[Álbuns aniversariantes] Napalm Death - "Diatribes" (1996)
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Napalm Death - "Diatribes" (1996)
Gravadora: Earache Records
Quem é um apreciador de música, em especial de rock/metal, sabe muito bem que diversas bandas e artistas que escutamos já se arriscaram por territórios altamente perigosos diversas vezes, produzindo lançamentos considerados por uma grande parcela do público extremamente controversos. Particularmente, sempre considerei experimentalismos uma tática muito bem-vinda, não é a toa que boa parte de minhas bandas preferidas ousaram e ainda ousam bastante dentro de sua proposta — ou até mesmo muitas vezes se desvinculando de suas raízes originais, contudo sem perder a sua essência e o mais importante, sua qualidade.
Sim, experimentalismos podem realmente ser muito arriscados e provocar consequências desastrosas e muitas vezes vexaminosas, entretanto engana-se aquele que acreditamente cegamente que ficar na zona de conforto é saudável, especialmente quando se têm tanto potencial para ir muito além do imaginado. Dessa maneira, nesse vasto número de álbuns que dividem drasticamente as opiniões entre os ouvintes, temos obras criminalmente subestimadas e uma dessas incontáveis maravilhas é "Diatribes", o sexto álbum de estúdio de uma das maiores instituições da música extrema musical, a banda inglesa Napalm Death.
Lançado em 30 de janeiro de 1996, via Earache Records e produzido pelo experiente Colin Richardson, que inclusive já trabalhou com a banda em mais de uma ocasião, além de já ter produzido trabalhos emblemáticos de nomes como Brutal Truth, Fear Factory e Carcass, essa sexta entrega de estúdio do até então quinteto é um dos trabalhos mais injustiçados lançados em sua longa trajetória, justamente por fugir quase que completamente do direcionamento anti-musical dos primórdios da banda.
Ou seja, sabe aquele grindcore ensurdecedor, estupidamente anti-musical, executado na velocidade da luz e completamente colérico presente em "Scum" (1987), "From Enslavement to Obliteration" (1988) e nos primeiros EPs da banda? Pois bem, esqueça isso. Também não temos o deathgrind de "Harmony Corruption" (1990) ou "Utopia Banished" (1992). Ora, Fanfarrão... então o que temos nessa bagaça? Vamos dissertar sobre isso mais adiante, meus caros amigos e amigas, porém antes disso vou contextualizar alguns fatos importantes que certamente contribuíram para essa empreitada tão atrevida.
"Fear, Emptiness, Despair" (1994), o quinto álbum de estúdio do NxDx, foi uma progressão dos dois trabalhos antecessores, apostando em uma incursão ainda maior de industrial e groove, algo que já estava presente em doses moderadas principalmente em "Utopia Banished" e embora tenha muitos blast beats, já apontava que a banda desejava partir para um outro caminho, mais cadenciado e audacioso. Vale lembrar que até mesmo o icônico logotipo da banda mudou para algo mais clean e de fácil leitura, remetendo às bandas mais alternativas dos anos noventa. Era o início da chamada fase "experimental"!
Em 21 de novembro de 1995, o grupo lança o EP "Greed Killing", material que trazia sete faixas, sendo duas delas parte integrante do vindouro novo álbum, "Greed Killing" e "My Own Worst Enemy". Creio que aqueles que ouviram esse pequeno disco em sua época de lançamento devem ter se espantado consideravelmente, visto que a pegada era ainda mais diferenciada e já era um presságio de como o próximo full-length seria.
Influenciados por bandas de rock, metal e hardcore daquele período e sem qualquer temor de tentar coisas novas, os caras finalmente lançam no início do ano seguinte o famigerado "Diatribes", que assim como o "Greed Killing", trazia uma arte de capa no mínimo estranha para os padrões da banda, algo bastante abstrato e que indicava que as coisas definitivamente não eram as mesmas de outrora.
O ouvinte mais ortodoxo dos primórdios da banda e de grindcore/deathgrind como um todo certamente tomará um susto logo ao dar o play no disco, caso seja seu primeiro contato com esse trabalho. A faixa de abertura, "Greed Killing", é um groove metal que foge completamente da proposta original do grupo, algo que certamente incomodou os fãs mais adversos à mudanças, ainda mais aqueles que já não haviam aprovado o direcionamento tomado no álbum anterior.
Todavia, engana-se o ouvinte que imagina que tal façanha empregada pela banda seja desprovida de qualidade. Muito pelo contrário, pois o que temos logo de cara é uma faixa de abertura monstruosamente intensa, viciante e altamente contagiante, perfeita para urrar junto com a banda a plenos pulmões. Esse que vos escreve teve o privilégio de assistir o NxDx executar esse som numa apresentação aqui em São Paulo, em 2016 e posso dizer com todas as letras que é uma composição incrível e perfeita para se tocar ao vivo.
E se a sonoridade têm uma face muito mais noventista e "modernosa", saibam que tanto a letra de "Greed Killing" como as demais do disco mantém o mesmo viés questionador e progressista dessa instituição da música extrema. Enfim, a cativante faixa de abertura certamente é um dos grandes destaques da obra e uma de minhas favoritas do play.
Eis que vamos para a segunda faixa, "Glimpse into Genocide", uma composição igualmente cadenciada e que apresenta riffs bem interessantes e marcantes. Aliás, o ritmo e o groove são características não apenas predominantes como fundamentais nesse período da banda. Ainda que possua um andamento moderado e novamente não possua os debulhadores blast beats tão característicos do NxDx, é novamente um som de extremo bom gosto e igualmente empolgante.
Por sua vez, a terceira faixa, "Ripe for the Breaking", é outra de minhas favoritas. Essa é a primeira faixa do álbum a apresentar blast beats e um trecho mais vertiginoso, entretanto o experimentalismo continua presente. O instrumental é impecável e sobrenatural, como sempre e ainda há espaço para camadas de guitarras formidáveis intercalando o refrão. Pense em algo hipnótico e relativamente psicodélico/surreal.
O final da composição, então, é espetacular e capta com perfeição a vibe das bandas não apenas de metal como de hardcore e derivados dos anos noventa, com um breakdown recheado de punch e vigor demasiado. Destaque também para os backing vocals estridentes do guitarrista Mitch Harris nos últimos segundos da faixa, recurso esse que se tornaria extremamente frequentemente na banda, especialmente ao vivo. Em tempo, trata-se de uma composição muito subestimada e que poderia muito bem ser revisitada nos shows do grupo, principalmente quando a pandemia terminar e as coisas voltarem ao normal.
Agora quer ver os tr00s e extremistas de plantão surtarem de vez? Pois confira "Cursed to Crawl", a quarta faixa desse registro tão incompreendido. O motivo? Trata-se de um rap metal! Sim, meus caros fanfarrões e fanfarronas, uma das bandas mais extremas do planeta gravou um som desse estilo e o fez com muito primor, diga-se de passagem. Além das linhas vocais muito bem encaixadas, aqui temos uma levada deliciosamente "groovada", com destaque aos riffs da dupla dinâmica Mitch Harris e Jesse Pintado (1969 — 2006), além do baixo pulsante e pontual de Shane Embury. Uma tremenda pena que esse som tenha sido executado ao vivo apenas durante a turnê do álbum, pois é uma faixa bem interessante e um dos incontáveis momentos fora da curva do NxDx. Sem sombra de dúvidas outro ponto alto dessa obra.
Na sequência, temos outra de minhas faixas preferidas desse trabalho, "Cold Forgiveness". Flertando ainda mais com elementos alternativos, surreais e industriais, algo que reflete perfeitamente aquele período, essa composição possui um ar mais instropectivo, não apenas em seus riffs lisérgicos, como também nos versos declamados — com voz limpa e grave — por Barney. Para se ter uma ideia, o carismático vocalista apenas usa seu urro gutural característico no refrão, que por sinal é curtíssimo, porém grudento e extremamente eficiente. É interessante mencionar que, há alguns anos atrás, a banda realizou uma apresentação muito interessante, cujo repertório era composto apenas por faixas mais experimentais e cadenciadas e essa grande canção de "Diatribes" era uma delas. Particularmente, creio que os músicos deveriam tocá-la muito mais ao vivo.
A excepcional "My Own Worst Enemy" dá sequência ao álbum e pra variar, também figura entre minhas preferidas do álbum. Por alguma razão, o riff dissonante de abertura me remete ao Sepultura, em especial a algumas faixas de "Roots", lançado também em 1996. A sonoridade pode ser traduzida como um amálgama delirante, cativante e agressivo de metal alternativo/groove metal. Nessa faixa, também há um dos melhores desempenhos do baterista Danny Herrera no álbum. As viradas que o músico executa entre o refrão são cirúrgicas e técnicas e todos os músicos exploram muito bem suas habilidades em cada parte.
Novamente, também temos um pequeno trecho onde Barney usa sua voz grave e limpa, mais precisamente no verso "So many promised punches" e há um efeito na gravação que capta com precisão a vibe da cena musical pesada daquela época. Enfim, trata-se de outro grande som que merecia ter um reconhecimento muito maior do que de fato possui.
"Just Rewards", em contrapartida, se inicia de forma instigante e bastante atípica para uma música do NxDx, porém espera! Esse é "Diatribes", um dos trabalhos mais experimentais da banda inglesa, portanto prepare-se para ser surpreendido novamente. Mais uma vez, temos o groove reinando soberano, além de arranjos incitadores e muitas quebras de andamento estrategicamente inseridas pelos músicos.
Logo após, é a vez de "Dogma", que mantém o experimentalismo e a proposta engenhosa dos caras intactos. A vibração que paira sobre o refrão é bem atmosférica e alucinógena, entretanto ainda temos blast beats e levadas furiosas de bateria em um trecho desse som, propícias para você armar aquele moshpit frenético em sua sala.
Um riff simples e pegajoso inicia "Take the Strain", composição que bebe com gosto mais uma vez da safra de bandas dos anos noventa e claro, no melhor sentido da palavra, possuindo um ritmo bem construído e que novamente mescla groove, peso, intensidade e variações de andamento estimulantes. Há inclusive um riff próximo ao final da música que me remete vagamente à "In the Meantime" (Helmet).
A faixa-título, "Diatribes", é igualmente um petardo e já se inicia de forma excitante, com palhetadas envolventes. Não demora para que a velocidade da música cresça e descambe em alguns blast beats precisos, porém sem deixar de abrir mão das alternâncias de ritmo e andamento. Aliás, o riff que se inicia aos dois minutos e dezoito segundos pode ser simples, mas é extremamente grudento e competente.
Se iniciando com arranjos pra lá de instigantes, "Placate, Sedate, Eradicate" é outra faixa portentosa. Logo nos primeiros instantes da música, temos Barney urrando o título da faixa em duas trilhas de áudio, uma com um death growl cavernoso e outra, com um rasgado agudo típico do grindcore. Com relação à composição, de novo é ditada pelo seu ritmo e groove aniquiladores.
Encerrando o trabalho, temos o peso truculento de "Corrosive Elements". Trata-se de outra composição poderosa e caracterizada por linhas instrumentais originais e muito bem conduzidas. Há uma atmosfera muito peculiar nos trechos "With anxiety I'm burning!" e "Stripping down to the core", devido a sonoridade das guitarras, que emanam notas excêntricas e misteriosas. O final da composição também é admirável, bastante intenso, com Barney urrando com seu gutural e a levada de bateria comendo solta, maneira louvável de concluir essa obra.
Ousado, experimental em doses cavalares, polêmico, além de odiado por muitos e amado com todas as forças por outros, — como eu, "Diatribes" é, indubitavelmente um dos trabalhos mais ecléticos e criativos do NxDx. Você pode criticar o fato da banda ter abandonado os seus padrões mais rústicos e apodrecidos de sonoridade e ter investido em algo mais acessível e musical, entretanto rotular tal obra como ruim e/ou desprezível é algo inaceitável. Além do mais, o álbum realmente possui uma sonoridade mais acessível e de fácil assimilação, contudo isso não significa que trata-se de um registro meramente comercial e/ou pop, muito pelo contrário.
Há um trecho no encarte do álbum que contém a seguinte frase nos agradecimentos: "[...] E todas as bandas que tentam não fazer o que qualquer idiota está fazendo...". Bom, creio que isso já diz tudo, não é mesmo? Costumo dizer que um dos maiores erros da maioria dos ouvintes é ouvir NxDx com a ideia banal e limitada de que são apenas uma banda extrema, quando na realidade são muito, mas muito mais do que isso. Trata-se de um dos grupos mais inventivos, visionários e obstinados não apenas do território sonoro extremo, como também uma das bandas mais corajosas e sem qualquer receio de conceberem o que bem entenderem — e realizarem isso com exímio e muita personalidade.
Se você é fã da banda — ou até mesmo um ouvinte curioso que desfruta sonoridades não apenas pesadas, como imaginativas —, porém nunca deu a devida chance a esse trabalho, essa é a hora certa. 25 anos após seu lançamento, "Diatribes" prova que é um álbum que envelheceu muito bem e reflete com perfeição o constante amadurecimento e evolução da lendária banda inglesa. Um trabalho para ser ouvido sem preconceitos por todos aqueles que apreciam música extrema de qualidade.
À propósito, para aqueles que admiram esse trabalho e essa fase "experimental" do NxDx, recomendo fortemente também a audição do bootleg oficial "Bootlegged in Japan" (1998), show absolutamente matador gravado no Japão durante a turnê de "Diatribes", em 1996. Nesse material, é possível conferir o poder de fogo das composições de "Diatribes" e como elas soam realmente incríveis em um registro ao vivo.
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