vocal), além dos ótimos músicos contratados Tommy Clufetos (bateria) e Adam Wakeman (teclados), passou por quatro cidades, Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo, onde tocaram no Estádio do Morumbi, no dia 4 de dezembro. A primeira pergunta que faço, caro(a) leitor(a), é a seguinte: o que dizer à respeito de tamanho espetáculo que tive o privilégio de assistir? Sinceramente, creio que ainda não tenho palavras para expressar, entretanto, na medida do possível tentarei fazer isso nas linhas seguintes.

Os portões se abriram às 16h e não demorou absolutamente nada para o estádio lotar mais e mais. A primeira atração foi a banda paulistana Doctor Pheabes, que entrou no palco por volta das 18h30. A banda executa uma sonoridade calcada no Rock’n’Roll e apresentou um setlist curto, que incluiu a música “Walking Alone”, single de seu vindouro novo álbum de estúdio, “Welcome to My House”, com previsão de lançamento para o início de 2017. O tempo estava nublado e já anunciava que a chuva estava prestes a cair a qualquer momento e que não seria amena. Apesar de tudo, isso não parecia desanimar nem um pouco qualquer um dos presentes.

Cerca de 19h20, a banda estadunidense Rival Sons subiu ao palco e apresentou um repertório com sete canções. Ainda que curto, o setlist apresentou ao público que não conhecia o grupo a sua proposta musical, direcionada ao Rock’n’Roll, Blues/Hard Rock. O tema de Ennio Morricone “The Good, the Bad and the Ugly”, composto para o longa metragem “Três Homens em Conflito” (1968) foi a introdução do show da banda, que contou com as composições “Electric Man”, “Secret”, “Pressure and Time”, “Open My Eyes”, “Fade Out”, “Torture” e “Keep On Swinging”. A banda é considerada como uma das grandes revelações dos últimos anos dentro da sonoridade voltada ao Rock’n’Roll clássico e fez uma apresentação eficiente. Um aquecimento em tanto!

Eis que o momento tão aguardado pelos presentes chegou, a última apresentação da banda mais emblemática da história do Heavy Metal: o Black Sabbath! Ainda que o tempo tivesse mudado para pior e a chuva já estivesse começando a castigar a todos, engana-se quem pensa que isso seria suficiente para desanimar alguém. Pouco antes da performance dos ingleses ter início, foi possível ouvir a voz inconfundível de Ozzy Osbourne se comunicar com todos, questionando se todos estavam prontos. As luzes se apagam e então os telões exibiram uma curta introdução animada exclusiva da turnê “The End”. Pessoalmente, posso garantir que somente essa animação já valeu a presença de qualquer um. Simplesmente incrível e muito apropriada.

Em questão de segundos, também foi possível ouvir a introdução sonora do hino “Black Sabbath”, a icônica composição que abre o primeiro álbum de estúdio da banda, o debut autointitulado lançado em 1970. O fato do frontmen Ozzy “Madman” Osbourne ter quase começado a cantar o primeiro verso da letra antes do tempo provocou risos em alguns dos presentes e também deu um tom ainda mais divertido a apresentação. Brincadeiras à parte, não há como deixar de mencionar o peso e a precisão que os riffs do guitarrista Tony Iommi possuem, especialmente em “Black Sabbath”. Sua atmosfera fúnebre, malevolente e única certamente jamais será igualada e muito menos superada por qualquer outra banda. Uma forma indescritivelmente fantástica de abrir o show.

A espetacular “Fairies Wear Boots”, de “Paranoid” (1970) dá sequência ao show e convida todos a cantarem e agitarem incessantemente, assim como as magníficas “After Forever” e “Into the Void”, de “Master of Reality” (1971), cujo peso chega a ser hipnótico, algo literamente de outro planeta ou dimensão. Infelizmente, a chuva apertou e muito nessa hora, entretanto os presentes estavam em transe apesar de tudo. Parecia que nada poderia tirar o brilho da apresentação.

Ozzy anuncia a música seguinte do setlist: “Snowblind”, clássico de “Black Sabbath: Volume 4” (1972). A chuva castigava brutalmente tudo e todos, porém todos estavam cantando lado a lado com a banda, a plenos pulmões e aproveitando cada segundo da performance. O grupo faz uma pequena pausa e então Ozzy apresenta, como de costume nos shows da banda, cada um dos integrantes antes de iniciar a música seguinte, o clássico obrigatório “War Pigs”. A energia que essa composição possui ao vivo também é algo que não existem palavras capazes de descrever. Cada arranjo, cada verso, cada riff... Tudo emana um sentimento muito grande e não há como ficar indiferente quando esse som é executado.

Ao longo da apresentação, Ozzy proferiu diversas de suas frases marcantes, tais como “God bless you all!” (“Deus abençoe a todos!”) e “I can’t fucking hear you!” (“Não posso ouvi-los, porra!”), interagindo a todo instante com o público. Na sequência, a terceira e esmagadora música do primeiro álbum da banda, “Behind the Wall of Sleep”, foi tocada. Outro som que é realmente impecável ao vivo, em especial o solo arrasa-quarteirão e repleto de feeling do baixista Geezer Butler. Tal como no álbum, o músico já emenda com as notas iniciais de outro grande clássico do mesmo álbum e que tal como no disco, é a faixa seguinte do trabalho: “N.I.B.”! O peso dos riffs de Iommi toma conta de todo o local, levando todos ao delírio em instantes.  

Retornando ao álbum “Paranoid”, a banda executa a ótima instrumental “Rat Salad”, que é rapidamente seguida de um destruidor e estupidamente hipnotizante solo de bateria de Tommy Clufetos. Logo após, um hit gigantesco surge em cena: “Iron Man”! Ainda que seja uma canção que até mesmo quem não é um apreciador de Heavy Metal conheça, não há como negar a genialidade de Tony Iommi ao criar esse som. Como sempre digo, muitos artistas de valem de querer tocar as músicas mais extremas e/ou técnicas de todos os tempos, entretanto, uma tarefa muito mais árdua é desenvolver composições que se tornem verdadeiros fenômenos que atravessam gerações e nisso Iommi é um dos maiorais, não há sombra de dúvida.

Com a missão de representar um dos álbuns que mais divide as opiniões dos fãs na primeira fase do Black Sabbath, “Technical Ecstasy” (1976), “Dirty Women” foi executada com maestria ímpar. Uma performance recheada de feeling e perfeita. Outro clássico fundamental da banda foi tocado em seguida, “Children of the Grave”. Falar o que dessa composição? Simplesmente um dos hinos mais importantes e influentes da história da música pesada mundial e sua execução foi fantástica. Eis que Ozzy anuncia que a música seguinte será a última da noite e claro que não poderia ser outra, a não ser “Paranoid”! O show foi encerrado de maneira apoteótica e fabulosa.

Muitos poderão alegar que o setlist poderia ter sido maior, que a chuva atrapalhou a curtição de todos e tudo mais. Sim, o repertório poderia ter mesmo sido mais extenso e ter contando com mais clássicos e o tempo poderia ter sido mais agradável, porém, não há como negar que o que se viu e ouviu naquela noite foi uma legítima aula do mais honesto, pesado e poderoso Heavy Metal. Isso sim é impagável! Uma aula que jamais será esquecida, jamais será apagada da memória de quem esteve no evento. Independente se essa será realmente a última passagem da banda por terras brasileiras, foi uma apresentação histórica e ponto final. No final de tudo, só me resta a agradecer a Tony Iommi, Geezer Butler e Ozzy Osbourne por terem proporcionado tamanha experiência sobrenatural.

Integrantes:
Ozzy Osbourne (vocal);
Tony Iommi (guitarra);
Geezer Butler (baixo).

Músicos Convidados:
Adam Wakeman (teclado);
Tommy Clufetos (bateria).


Setlist:
1. Black Sabbath
2. Fairies Wear Boots
3. After Forever
4. Into 
7. Behind the Wall of Sleep
8. N.I.B.the Void
5. Snowblind
6. War Pigs
9. Rat Salad/Solo de bateria
10. Iron Man
11. Dirty Women
12. Children of the Grave

Encore:

13. Paranoid

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