Max e Iggor Cavalera são dois ícones inquestionáveis do Metal mundial e falar de sua importância para a música pesada é chover no molhado. Fundadores e ex-membros do Sepultura, os dois irmãos mineiros realizaram em 2016 a turnê "Return to Roots", onde tocaram o clássico "Roots" (1996), o último álbum do Sepultura com Max Cavalera nos vocais e guitarra base. Recentemente, a dupla iniciou a turnê "89/91 Era - Special Setlist", dessa vez cobrindo outras duas grandes obras monumentais de suas carreiras: os álbuns "Beneath the Remains" (1989) e "Arise" (1991), gravados nos tempos áureos do Sepultura. Como já era de se esperar, um evento tão importante como esse não poderia deixar de ocorrer em terras brasileiras. Entre as datas agendadas em solo tupiniquim, a apresentação de São Paulo aconteceu no último sábado (03), na casa de shows Tropical Butantã. O evento também contou com a presença das bandas brasileiras Ultra Violent (PR), Deaf Kids (SP) e Endrah (SP). Quer saber o que rolou nessa noite? Então vamos nos aventurar pelas próximas linhas, caro(a) leitor(a)!
Os portões da Tropical Butantã se abriram por volta das 20h. Uma chuva tomava conta da região naquele momento e houve queda de energia na redondeza. Alguns fãs ficaram apreensivos acreditando que aquilo poderia influenciar de algum modo no evento, mas felizmente nada disso aconteceu. Cerca de 20h40, pouco antes do horário programado, o power trio do Ultra Violent sobe ao palco para mostrar o seu Metalcore recheado de grooves bem construídos. Originários de Guarapuava (PR), Guilherme Rocha (vocal/guitarra), Rudy Alves (baixo) e Rafael Pelete (bateria) realizaram uma apresentação bem eficiente e que iniciou a noite com muito profissionalismo.
Aproximadamente 21h15, o power trio paulistano do Deaf Kids iniciou a sua apresentação, que indubitavelmente foi a grande controvérsia da noite. Responsáveis por executar uma fusão surreal de punk, hypnobeat, noise e psicodélico, o grupo concebeu uma performance psicodélica, experimental e extremamente ousada, que certamente dividiu e muito a opinião do público. O grupo optou por priorizar um repertório mais experimental e menos direto de seu catálogo musical e o resultado disso foi uma reação negativa por parte dos presentes. Pra se ter uma ideia, haviam alguns presentes com fones de ouvido durante o show da banda, algo infelizmente triste de se ver em um evento como esse. Infelizmente, o público do Metal muitas vezes não é tão aberto para sonoridades muito experimentais e certas propostas musicais podem soar indigestas demais para esse nicho. Seja como for, bola pra frente.
Por sua vez, o death metal/hardcore paulistano do Endrah fez a pista estremecer na sequência, às 21h55. Composto por Ryan "Relentless" Raes (vocal), Covero (guitarra), Henrique Pucci (bateria) e Adriano Vilela (baixo), o grupo foi responsável pelos primeiros moshpits da noite. Nos primeiros instantes da apresentação, não dava pra ouvir nada que o vocalista Ryan "Relentless" cantava, mas felizmente esse problema foi sanado em seguida. Pedradas como "Priced Out of Paradise" e "61 Rounds" proporcionaram um estrago em tanto. Destaque total para a performance do estadunidense "Relentless", o único integrante gringo da banda, um frontman de performance altamente energética.
E então, às 23h20, Max Cavalera (vocal/guitarra), Marc Rizzo (guitarra), Mike Leon (baixo) e Iggor Cavalera (bateria) surgem no palco, ao som da introdução acústica e melódica do clássico do Sepultura "Beneath the Remains". Não demora para que Max Cavalera urre no microfone "São Paulo! "Beneath the Remains"!" Todos foram ao delírio em seguida. A pista se tornou um verdadeiro campo de batalha, com o moshpit se alastrando com força total.
O hino "Inner Self" e a esmagadora "Stronger Than Hate" fizeram a festa dos fãs, que cantaram, banguearam e agitaram de todas as formas possíveis. Destaque total para o baixista Mike Leon, que arrebenta nas quatro cordas. O músico tocou o solo de baixo de "Stronger Than Hate" com total exímio, deixando todos de queixo caído. Além disso, "Mass Hypnosis", "Slaves of Pain" e "Primitive Future" prosseguiram com a destruição em massa. Nessa última, Max mencionou quando tocaram essa música com o Sepultura na abertura do show do Rock in Rio II, em 1991.
Nesse momento, é hora da segunda parte do show se iniciar. A introdução sonora de "Arise" ecoa pelos P.A.'s, instigando a todos. Assim que esse outro hino do Sepultura é executado, mais uma vez a obliteração é propagada pelos presentes. "Dead Embryonic Cells", "Desperate Cry", "Altered State" e "Infected Voice" também foram tocadas com a mesma intensidade caótica. Durante a execução dos covers do Motörhead de "Orgasmatron" e "Ace of Spades", Max deixou sua guitarra de lado e apenas cantou, mas nada disso diminuiu a qualidade da performance desses sons.
O encore ainda contou com mais clássicos para todos os presentes, é claro. A primeira pérola da reta final do show foi "Troops of Doom", com direito a uma palinha do riff inicial de "Raining Blood" (Slayer). Ainda tivemos "Refuse/Resist", que contou com um wall of death apresentado de forma hilária por Max. O frontman fala que quer ver os suicidas na roda e então faz um trocadilho dizendo "Suicidal Tendencies", em referência à clássica banda de Crossover/Hardcore Punk. O gran finale trouxe "Roots Bloody Roots" e o medley "Beneath the Remains"/"Arise"/"Dead Embryonic Cells", que encerrou a apresentação de forma apoteótica. Curiosamente, após o encerramento do show, foi possível ouvir ao fundo nos P.A'.s o áudio do trecho inicial do clássico filme de terror "O Massacre da Serra Elétrica" (1974).
Quem compareceu ao show teve o privilégio de assistir a uma legítima aula de Thrash Metal Old School. Para os fãs mais novos que nunca tiveram a oportunidade de assistir a um show do Sepultura em sua era clássica foi a oportunidade perfeita. Max, Iggor, Marc e Mike tocaram com vontade e proporcionaram a todos uma noite memorável, totalmente inesquecível. Max se esforçou bastante, cantou e tocou muito bem, surpreendendo até mesmo seus detratores mais críticos, além de sempre interagir com a plateia, pedindo sempre para o público gritar bem alto, pular, moshar e fazer a icônica "mão de fogo". Em contrapartida, Iggor sentou a porrada em seu kit e ainda que não execute certas viradas como antigamente, continua mandando muito bem na medida do possível. Ainda que algumas músicas tenham sido "editadas" sutilmente, como por exemplo "Stronger Than Hate", "Desperate Cry" e "Altered State", que tiveram alguns trechos limados, nada disso comprometeu a apresentação, muito pelo contrário.
Para aqueles que alegam que Max e Iggor Cavalera não são capazes de nos surpreender mais, devo dizer que estão redondamente enganados. É claro que os músicos não possuem a mesma energia de outrora, entretanto ainda são capazes não apenas de produzir um excelente som pesado, como também ainda arrebentam ao vivo. Mais uma vez, foi uma noite que entrou para história da música pesada.
Integrantes:
Max Cavalera (vocal/guitarra)
Marc Rizzo (guitarra)
Mike Leon (baixo)
Iggor Cavalera (bateria)
Setlist:
1. Beneath the Remains (Sepultura cover)
2. Inner Self (Sepultura cover)
3. Stronger Than Hate (Sepultura cover)
4. Mass Hypnosis (Sepultura cover)
5. Slaves of Pain (Sepultura cover)
6. Primitive Future (Sepultura cover)
7. Arise (Sepultura cover)
8. Dead Embryonic Cells (Sepultura cover)
9. Desperate Cry (Sepultura cover)
10. Altered State (Sepultura cover)
11. Infected Voice (Sepultura cover)
12. Orgasmatron (Motörhead cover)
13. Ace of Spades (Motörhead cover)
Encore:
14. Troops of Doom (Sepultura cover)/Raining Blood (Slayer cover) (Intro)
15. Refuse/Resist (Sepultura cover)
16. Roots Bloody Roots (Sepultura cover)
17. Beneath the Remains/Arise/Dead Embryonic Cells (Sepultura cover)(Medley)
Redigido por David "Fanfarrão" Torres








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