[Immortal Icons] Jesse Pintado - 5 Trabalhos Essenciais do Grindfather


Hoje inauguramos mais um quadro especial no Blasting Noise Fanzine, o Immortal Icons. Nele, vamos tentar sempre que possível falar à respeito, ainda que de forma ligeiramente breve, sobre o legado de diversas bandas e artistas importantes da música mundial que infelizmente não estão mais entre nós. Para inaugurarmos essa sessão da melhor maneira possível, aproveitei que hoje seria o aniversário de um dos meus compositores prediletos do som extremo para publicar algo.

Nascido em 12 de julho de 1969, em Sonora (MEX), Jesús Ernesto Pintado Andrade — ou como ficou mundialmente conhecido no underground mundial, Jesse Pintado, foi um dos maiores guitarristas e compositores dentro do vasto território da música pesada e transgressora. Ao lado de nomes que dispensam apresentação como Terrorizer, Lock Up, Brujeria — onde utilizava a alcunha de Cristo de Pisto — e principalmente Napalm Death, o mexicano fez escola e se tornou sinônimo de qualidade em uma cena cada vez mais disputada e que se proliferou drasticamente nos saudosos anos 90, com a ascensão do death e black metal e claro, de um tal de grindcore e seus derivados, como o deathgrind, uma das vertentes do grind na qual Jesse certamente foi uma das peças fundamentais, deixando sua marca para sempre na história do nosso amado subterrâneo.

Infelizmente, em 27 de agosto de 2006, o talentoso e carismático Jesse faleceu em um hospital na Holanda. Nesse ano, inclusive, fará 15 anos que nos deixou. O guitarrista havia viajado para visitar sua namorada e pouco depois, veio à tona que o músico sofria de alcoolismo e que foi a óbito devido a complicações com um coma diabético. Pra variar, é outra das incontáveis perdas irreparáveis para a música extrema mundial, entretanto o seu brilhante e invejável legado permanece intacto, influenciando gerações até os dias atuais, incluindo esse fanfarrônico redator — e aspirante de compositor de grindcore — que voz fala.

Se estivesse vivo, Jesse completaria hoje o seu 52º aniversário. Em sua homenagem, tomei a liberdade de publicar essa matéria, onde seleciono 5 trabalhos da carreira do guitarrista que considero obrigatórios a todo apreciador do músico e de som extremo em geral, independente do espectro e direcionamento. Dessa vez, listei as obras por grau de relevância pessoal. Bora conferir?


5. Brujeria - "Brujerizmo"

Estilo/Subgênero: groove metal/nu-metal/deathgrind

Ano: 2000

Selo: Roadrunner Records

Ainda que seja o trabalho mais "comercial" e "moderno" do Brujeria, onde claramente temos uma série de riffs de Dino "Asesino" Cazares (Fear Factory, Divine Heresy, Die Klute) seguindo uma cartilha que se assemelha muito mais ao direcionamento do FF naquele período, bem como ao nu-metal, groove e industrial metal da época do que o som podre e vil do old school Brujeria,"Brujerizmo" não carece de peso, muito pelo contrário. O groove portentoso das guitarras, aliado a "cozinha" e aos vocais sempre agressivos e rosnados de modo genuíno estão presentes novamente e pela primeira vez, temos as seis cordas graves e afiadas como navalhas de Jesse — ou melhor, Cristo de Pisto — dando as caras num álbum dos greñudos locos. O resultado não poderia ser outro, a não ser um dos discos de metal extremo mais legais da virada do milênio, além de mais um registro admirável na trajetória do artista.



4. Resistant Culture - "Welcome to Reality"
Estilo/Subgênero: grindcore/crust punk/death metal
Ano: 2006
Selo: Seventh Generation Records

Imaginem uma fusão piromaníaca de crust punk, grindcore, death metal com elementos tribais e grooves pontuais, onde cada ingrediente é inserido sabiamente e na proporção correta. Pois bem, é precisamente essa receita de bolo maravilhosa que temos nessa segunda entrega de estúdio do Resistant Culture, grupo estadunidense que mescla a sensibilidade e a urgência do punk e do hardcore com a truculência e a imundície do metal extremo. É importante mencionar que a banda conta com dois ex-integrantes de uma das bandas mais emblemáticas da carreira de Jesse, o Terrorizer, sendo eles o vocalista Anthony Rezhawk e a guitarrista Katina Culture. Nesse lançamento, nossos tímpanos são bombardeados com 16 faixas excruciantes, que incluem uma releitura bombástica para o hino "Hear Nothing, See Nothing, Say Nothing" (Discharge).



3. Lock Up - "Hate Breeds Suffering"
Estilo/Subgênero: grindcore/death metal
Ano: 2002
Selo: Nuclear Blast Records

Em um oceano de super bandas encabeçadas por grandes figuras da música pesada, o Lock Up se destaca plenamente na multidão e discos como "Hate Breeds Suffering" não me deixam queimar a língua. Nesse que é o segundo trabalho desse projeto paralelo magnânimo, temos um lineup pra lá de chocante: o baixista Shane Embury (Napalm Death, Brujeria, Venomous Concept e muitos outros), o baterista Nicholas Barker (Brujeria, Nuclear Assault, ex-Testament e muitos outros), o vocalista Tomas Lindberg (At the Gates, Disfear, The Lurking Fear e muitos outros) e claro, Jesse nas seis cordas. Ainda mais maduro e intrigante que o já arrasa-quarteirão debut da banda, trata-se de um daqueles discos de deathgrind que você bota pra ouvir e quando se dá conta, já está repetindo a audição, seja pela sua curta duração como pelo impressionante padrão de qualidade das composições, que além de muito boas são estupidamente viciantes.



2. Napalm Death - "Utopia Banished"
Estilo/Subgênero: grindcore/death metal
Ano: 1992
Selo: Earache Records

Esse é o primeiro álbum dos veteranos do grind/deathgrind inglês a contar com a presença do baterista Danny Herrera (ex-Venomous Concept) e também é disparado o trabalho do Napalm Death com a maior contribuição de Jesse nas composições, além de ser um dos lançamentos mais icônicos e queridos do grupo com essa formação. Mais direcionado ao grindcore do que o álbum anterior, o igualmente aclamado "Harmony Corruption" (1990), cujo direcionamento maior era o death metal, "Utopia Banished" é uma pérola ainda mais direta e intensa. 

Além de possuir mais faixas que seu antecessor, suas músicas são mais curtas, bruscas e impetuosas, permeadas por muitos elementos de noise e industrial, encerrando assim a quadra de álbuns iniciais do até então quinteto. Ah e claro, ainda temos aquela que é uma das capas mais memoráveis e belas da banda, ao lado das artes dos dois primeiros discos. Esse trabalho artístico foi cortesia de Rob "Mid" Middleton (Bait, Deviated Instinct, ex-Spine Wrench).

Diga-se de passagem, que fique registrada a menção honrosa para o excepcional "Enemy of the Music Business" (2000), último trabalho de estúdio do ND a contar com Jesse na formação. Um álbum que é um legítimo atropelo sonoro antimusical e anticomercial, que não apenas traz de volta o logotipo emblemático e a sonoridade mais implacável de outrora da banda, deixando de lado os experimentalismos da maioria de seus trabalhos dos anos 90, como também é um legítimo dedo do meio a antiga gravadora, Earache Records e ao corporativismo e a indústria musical como um todo.



1. Terrorizer - "World Downfall" (1989)
Estilo/Subgênero: grindcore/death metal
Ano: 1989
Selo: Earache Records

A primeiríssima posição não poderia ser outra, não é mesmo? "World Downfall" é indiscutivelmente um dos discos de grindcore mais influentes da história e muito antes de redigir essa matéria já tinha em mente de que, independente de quais outros álbuns da carreira de Jesse eu incluísse nesse Top 5, este deveria encabeçar o topo. Ainda que meu trabalho preferido de grindcore de todos os tempos seja o igualmente seminal "From Enslavement to Obliteration" (Napalm Death), esse debut dos estadunidenses do Terrorizer é outra bíblia da música extrema.

Como costumo dizer, todos os ingredientes para se conceber uma obra-prima desse subgênero estão em abundância em suas inacreditáveis 16 faixas, bem como em sua capa, que é tão representativa quanto antológica e capta a essência a proposta desejada. A arte, que consiste numa insana colagem de diversas imagens sobrepostas, foi desenvolvida por Martin Nesbitt (Carcass, Concrete Sox, Morbid Angel). Não pretendo me alongar, porém recomendo à quem desconhece pesquisar sobre as histórias de bastidores desse álbum, algo pra lá de inusitado e fascinante.

Pra finalizar, esse disco pode também ser considerado facilmente uma das sínteses do que é o deathgrind, a vertente do grindcore onde há uma constante dualidade entre o death metal e o grindcore mais tradicional, algo que viria a influenciar o próprio Napalm Death e uma leva de bandas e artistas que lançariam outros registros igualmente imperdíveis anos mais tarde.


Importante: Aos adeptos de plataformas digitais e streaming, elaborei uma playlist no Spotify compilando esses cinco petardos essenciais. Confiram abaixo:



Como sempre, espero que tenham apreciado o texto e a minha singela homenagem a esse grande mestre que inquestionavelmente fez toda diferença para o cenário musical extremo ao redor do globo. É simplesmente inevitável ouvir qualquer trabalho que possua o envolvimento de Jesse e não tentar imaginar que riffs e ideias mirabolantes ele desenvolveria caso ainda estivesse entre nós. Definitivamente um dos personagens mais indispensáveis para a explosão da música feia, suja e deliciosamente subversiva que tanto idolatramos.

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Por fim, só me resta dizer uma última coisa: Rest in Power, Grindfather!

 Redigido por David "Fanfarrão" Torres

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