Hardcore Gig - Dia 2: Ratos de Porão, D.F.C. e Letall The House - São Paulo - 27/04/2019


No mês de abril, rolou em São Paulo, mais precisamente no The House, o antigo bom e velho Hangar 110, na região do Bom Retiro, a 2ª edição do Hardcore Gig, organizado pela Gig Music. Foram três datas dedicadas ao hardcore e no segundo dia, o cast foi composto pelas bandas Letall (SP), D.F.C. (DF) e Ratos de Porão (SP). É importante mencionar que o RxDxPx está em turnê comemorativa de 30 anos de seu clássico e emblemático álbum "Brasil" (1989), um dos discos mais influentes e atemporais da história, não apenas do hardcore/punk como também do metal, vide que esse registro transcende as fronteiras do punk, hardcore e thrash. Sim, falo do famoso e icônico crossover. Mas e afinal, o que rolou nesse segundo dia do Hardcore Gig? Bora lá!


Às 19h40, entra em cena a primeira atração da noite, o Letall, banda paralela do vocalista Gepeto, do Ação Direta. Além de Gepeto, o grupo ainda conta com os irmãos Wagner (guitarra) e Gigante (vocal/baixo), ambos integrantes do ET Macaco, além de Filipe Freitas (bateria), do Fistt. Formada em 2014, a banda surgiu com a premissa de mesclar influências de estilos como punk rock. proto-punk, grunge, hardcore e rock'n'roll. Até o momento, o quarteto possui dois álbuns lançados, "Máquina de Propaganda" (2016) e "Entidades" (2018). Falando sobre a apresentação da banda no evento em si, foi um ótima escolha. Gepeto e cia. realizaram um ótimo aquecimento, tocando composições como "Mundo Líquido", "Máquina de Propaganda", "Reset", "Entidades" e "Alerta", que foi precedida pela intro da clássica "Gimmie Gimmie Gimmie", do Black Flag. Nada mal pra primeira banda da noite, porém as coisas iriam esquentar ainda mais na sequência.


Em seguida, às 20h50, direto de Brasília (DF), é a vez do D.F.C. tocar o terror com seu crossover/hardcore visceral e rasteiro. Formado em 1993, o grupo é composto atualmente por Tulio (vocal), Miguel (guitarra), Leonardo (baixo) e Bruno (bateria). O sempre carismático vocalista Tulio (The Grindful Dead, ex-Possuído pelo Cão), trajando bandana e boné de aba reta, faz uma de suas típicas saudações hilárias e rapidamente oferece a primeira música do set, que não poderia ser outra a não ser o hino "Pau no Cú do Capitalismo em Posições Obscenas", do disco de estreia "Tchan Nan Nan Nan Nan" (1994). Como podem imaginar, assim que a apresentação teve início, o caos tomou conta da pista e também do palco. Incessantes stage dives rolaram no palco e um moshpit violento incendiou a pista com muito gosto, algo totalmente típico nas performances desses senhores veteranos. 


O repertório do quarteto brasiliense ainda contou com pérolas como "Lucro é o Fim", "Petróleo Maldito", "Vai Se Fuder no Inferno", "Todos Eles te Odeiam", "Venom", "Conversa pra Boy Dormir", "Cidade de Merda", cuja apresentação feita por Tulio é sempre um show a parte, "Punk ou Panqui?", "Possuído Pelo Cão", "P.A.T.A.M.O.", "Vou Chutar a Sua Cara" e claro, o clássico dos clássicos, "Molecada 666", que teve a participação do baterista Tony (Gritando HC) e também dos fãs insanos, que tomaram conta do palco de uma forma tão louca que até fez com que o guitarrista Miguel fosse impedido de tocar. 


Também é importante mencionar que em "Possuído Pelo Cão" tivemos uma convidada especial dividindo os vocais com Túlio. Antes de executarem esse tema, o frontman contou que, anos atrás, em uma das apresentações da banda, uma fã subiu ao palco e cantou essa música, demonstrando um vocal monstruoso. Após dizer isso, o vocalista convidou a moça para subir ao palco e cantar com eles. Outro momento épico desse grande show. Ah e claro, como já era de se esperar, tivemos um coro anti-Bolsonaro durante a performance. Em poucas palavras, uma performance desgraçada e intensa – do jeito que tem que ser!


Finalmente, às 22h10, é hora da atração headliner: Ratos de Porão, uma das maiores instituições do metal punk nacional. Jão (guitarra), João Gordo (vocal), Boka (bateria) e Juninho (baixo) sobem ao palco ao som de "O Guarani" e outras músicas clássicas dos tempos de ditadura, algo que ajudou a criar um clima instigante para a apresentação que estava prestes a se iniciar. Assim que Gordo anuncia "Amazônia Nunca Mais", o terror tomou conta da pista. O público agitou, cantou, moshou e devastou tudo, do início ao fim. Alguns fãs subiram ao palco novamente e cantaram alguns trechos de algumas músicas – e inclusive falarei sobre algo bastante desagradável que rolou em um determinado momento do show mais adiante.


Evidentemente, a primeira parte do show foi a execução na íntegra do histórico disco "Brasil". Todas as suas 18 faixas, citando algumas, "Aids, Pop, Repressão", "Lei do Silêncio", "Beber Até Morrer", "Plano Furado II", "Crianças Sem Futuro", "Farsa Nacionalista" e "Herança", foram tocadas com maestria e pura visceralidade. Durante a apresentação, João Gordo destacou como hoje essas composições soam cada vez mais atuais e fazem ainda mais sentido do que antes, infelizmente. Triste realidade, de fato! Nosso país se vê a mercê de uma nova onda de fascismo crescente e as letras de "Brasil" são um retrato nu e cru de nossa fatídica realidade. 


Antes de tocarem "Máquina Militar", o frontman também ofereceu a música ao atual vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, figurinha carimbada desse atual cenário político cada vez mais horroroso. Também não dá pra deixar de mencionar uma fã que subiu ao palco para cantar a clássica "Terra do Carnaval". Esse momento deixou todos boquiabertos e sem reação, incluindo João Gordo. A fã tinha um timbre, digamos, extremamente agudo e sua voz simplesmente cobriu a de Gordo, o que fez com que fosse "convidada" a sair do palco em poucos instantes. A primeira parte do show se encerrou com os quatro integrantes do RxDxPx deixando o palco ao som de "Reunião de Bacana", tema que marcou época através do grupo Os Originais do Samba.


É claro que a apresentação não havia chegado ao fim e ainda teríamos mais algumas "bonus tracks"! Gordo anuncia que outro trabalho da banda completou o seu 25º aniversário, o controverso "Just Another Crime... in Massacreland" (1994). Para celebrar o aniversário desse material obscuro, o quarteto executa "Bad Trip", "Diet Paranoia" e "Quando Ci Vuole, Ci Vuole!", que na opinião desse que vos escreve, são as melhores músicos do disco e também verdadeiras joias raras da banda. Ainda nesse encore, tivemos os petardos "Morrer, "F.M.I.", "Crucificados Pelo Sistema" e "Obrigando a Obedecer", que encerrou a apresentação com uma mortal chave de ouro.

Bom, conforme prometido, falarei sobre o tal acontecimento desagradável que rolou durante a primeira parte do show, quando o RxDxPx executou o set do "Brasil". Logo nos primeiros versos de "Lei do Silêncio", um fã da banda, que diga-se de passagem, é um conhecido meu e de muitos da cena independente, subiu ao palco para cantar no microfone do Juninho. O que muitos talvez não repararam na hora – incluindo esse amigo meu e até eu mesmo, apenas testemunhamos isso através de um vídeo que circulou pelo Facebook – é que o baixista o empurrou com o pé para fora do palco. 



Não obstante, Juninho ainda publicou um status nas redes sociais alegando que deu essa solada com gosto. Quem me conhece sabe que sou um grande fã da banda, entretanto uma postura dessas, principalmente dentro do meio do hardcore/punk é inadmissível. Quem frequenta os shows da cena hardcore sabe bem que o público interage 100% do tempo e por se tratar de uma apresentação de uma banda do calibre do Ratos de Porão, ainda mais tocando um clássico tão emblemático como "Brasil" fica mais do que evidente que ao menos alguns fãs vão querer subir para cantar alguns versos das composições. 


Entendo perfeitamente que alguns fãs acabam sendo um tanto imprudentes – pra não dizer sem noções – e acabam derrubando pendestais e interferindo de algum modo na apresentação das bandas. Contudo, isso não dá direito ao artista de empurrar, mesmo que de forma leve, qualquer um para fora do palco. Fazer piada disso após o ocorrido, então, só torna as coisas ainda mais lamentáveis. Enfim, muito se fala a respeito do respeito presente na cena hardcore/punk e isso é verdade, todavia, infelizmente, essa atitude do Juninho foi, com o perdão da palavra, uma puta bola fora. Pra finalizar, esse segundo dia da 2ª edição do Hardcore Gig foi realmente intenso e maravilhoso, sem dúvida alguma. É uma pena que infelizmente tivemos esse episódio do Juninho, que acabou deixando uma espécie de mancha negra no evento, entretanto, bola pra frente. Fica aqui apenas o questionamento e que o baixista reavalie suas atitudes. O show é de todos.

Redigido por David "Fanfarrão" Torres

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