Death - "Scream Bloody Gore" (1987)
Gravadora: Combat Records
Discutir as origens de um subgênero é uma conversa intrigante, porém que pode levar à consequências inimagináveis, principalmente se os envolvidos nessa prosa se exaltarem. Convenhamos que o público do rock/metal não é dos mais contidos e, por muitas vezes, acabam exagerando ao dizer que A ou B iniciaram algo. Enfim, já deixo avisado de antemão que não estou aqui para declarar quem é o inventor do death metal, contudo é necessário explanar alguns fatos. No início dos anos oitenta, o metal começava a se tornar cada vez mais sujo, visceral e extremo, graças ao surgimento do thrash metal, além de bandas como Venom, Hellhammer, Celtic Frost e Possessed, que estavam elevando o som pesado à um novo patamar.
Aqui no Brasil, também já tínhamos o Vulcano e o Sepultura brindando a todos com obras maravilhosamente cavernosas. Tendo esse cenário extremo tão prolífico em mente, em 1983 surgia na cena underground da Flórida (EUA) o Mantas, power trio que lançou algumas demo tapes e que, no seguinte mudou de nome para Death. Sob a liderança do jovem guitarrista e vocalista visionário Charles Michael Schuldiner (1967 – 2001) – ou simplesmente Chuck Schuldiner, ou ainda "Evil Chuck", o grupo produziu diversas demos até o ano de 1986 e então, em 25 de maio de 1987, através da gravadora Combat Records, Schuldiner e o baterista Chris Reifert conceberam o antológico full-length de estreia da banda, "Scream Bloody Gore".
Produzido por Randy Burns (Megadeth) e contando com uma icônica e tenebrosa arte de capa desenvolvida pelo talentosíssimo Edward J. Repka, nome que se tornaria sinônimo de capas de metal desde então, esse debut foi um novo divisor de águas para a música extrema. O termo "death metal" já havia sido empregado anteriormente na última música do clássico álbum de estreia do Possessed, "Seven Churches" (1985), entretanto a sonoridade aqui alcançanda era mais mais extrema e primitiva e certamente estabeleceu todos os parâmetros e elementos que se tornariam base para o tal "metal extremo" dali por diante. Antes de ontem, 25/05, esse trabalho completou o seu 33º aniversário e, nas próximas linhas fanfarrônicas, vou discorrer com detalhes sobre cada faixa presente nessa obra prima do "metal da morte".
Riffs pontuais ecoam pelos alto-falantes. Logo, entram o baixo, a bateria e os vocais cavernosos de um jovem Chuck Schuldiner, apresentando assim "Infernal Death", a debulhadora faixa de abertura do disco. Nela, encontramos um ritmo já bastante vertiginoso, além de uma letra tão sinistra quanto seus arranjos e vozes, algo que ditaria o andar de todo o restante desse trabalho. Excelente forma de iniciar o play. Por sua vez, um riff crescente, recheado de muito feeling e força vem na sequência, introduzindo um dos carro-chefes dessa obra malevolente. Falo de "Zombie Ritual", composição que já nasceu um clássico devastador do Death. Schuldiner e Reifert entregam performances arrasadoras do início ao fim. Em poucas palavras, aquele som totalmente ideal para se destruir no moshpit, se bem que, como poderão observar nas linhas fanfarrônica seguintes, o mesmo valerá para todas as faixas dessa belezura "desgracenta". Ainda sobre "Zombie Ritual", é importante dizer que, assim como outras composições do disco, sua letra foi inspirada em um clássico do terror, "Zumbi 2 - A Volta dos Mortos" (1979), do cultuado cineasta italiano Lucio Fulci (1927 – 1996).
A terceira faixa é "Denial of Life" e já se inicia com uma levada de tirar o fôlego até do mais habituado ouvinte de música extrema. Destaque para o riff pausado que acompanha o refrão. Marcante! O restante da composição ainda conta com um rifferama altamente monstruoso e solos "fritantes". Trazendo um andamento inicial mais cadenciado e que remete a algo à lá Celtic Frost, "Sacrificial" não demora para se revelar outro pandemônio sonoro de proporções sanguinolentas. Há uma quebra de ritmo próxima ao fim que é simplesmente sensacional e rapidamente a truculência e a velocidade são retomadas. É importante mencionar que há uma curiosidade bem interessante envolvendo o título dessa música. Originalmente, ela deveria se chamar "Sacrificial Cunt", porém o selo indagou à banda se poderiam encurtam o seu título, possivelmente para evitar problemas com censura.
Em seguida, é a vez de uma das minhas faixas preferidas dessa obra: "Mutilation", uma legítima voadora na fuça dos ouvintes mais sensíveis e desavisados. Seu refrão, simples, entretanto extremamente eficiente, gruda na mente e vicia de uma forma sobrenatural. "Regurgitated Guts" inicia o lado B da bolacha, começando com um andamento moderado, porém não demora muito para que o ritmo seja acelerado e a violência sonora torne à fatiar nossos tímpanos, à essa altura, bem debilitados com tamanha putrefação musical. Mais uma vez, Schuldiner se inspirou em um clássico do terror para escrever a letra, nesse caso, "Pavor na Cidade dos Zumbis" (1980), outra obra de Lucio Fulci.
Dando sequência ao massacre, temos ainda "Baptized in Blood", que se inicia com notas simples, porém instigantes, acompanhadas por um grito tenebroso de Schuldiner. Logo após, somos golpeados por mais uma sequência animalesca de arranjos nefastos e perturbadores, que emanam o mais puro enxofre, bem como por tambores que destilam o sentimento mais profundo de agressividade e selvageria. A desgraceira prossegue com "Torn to Pieces", que mantém o nível macabro e perverso das composições anteriores, intercalando novamente trechos mais contidos com as indispensáveis passagens velozes e moedoras de ossos – e tímpanos. Pra variar, sua letra foi inspirada em "Canibal Ferox" (1981), outra pérola grotesca do terror italiano.
O final dessa ensandecida obra se aproxima, e então, entram em cena arranjos relativamente melódicos de guitarra, que introduzem a maravilhosamente impiedosa "Evil Dead", outro grande clássico desse petardo e, por falar em clássico, vale mencionar que novamente a letra foi inspirada em uma obra cult do terror, o clássico "Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio (1981)". Para finalizar com uma sangrenta chave de ouro, Schuldiner e Reifert nos brindam com a maravilhosa faixa-título, que diga-se de passagem, é outro de meus momentos prediletos do álbum, tão brutal quanto qualquer outra composição presente nesse registro. Ela se inicia com um riff crescente e rapidamente eclode num apocalipse demente e colérico. Simplesmente perfeito! E claro, como já é de praxe, sua letra foi baseada em "Re Animator: A Hora dos Mortos Vivos" (1985), outra grande pérola do horror oitentista.
Caso queiramos nos aventurar ainda mais, é interessante mencionar que relançamentos de "Scream Bloody Gore" incluíram as excelentes faixas "Beyond the Unholy Grave" e "Land of no Return", ambas dois rolos compressores que conservam os mesmos elementos doentis que fizeram das dez faixas do full-length de estreia do Death um clássico monumental. E claro, "Beyond the Unholy Grave" teve mais uma vez inspiração em uma obra do cineasta Fulci, "Terror nas Trevas" (1981).
Após a audição de "Scream Bloody Gore", fica claro que estamos diante de um trabalho que certamente inovou o cenário da música extrema mundial. Como disse antes, o termo "death metal" já existia, entretanto aquela sonoridade mais macabra e intensa ainda não havia sido atingida, pelo menos até aonde temos notícia. À partir daquele momento, uma leva de outras bandas surgiria, dando luz a um novo subgênero: o death metal. Também é importante ressaltar que, embora tenham realizado uma parceira inquestionavelmente perfeita, Schuldiner e Reifert não trilharam o mesmo caminho. Reifert fundou o Autopsy, outra grande instituição do mesmo gênero, pouco tempo depois e Chuck continuou a trilhar o seu caminho pelo Death, sempre contando com músicos diferentes, porém sempre extremamente habilidosos, técnicos e precisos. Também desenvolveu os projetos paralelos Voodoocult e Control Denied anos mais tarde, diga-se de passagem.
Simples, brutal, altamente visceral, sanguinolento e perfeito, "Scream Bloody Gore" é um prato cheio para os fãs de som extremo como um todo. Todos os elementos contidos nessa obra são capazes de agradar a qualquer fã de música extrema graças ao empenho e qualidade investidos por Reifert e Schuldiner, um visionário desde sempre. Certamente, uma das obras primas mais indispensáveis do metal!
Integrantes:
Chuck Schuldiner (1967 – 2001) (vocal, guitarra e baixo)
Chris Reifert (bateria)
Músico de sessão de gravação:
Randy Burns (Percussão)
Obs.: Ainda que tenha sido creditado no álbum, o guitarrista John Hand não gravou esse trabalho e se juntou ao Death apenas depois das gravações.
Faixas:
1. Infernal Death
2. Zombie Ritual
3. Denial of Life
4. Sacrificial
5. Mutilation
6. Regurgitated Guts
7. Baptized in Blood
8. Torn to Pieces
9. Evil Dead
10. Scream Bloody Gore
Redigido por David "Fanfarrão" Torres


Matéria maravilhosa! Fiel à obra e digna de muitos aplausos
ResponderExcluirBrigadão de coração, grande Luisão! Satisfação demais!
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