[Classic Noise] Rage Against the Machine - "Evil Empire" (1996)

Rage Against the Machine - "Evil Empire" (1996)

Gravadora: Epic

Falando de forma bastante breve, nós do Blasting Noise Fanzine estamos reformulando algumas ideias tanto da página como do blog e dentre elas, posso exemplificar não apenas o surgimento de novos quadros, vide o Indicação Fanfarrônica há poucos dias, além também de alterações mais singelas, tais como mudanças de nomes de sessões que sempre existiram em nosso zine, por exemplo Álbuns Aniversariantes, que agora foi rebatizada como Classic Noise, visando trazer uma dinâmica mais intrigante, além de ser um título que particularmente soa menos genérico e simplório. Dito isso, bora para o que realmente nos interessa!

Após o lançamento explosivo e estupidamente bem-sucedido de seu álbum de estreia, os californianos do Rage Against the Machine retornam quatro anos mais tarde com sua tão aguardada segunda entrega, "Evil Empire". Lançado oficialmente em 16 de abril de 1996, novamente via Epic Records, esse segundo trabalho de estúdio do quarteto estadunidense aponta um notório e saudável amadurecimento, nos brindando com uma abordagem ainda mais contundente, urgente e cirúrgica, em especial nas letras e críticas aqui explanadas, tudo isso sem abandonar a estética sonora baseada na fusão inabalável e arrasa-quarteirão de rap, rock, metal e funk que consagrou esses mestres. Em 2021, essa pérola noventista completou o seu 25° aniversário e uma comemoração dessa natureza jamais poderia passar batida por nós, certo?

Dessa vez sob produção do competente Brendan O'Brien (Pearl Jam, Red Hot Chili Peppers, Korn, Mastodon, AC/DC e muitos outros grande nomes), esse segundo lançamento traz mais uma vez não apenas uma icônica ilustração de capa, concebida pelo finado artista californiano Mel Ramos (1935 — 2018), entretanto um título igualmente desconcertante e de significado antissistemático em toda sua essência. 

Segundo as palavras do frontman Zakk de la Rocha, é uma alusão a como a banda enxerga a calúnia de Ronald Reagan, o 40º presidente dos Estados Unidos e o 33º governador da Califórnia, contra a União Soviética nos anos oitenta e que, ainda de acordo com o músico e ativista, poderia ser facilmente aplicada aos Estados Unidos. Em poucas palavras e sem rodeios, o título nada mais é que uma referência a um termo empregado comumente na década de oitenta pelo até então presidente estadunidense Reagan e incontáveis conservadores americanos para descrever a antiga União Soviética. 

"Para bom entendedor, meia palavra basta" e o quarteto musical provou novamente que o seu discurso definitivamente não era de fachada, batizando seu segundo lançamento dessa forma, algo que indubitavelmente angariou uma legião ainda mais considerável tanto de apreciadores/seguidores como detratores, tudo com a mesma intensidade, o que particularmente perdura até os dias atuais. 

Ainda sobre a gravura que estampa a capa do álbum, é uma versão alternativa do garoto super-herói Crimebuster, um personagem dos quadrinhos dos anos quarenta e cinquenta. Nessa reinterpretação, o artista Ramos modificou o emblema no peito do defensor para um "e" minúsculo, se adaptando a orientação engajada tanto do trabalho como da banda em si. 

O riff sutilmente dissonante e extravagante do clássico single "People of the Sun" inicia o trabalho, instigando instantaneamente o ouvinte, nos deixando atentos para o que está por vir. Somos conduzidos a um andamento contagiante e "funkeado", que eclode em uma erupção tão estrondosa como uma colisão. Adentrando em território lírico, sua letra foi escrita por de la Rocha após uma visita a Chiapas, no sul do México e evoca a revolução zapatista contra o regime autocrático de Porfirio Díaz, que encadeou a Revolução Mexicana, em 1910.

Logo após, temos uma sequência possivelmente ainda mais arrebatadora, com o hino "Bulls on Parade", que por sinal, foi uma das primeiras composições da banda na qual tive acesso, isso por volta dos meus 14 ou 15 anos de idade, através de seu emblemático videoclipe, exibido incansavelmente nos velhos tempos da MTV Brasil e também por intermédio do registro ao vivo "Live at the Grand Olympic Auditorium" (2003). Seus arranjos e ritmo são ainda mais implacáveis e demandam o mais imediato dinamismo, isso sem falarmos a respeito do feedback em apresentações ao vivo, uma experiência sempre delirante. Em paralelo a esse quadro, algo impossível de não mencionarmos é o inigualável e mundialmente conhecido solo de guitarra de Tom Morello, que incorpora o efeito de scratch, um recurso pra lá de engenhoso e muito original. 

A propósito, eis aqui um dos exemplos mais comprobatórios de que as composições dessa segunda entrega são tão atemporais quanto às do debut. À época de lançamento desse single no Reino Unido, de la Rocha proferiu uma declaração a respeito da concepção de sua letra, além de explicar detalhadamente como os Estados Unidos estavam construindo um muro entre eles e o México, destacando que essa ação era resultado de muitas conversas de ódio e histeria das quais o governo estadunidense já abordava, mencionando ainda a exorbitante quantia de 1.500 corpos encontrados na fronteira e como tamanha barbárie incentivou o quarteto a compor essa música como resposta direta.

Faço questão de dizer que, se algo no discurso de Zakk soar familiar a algum de vocês, asseguro que não é mera coincidência, prezados fanfarrões e fanfarronas. São precisamente discursos cirúrgicos como esses que provam que a nossa realidade mundial atual nada mais é que uma extensão miserável, covarde e repulsiva de décadas atrás. Desvirtuando sutilmente dessa pauta, também é importante mencionar que temas adicionais para esse trabalho foram desenvolvidos pela artista conceitual estadunidense Barbara Kruger e algumas de suas artes figuram justamente no videoclipe desse que foi o segundo single promovido para o disco.


Além desses clássicos igualmente influentes, temos outros singles tão intimidadores quanto os que mencionei acima. "Vietnow", por exemplo, além de possuir um "trocadalho do carilho" fenomenal, traz um balanço ainda mais acentuado do rap, não apenas através dos versos rimados com perfeição pelo genial de la Rocha, contudo também no instrumental que capta a essência pulsante e o groove dançante do hip hop. O refrão, em contrapartida, é ainda mais energético, assim como o encerramento da composição, que emana um clímax peculiar e que apenas o R.A.T.M. é capaz de proporcionar com tamanho afinco.

Retratando um pouco mais sobre "Vietnow", os riffs de seus versos apresentam uma similaridade com "The Wanton Song" (Led Zeppelin), uma enorme influência para o guitarrista Morello, segundo suas próprias palavras. Agora com relação a sua letra, nos deparamos com traços de influências do autor estadunidense James Baldwin (1924 — 1987), além de menções ao sargento Stacey Koon, um dos quatro policiais da Polícia de Los Angeles, filmado espancando o motorista negro Rodney King, em 1991 e até mesmo ao envolvimento da CIA (Agência Central de Inteligência) no envio dos Contras (contrarrevolucionários) à Nicarágua, com a finalidade de cessar o movimento sandinista.

Os demais singles, "Tire Me" e "Year of tha Boomerang", sucintamente, são faixas igualmente admiráveis, onde cada integrante desfila seus talentos com muita naturalidade e feeling. Além dos já mencionados vocais de la Rocha, que espiram e manifestam uma truculência espantosa e uma impetuosidade descomunais em cada sílaba pronunciada, também temos uma "cozinha" robusta, composta pelo baixista Tim Commerford e pelo baterista Brad Wilk, que produz resultados palpitantes e volumosos na medida certa, além evidentemente da guitarra de Morello, que é a cereja do bolo, com seus arranjos e estilo tão peculiares e únicos, alternando entre riffs excêntricos, solos imaginativos e sagazes, intervalos gradativos e momentos mais convencionais e viciantes que apenas o músico é capaz de maquinar.


"Year of tha Boomerang", por sinal, integra a trilha sonora do longa-metragem "Duro Aprendizado" (1995). No que diz respeito ao seu âmago lírico, o título faz alusão ao "Ano do Bumerangue", uma menção direta à uma citação do francês Jean-Paul Sartre (1905 — 1980). Por sua vez, "é o momento do bumerangue" é uma referência à violência anticolonial presente no prefácio da obra "Os Miseráveis ​​da Terra", do indiano ocidental francês Frantz Fanon (1925 — 1961). O conteúdo da letra em si aparenta dissertar a respeito da representatividade e igualdade das minorias, ainda que contenha muitos outros apontamentos às lutas contra o racismo, sexismo e colonialismo. 

Por mais que esse segundo trabalho dos estadunidenses seja predominado mais uma vez por uma sequência surpreendentemente arrebatadora de cinco singles, é um ledo e infeliz engano crer que esse é uma daqueles típicos registros que se sustenta exclusivamente a base de singles e canções carro-chefe. Da mesma maneira que o notório álbum de estreia, até mesmo as faixas secundárias e talvez mais subestimadas se destacam individualmente com seu sistema ritmado e trechos igualmente memoráveis.

A quarta faixa, "Revolver", diga-se de passagem, é outro petardo igualmente estupendo, caracterizada por versos sussurrados e progressivos em seu início, recurso esse que obviamente influenciou e muito incontáveis grupos de nu metal/metal alternativo que eclodiram naquele período. Sua estrutura e dinâmica em seu refrão também são admiráveis e soam tão urgentes quanto o disparar sorrateiro de uma arma de fogo.  

E por outro lado, "Snakecharmer", "Down Rodeo" — uma canção enviada a várias estações de rádio americanas e que inicialmente deveria ser lançada como o terceiro single oficial, além de "Without a Face", "Wind Below" e "Roll Right" podem até não possuir a mesma intensidade dramática dos destaques do álbum, todavia passam anos-luz de retumbarem como genuínos fillers. 

Formidavelmente, a célebre citação "All killer, no filler" — em português, "Tudo matador, sem enchimento" —, se encaixa com sabedoria nesse lançamento, em virtude de nada aqui transmitir a ideia de uma compilação de cânticos que transitam entre hits deslumbrantes e tapa-buracos inconvenientes. Todos os elementos aqui presentes são propositais e interpostos sob medida, esculpindo o aspecto ideal e agregando ainda mais valor ao conjunto da obra.

Aproveitando a deixa para destacar outros pontos cruciais desse registro, além das letras excruciantes e intensas que citei anteriormente, saliento as mensagens viscerais presentes no quase single "Down Rodeo", que tece uma crítica mordaz em oposição a desigualdade social entre ricos e pobres na América e também se aprofunda na guerra de classes que existia na cidade natal da banda, Los Angeles, após os motins ocorridos em 1992. Em 2011, de la Rocha alegou que "nunca defendeu a violência", expondo que a letra completa dessa faixa deve ser contextualizada de acordo com o período de seu tempo, anulando a presença de brutalidade sugerida no verso de abertura.

Descrever o sucesso eminente e merecidíssimo do segundo álbum do grupo californiano é "chover no molhado", como tantos dizem. Gravado entre março de 1995 e fevereiro de 1996, em uma sala pequena dos estúdios Cole Rehearsal, em Hollywood, Califórnia (EUA) e com todas as letras escritas sem exceção pelo vocalista Zack de la Rocha, o disco encabeçou nada mais nada menos que a primeiríssima posição nas paradas da Billboard 200, um feito inegavelmente admirável, explêndido e invejável, tendo em mente todo o conteúdo transgressor e o protesto inerente em cada ato praticado pelo quarteto. 

Talvez não seja do conhecimento de tantos, contudo é de importante enfatizar que não bastando o fato da arte de capa, seu título, letras e composições serem do mais puro caráter sociopolítico, até mesmo o encarte da obra atende a esses padrões. Em seu interior, temos uma fotografia de uma pilha que reúne diversos livros filosóficos e de conteúdo politizado, dentre eles "Capital, Vol. 1" (Karl Marx), "A Guerra de Guerrilhas" (Che Guevara), "Retrato do Artista quando Jovem" (James Joyce), "Agora e Depois: O ABC do Anarquismo Comunista" (Alexander Berkman) e "A Desobediência Civil" (Henry David Thoreau). Sim, os caras jamais brincaram em serviço. 


Como se toda essa coleção de feitos ainda não fosse o bastante, a faixa "Tire Me" venceu um prêmio do Grammy daquele ano, na categoria "Melhor Performance de Metal". A euforia foi tremenda que até mesmo os singles "Bulls on Parade" e "People of the Sun" foram indicados por "Melhor Performance de Hard Rock". Além de tudo isso, o álbum foi certificado "platina triplo" pela Associação Americana da Indústria de Gravação, em 24 de maio de 2000. O nome da banda foi catapultado outra vez e com proporções ainda mais exorbitantes. Mais do que nunca, os videoclipes promocionais foram veiculados exaustivamente pela MTV, alavancando exponencialmente o sucesso triunfal dos estadunidenses, o que certamente é do conhecimento de todos à essa altura do campeonato.

Não obstante, tal como a renomada revista mensal estadunidense Rolling Stone bem pontuou com relação a banda, "Esta música não deveria ser divertida", complementando em seguida que o conjunto "[...] elevou a mentalidade do cerco sóciopolítico em seu hip-hop metálico a um grau tão dogmático — e afiou seu som para uma perfeição tão estridente — que a banda e as alegrias estrondosas de sua arenga 'n' roll parecem virtualmente assexuadas." 

Tal afirmação não poderia ser mais verídica, levando em consideração que jamais foi a intenção de nenhum dos músicos o êxito comercial e tampouco que seus ouvintes se limitassem a ouvir os seus trabalhos embalados exclusivamente pelas harmonias e ritmos cativantes produzidos por eles. A sua música e arte em geral nada mais são que um manifesto político e a repercussão extremamente bem-sucedida é apenas um fruto do empenho de cada um deles, integralmente em virtude de todo seu comprometimento com suas crenças e nada mais.

"Evil Empire" trata-se de uma obra catártica, um legítimo protesto político-social tão vibrante e de extrema relevância como o material antecessor. Dono de uma discografia absurdamente irrepreensível e perseverante até o fim, o R.A.T.M. sempre foi uma incontestável instituição não apenas na vertente e proposta musical que se propõe a executar com tanta proeminência, porém também em seu viés ideológico, politizado até os ossos e absolutamente fiel às suas convicções. Mais do que nunca, é uma banda que soa cada vez mais atual e necessária, em uma era dominada pelo discurso de ódio e totalitarismo indecente e cruel ao redor do globo, especialmente em nosso país. 

Em tempos tão nebulosos e soturnos como esses, nada como revisitarmos e desgutarmos obras atemporais como esse vistoso trabalho, que definitivamente é um fascinante ato político. Inquestionavelmente, assim como o icônico e histórico debut, trata-se de um dos registros de rock e som pesado mais importantes e influentes de sua época, moldando o caráter não apenas musical como político-social de incontáveis ouvintes até os dias atuais, incluindo esse Fanfarrão com F maiúsculo que vos escreve.


Blast it out loud!

♫ "Rally round tha family! With a pocket full of shells
They rally round tha family! With a pocket full of shells
They rally round tha family! With a pocket full of shells
They rally round tha family! With a pocket full of shells

Weapons not food, not homes, not shoes
Not need, just feed the war cannibal animal
I walk tha corner to tha rubble that used to be a library
Line up to tha mind cemetery now
What we don't know keeps tha contracts alive an movin'
They don't gotta burn tha books they just remove 'em
While arms warehouses fill as quick as tha cells
Rally round tha family, pockets full of shells

Rally round tha family! With a pocket full of shells
They rally round tha family! With a pocket full of shells
They rally round tha family! With a pocket full of shells
They rally round tha family! With a pocket full of shells

Bulls on parade" ♫

Integrantes:
Zack de la Rocha (vocal)
Tom Morello (guitarra)
Tim Commerford — creditado como "Tim Bob" (baixo)
Brad Wilk (bateria)

Faixas:
1. People of the Sun
2. Bulls on Parade
3. Vietnow
4. Revolver
5. Snakecharmer
6. Tire Me
7. Down Rodeo
8. Without a Face
9. Wind Below
10. Roll Right
11. Year of tha Boomerang

Redigido por David "Fanfarrão" Torres

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