[Álbuns Aniversariantes] Discharge - "Hear Nothing See Nothing Say Nothing" (1982)


Discharge - "Hear Nothing See Nothing Say Nothing" (1982)
Gravadora: Clay Records

Dentro do rock, principalmente na música pesada como um todo, nos deparamos com vertentes e subgêneros para todos os gostos e apreços. Na música extrema, então, certamente não faltam pérolas para enumerarmos, tanto dentro do metal como do hardcore punk. Responsáveis por dar origem ao termo "d-beat", os ingleses do Discharge certamente revolucionaram não apenas o hardcore punk, como ajudaram a moldar a face de tudo aquilo que viria após com o seu full-length de estreia "Hear Nothing See Nothing Say Nothing" (1982), obra prima completamente suja, visceral e perfeita do início ao fim. Nesse mês, esse registro histórico completa o seu 38° aniversário e nós, da Blasting Noise Fanzine não poderíamos deixar de prestar uma singela homenagem. 

Com o fio dos anos setenta, o cenário punk deu origem a outros subgêneros, como o pós-punk, new wave e o hardcore. Tudo estava acontecendo simultaneamente e então, algo ainda mais extremo e pútrido estava para emergir no Reino Unido. Lançado pelo extinto selo Clay Records, gravadora responsável por lançar incontáveis materiais de hardcore punk e metal e produzido por Mike Stone (1951 - 2002), que já havia trabalhado curiosamente com o Queen em "A Night at the Opera" (1975), além de ter produzido nomes como Blue Öyster Cult, Foreigner e Journey, esse emblemático debut do Discharge se tornou amplamente conhecido pela sua icônica e agressiva foto de capa em preto e branco, que serviria de inspiração para toda a cena extrema que estava em embulição naquele frutífero período dos anos oitenta. Mas, afinal, Fanfarrão, por que raios esse disco é tão influente para o cenário musical extrema? É sobre isso que falaremos nas próximas linhas fanfarrônicas!

Os tambores apocalípticos de Garry Moloney ecoam pelos alto-falantes, introduzindo a mortal faixa-título, composição que ditará o clima de tudo o que rolará na próxima quase meia hora de duração. Em seguida, entram em cena os riffs cortantes de Tony "Bones" Roberts, além do baixo "Motörheadizado" de Roy "Rainy" Wainright, acompanhados pelos berros urgentes de Kelvin "Cal" Morris. Em poucas palavras, esse som pode ser descrito como a trilha sonora perfeita para o fim dos tempos. Caótica, bruta e direta, do jeito que tem que ser. Ah e ainda há espaço para solos, simples, pontuais e maravilhosamente "toscos" — no melhor sentido da palavra!

Aliás, de cara, já devemos destacar a pegada da bateria, seca e retilínea, como se Moloney estivesse literalmente espancando o seu kit. Esse estilo se tornaria uma tendência pouco tempo depois, dando origem ao termo "d-beat", que deriva do nome da própria banda. À partir daí, toda uma leva de bandas que produziria um som com essa proposta utilizaria nomes que se iniciassem com a letra D, como Disfear, Disclose, Disarm e tantos outros e esse conceito seria levado também para o lado visual, onde as capas seguiriam os moldes da do debut do Discharge, com fotografias impactantes em preto e branco.

O massacre hediondo prossegue com a mortífera "The Nightmare Continues", faixa cujo título novamente já diz tudo. Esse é certamente outro dos grandes destaques da obra, além de ser uma das minhas músicas preferidas da banda e é caracterizada por riffs simples, mas extremamente grudentos, que ficam em sua mente com uma velocidade incrível. Novamente, temos um desempenho cru e ríspido de todos os integrantes. Na sequência, ecoa das mais profundas regiões "The Final Blood Bath", outra carnificina musical que novamente porta um riff principal muito característico. É importante ressaltar que, embora as músicas sejam tecnicamente "simples", há muita fúria, energia e feeling em cada arranjo, o que faz toda diferença.


Um dos grandes hinos da banda vem à seguir com "Protest and Survive", composição mais cadenciada, porém extremamente viciante, tudo graças aos acordes maravilhosamente agressivos e crus executados pelo grupo. Seu título, então, é uma frase imperativa que emana muita ação e desejo por rebelião. "I Won't Subscribe", por sua vez, tem uma pegada mais selvagem e novamente cativa com seu ar "Motörhead encontra Venom".

A sexta faixa — ou ataque sonoro — é "Drunk with Power", outro belíssimo destaque dessa obra malevolente e mais uma vez, figura entre minhas composições preferidas dos caras, justamente por conter uma estrutura simples, contudo muito bem organizada e grudenta, mesmo em meio à um pandemônio sonoro tão caótico e vertiginoso. "Meanwhile", em contrapartida, se inicia com um baixo completamente sujo e distorcido, que certamente deixaria Lemmy Kilmister (1945 — 2015) orgulhoso. E o som como um todo? Trilha sonora mais do que apropriada para se destruir completamente no moshpit.

Iniciando o lado B da bolacha, temos a ótima "A Hell on Earth", que traz aquela estrutura "arroz com feijão" da banda: "cozinha" energética e crua, riffs excruciantes e simples, solos viscerais e letras gritadas com muita cólera. Em seguida, temos aquela que é a faixa mais longa do play, "Cries of Help", com seus "longos" três minutos e oito segundos de duração. Só pelo naipe da descrição já dá pra sentir que os caras queriam mesmo era saber de velocidade e "visceralidade", não é mesmo?

Um "sample" amedrontador entra em cena e rapidamente dá lugar à infame — no melhor sentido da palavra, que fique bem claro — "The Possibility of Life's Destruction", mais um rolo compressor de alta octanagem. Jamais permitindo o pobre ouvinte recuperar o fôlego, nossos pobres tímpanos abatidos são novamente metralhados pela vil explosão sonora de "Q: And Children? A: And Children", outro petardo avassalador e capaz de devastar pequenos vilarejos com apenas algumas de suas letais notas. 

O final da bolacha se aproxima e então é a vez de "The Blood Runs Red", outra faixa que fica na memória graças à sua "simplicidade". Faixa igualmente mortal e impetuosa. O penúltimo holocausto da obra é "Free Speech for the Dumb", composição de andamento mais contido, porém igualmente visceral e energética, possuindo quebras de bateria que ficarão eternamente em sua mente, além de arranjos extremamente simples no geral, porém igualmente geniais. E a letra? É apenas o título da faixa repetida diversas vezes. Em português, "Livre discurso para o mudo". Fantástico! O "gran finale" fica reservado para a pontual "The End", que encerra essa obra prima com todo poder de destruição imaginável. 

Após ouvirmos esse disco de ponta a ponta, podemos dizer seguramente que trata-se de uma experiência sonora extremamente obrigatória não apenas para todos os apreciadores de hardcore punk e/ou metal, como também de música extrema como um todo. "Hear Nothing See Nothing Say Nothing" é um holocausto anti-musical de proporções astronômicas. Cada elemento contido em seus quase trinta minutos de duração foi responsável por moldar, influenciar ou construir o caminho de diversos subgêneros como thrash metal, crossover, death metal, black metal, crust punk e grindcore. 

Quer seja pela levada icônica e impetuosa da bateria, pelo baixo altamente distorcido e cru, pelos riffs e solos claustrofóbicos e viscerais, pelos vocais berrados e desesperados ou ainda pelas suas letras diretas, todas em formatos de pequenos versos, algumas delas meras frases impactantes e agressivas, tudo isso contribuiu drasticamente para a proliferação de tudo o que surgiu em seguida. Sem sombra de dúvidas é o melhor e mais importante trabalho da carreira do Discharge, além de um dos álbuns mais importantes da música extrema mundial. Desconfie severamente de quem diz gostar de som visceral e não aprecia essa pérola.

Simplesmente obrigatório!

Integrantes:
Kelvin "Cal" Morris (vocal)
Tony "Bones" Roberts (guitarra)
Roy "Rainy" Wainright (baixo)
Garry Moloney (bateria)

Faixas:
1. Hear Nothing See Nothing Say Nothing
2. The Nightmare Continues
3. The Final Blood Bath
4. Protest and Survive
5. I Won't Subscribe
6. Drunk with Power
7. Meanwhile
8. A Hell on Earth
9. Cries of Help
10. The Possibility of Life's Destruction
11. Q: And Children? A: And Children
12. The Blood Runs Red
13. Free Speech for the Dumb
14. The End

Redigido por David "Fanfarrão" Torres

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