Repulsion - "Horrified" (1989)
Gravadora: Necrosis Records
Nos anos oitenta, o metal e o hardcore punk estavam evoluindo gradativamente, dando lugar à vertentes e subgêneros cada vez mais extremos e viscerais. Entre o nascimento do thrash, do speed e do death metal, inclusive, estava emergindo uma nova sonoridade, ainda mais bruta, direta, selvagem e primitiva, que flertava com a velocidade do hardcore punk e a destreza e a precisão do metal extremo. Essa vertente viria à ser batizada de grindcore pelo baterista Mick Harris (Scorn, ex-Napalm Death, ex-Defecation). O que talvez muitos não saibam é que, antes mesmo do seminal álbum de estreia do Napalm Death ser lançado, o histórico "Scum" (1987), no entanto, já existia uma banda estadunidense que praticava uma sonoridade com as mesmas características que o grupo inglês.
Formado em 1986, em Flint, Michigan (EUA), o Repulsion foi um dos nomes cruciais para os primeiros anos do grindcore. No ano de 1986, Scott Carlson (vocal/baixo), Aaron Freeman (guitarra), Dave "Grave" Hollingshead (bateria) e Matt Olivo (guitarra) lançam a demo tape "Slaughter of the Innocent", em junho de 1986, no Silver Tortoise Soundlab, Ann Arbor, em Michigan. Porém, apenas em março de 1989 o quarteto se dirigiu até a Necrosis Records, onde Jonas Berzanskis, Carlson e Freeman a remixaram e sob a produção de Doug Earp (1953 – 2004) e do próprio Repulsion lançam o material, agora rebatizado de "Horrified".
Lançado oficialmente em 29 de maio de 1989, sob o selo da extinta Necrosis Records e contendo uma das artes de capa mais emblemáticas da música extrema mundial, cortesia de Michael Grossklaus, esse único full-length da banda continha as mesmas dezoito faixas da demo tape e certamente ajudou a "estragar" ainda mais a mente de muitos naquele período, bem como impulsionar completamente o som extremo que estava cada vez mais alcançando o seu merecido reconhecimento ao redor do globo, graças à bestialidade contida não apenas na sonoridade, como também nas letras recheadas de "gore" e vísceras escritas pela banda, inspiradas em longas metragens de terror, uma febre constante naquele período. Hoje, esse grande clássico da podreira anti-musical completou o seu 31° aniversário e nas próximas linhas fanfarrônicas, vou dissecar faixa a faixa dessa obra tão podre quanto sua repulsiva arte de capa.
"The Stench of Burning Death" é a faixa que abre o disco e seu riff inicial é um dos mais memoráveis da história do grindcore mundial, com uma pegada até meio "alegre" e cadenciada, entretanto, é apenas uma forma de ludibriar o ouvinte mais ingênuo. Rapidamente, somos bombardeados com um enxame de guitarras cruas e "abelhudas", bem como por um baixo corrosivo, tambores catastróficos e claro, vocais altamente viscerais e ferozes, quase como se fosse proferidos por uma voraz entidade sobrenatural e/ou demoníaca. Ah e claro, ainda há espaço para um solo frenético e que soa como uma legítima pandemônio sonoro. A faixa perfeita e a forma mais perfeita de iniciar um trabalho tão nefasto como esse.
A segunda faixa é "Eaten Alive", outro cântico putrefato e perverso que pode ser sintetizado como um legítimo redemoinho de caos incessante e que conserva os mesmos elementos da faixa anterior, porém tão ou mais macabros e intensos. Uma levada atroz de bateria introduz "Acid Bath", acompanhada por riffs crus, um baixo distorcido e vocais completamente enfurecidos. Seu final contem algumas pequenas "fraturas" que funcionam muito bem e se tornariam elementos recorrentes em outros trabalhos do gênero.
Por sua vez, outro grande carro-chefe da obra vem à seguir com a estupidamente monstruosa "Slaughter of the Innocent", que já se inicia com um riff preciso e marcante, que lhe dá muita personalidade. Posso resumí-la como uma desgraceira altamente contagiante e estupenda. Um holocausto "moshante"! "Decomposed" é outro petardo que surge na sequência e não faz feio, entregando o mesmo poder de destruição anti-musical que à composição anterior e seus arranjos altamente "fritantes" a fazer brilhar ainda mais.
Em seguida, temos outra composição que quem vos escreve particularmente aprecia por demais, que é "Radiation Sickness", uma pancadaria recheada de riffs e arranjos claustrofóbicos e ainda que seja uma composição relativamente mais cadenciada que as anteriores, não deixa de ser uma legítima avalanche. Tire suas próprias conclusões, meus caros amigos fanfarrões! E falando em fanfarronice, a algazarra anti-musical prossegue com "Splattered Cadavers", uma composição tão vil e suja quanto seu título nada amigável. Aaaarrgh!!!!
"Festering Boils" começa com uma pegada galopante e que faz qualquer um enlouquecer em questão de meros segundos. O seu final, então, é a definição do que é grindcore. Ouça e comprove. Na sequência, temos "Pestilent Decay", faixa que é encarregada de encerrar o lado A da bolacha e o faz com tamanha facilidade, graças ao seu tornado de acordes absolutamente grotescos e malevolentes.
Hora de virar a bolacha ao contrário e partir para o igualmente sanguinolento e barulhento lado B. Começamos muito bem, com a pestilenta "Crematorium", composição que irá triturar não apenas os seus tímpanos, como também o seu crânio. Prepare-se para um apocalipse sonoro em forma de anti-música! Logo após, temos "Driven to Insanity", som que apresenta uma pegada mais contida em seu início e rapidamente dá lugar à mais pura e infame insanidade. Um riff ameaçador emerge pelos alto-falantes e eclode em um incendiário massacre sonoro batizado de "Six Feet Under". O nível de aniquilação anti-musical é tanto que nos perguntamos como os integrantes da banda não deixam a peteca cair por uma fração de segundos sequer.
Um riff bastardo e colérico introduz "Bodily Dismemberment", composição que realmente soa como um legítimo esquartejamento sonoro. A sensação que temos ao ouvir tamanha desgraceira é de que nossos membros serão amputados com a mesma crueldade que os integrantes da banda empregam em seus postos. A faixa que dá nome à banda ecoa pelos alto-falantes e, sem surpresa alguma, emana o mais profundo aroma de enxofre e putefração. Sem jamais permitir que possamos nos recuperar de tamanha agressividade, somos novamente norteados à degradação com a infame "The Lurking Fear". O caos, a loucura e o barulho jamais se cessam.
Essa macabra bolacha está chegando ao fim e então, temos uma trinca de altíssimo respeito para encerrar essa obra da forma mais perfeita e grotesca possível. Primeiro, surge a cadenciada, mas sempre visceral "Black Breath", composição perfeita para "banguear" no mesmo ritmo. Depois, temos o hino dos hinos e talvez a minha faixa predileta do trabalho "Maggots in Your Coffin", composição que atira até o mais incrédulo dos ouvintes num vertiginoso moshpit instantaneamente e enfim, encerrando o disco, surge a pandêmica faixa-título, que fará sua cabeça desgrudar de seu pescoço logo após sua execução. A epítome da desgraceira anti-musical!
Ainda que tenha lançado apenas um único disco, o Repulsion se tornou um nome emblemático e cult dentro da comunidade da música extrema mundial e "Horrified" foi canonizado como uma obra extremamente influente dentro de sua proposta. Impossível falar de grindcore e não lembrar de obras como "Scum" e "From Enslavement to Obliteration" (Napalm Death), "Reek of Putrefaction" e "Symphonies of Sickness" (Carcass), "World Downfall" (Terrorizer), "Extreme Conditions Demand Extreme Respondes" (Brutal Truth) e "Horrified". Assim como em todas as outras obras citadas, todos os elementos necessários para se produzir um bom disco do gênero estão aqui e certamente continuarão servindo de inspiração para todas as gerações seguintes mesmo após todos esses anos.
Integrantes:
Scott Carlson (vocal/baixo)
Aaron Freeman (guitarra)
Dave "Grave" Hollingshead (bateria)
Matt Olivo (guitarra)
Faixas:
1. The Stench of Burning Death
2. Eaten Alive
3. Acid Bath
4. Slaughter of the Innocent
5. Decomposed
6. Radiation Sickness
7. Splattered Cadavers
8. Festering Boils
9. Pestilent Decay
10. Crematorium
11. Driven to Insanity
12. Six Feet Under
13. Bodily Dismemberment
14. Repulsion
15. The Lurking Fear
16. Black Breath
17. Maggots in Your Coffin
18. Horrified
Redigido por David "Fanfarrão" Torres




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