[Classic Noise] Surra - "Tamo na Merda" (2016)

Surra - "Tamo na Merda" (2016)

Gravadora/Selo: Peculio Discos/43% Burnt/Guritiba Golpe/Samsara Discos/Abunai Shop

A expressão "O tempo voa" não poderia ser mais honesta, não é mesmo? Em junho deste ano, "Tamo na Merda", o álbum de estreia do power trio santista de thrashpunk antifascista Surra completou o seu 5º aniversário e isso é simultaneamente maravilhoso e nostálgico, ainda mais para mim, que não apenas tenho a banda como uma de minhas preferidas da atualidade, como também guardo com muito carinho itens que adquiri à época de lançamento dessa obra tão incrível quanto fundamental para a música pesada brasileira independente. 

Sem me estender tanto, além de ter ido a shows promocionais do debut na ocasião, ainda tenho uma cópia física do álbum, adquirida naquele mesmo ano, em 2016, além de uma bermuda oficial, com o logo da banda e o título do disco em si, ambos comprados em gigs que compareci no período, direto das mãos dos membros do grupo, ou seja, uma satisfação imensurável. Bom, após esse sutil momento de nostalgia e "rasgação de seda", vamos ao que realmente interessa, certo?

Em comemoração aos 5 anos desse grande trabalho de estreia e aproveitando a rabeira de seu relançamento ainda em 2021, sob o título de "Tamo Muito na Merda", que ressalta ainda mais a sua mensagem e força, bem como a vergonhosa e infame data de hoje, 7 de setembro e os atos pró Jair Messias Bolsonaro, nada melhor que recapitularmos a importância dessa obra e seu contexto em si, que são de extrema necessidade, mais do que nunca, para o mundo cada vez mais infectado pela ignorância, alienação, fake news, conservadorismo, negacionismo, genocídio em profusão, a ascensão da onda neofascista ao redor do globo, além da intolerância multifacetada e canalhice indescritível que nos cerca diariamente.


Dito tudo isso, nós do Blasting Noise Fanzine optamos por revisitar "Tamo na Merda", um debut tão cru e absurdo quanto sua majestosa e igualmente triste ilustração de capa, concebida pelo artista Wendel Araújo — desenhista habilidoso e que já produziu artes para bandas como Cólera, Desalmado, Ratos de Porão e Extreme Noise Terror —, que retrata de forma certeira a exploração da elite sem firulas e com traços caprichados e incisivos. Agora, mais direto do que a capa e o nome da banda em si, apenas o nome desse lançamento, que resume em apenas 3 letras o nosso estado decrépito. Aliás, assim como diversos clássicos atemporais do hardcore punk e metal, suas letras continuam soando mais atuais e impactantes do que nunca, sem mencionar esse título, que ecoa de maneira ainda mais fidedigna ao nosso contexto sócio-político mais recente. 

Depois do lançamento de 2 EPs pra lá de monstruosos, promissores e novamente emblemáticos de ponta a ponta, além de um single, uma compilação, um registro de colaboração e um álbum ao vivo gravado em Belém (PA) — realizado tanto em CD como DVD, chegava a hora de Guilherme Elias (baixo e vocal), Victor Miranda (bateria) e Leeo Mesquita (vocal e guitarra) produzirem um debut e então, na metade de 2016 finalmente esse se projeto se materializou, resultando numa empreitada não apenas mais madura e sólida, em termos de sonoridade, como também em matéria de conteúdo lírico e mensagens ainda mais significativas e que se comunicam intrinsecamente com as mazelas do mundo contemporâneo. Ou seja, elementos que se tornariam algumas das marcas registradas do grupo.

Uma vez contextualizado tudo isso, bora embarcarmos em mais uma típica dissecação sonora de proporções fanfarrônicas? Pois sigam-me os maus e amantes da boa e velha arte transgressora. Garanto que o passeio pelas próximas linhas tende a ser pra lá de barulhento e de fluxo deliberadamente desgovernado, contudo tudo permeado por uma notória e indispensável pegada analítica.


Esse belíssimo material se inicia à todo vapor com a "desgracenta" e atroz "Não Escolha", faixa que, assim como a maioria das presentes aqui nesse registro, nasceu um clássico e está presente nos shows do power trio desde à época de seu lançamento. Com relação à sua sonoridade e direcionamento em geral, temos um enxame de riffs abelhudos e imundos, que assim como a "cozinha", trucidam tudo o que se encontra em seu caminho com seu ritmo frenético e cafeinado. E claro, logo na primeira faixa temos uma aula de como ser antissistema e tecer críticas violentíssimas com exímio. De imediato, o cristianismo, o conservadorismo e a elite são amarrados, torturados e mortos com o mais profundo requinte de crueldade e sentimento de revolta popular, do jeito que esperamos e definitivamente deve ser.

Após uma excruciante abertura de tirar o fôlego, ainda somos pulverizados pela sequência animalesca de surras e "moshatórias" — quem é cyco, "crossovo", thrashcore, hardcore kid e "mosheiro" raiz pegará a referência —, composta pelos também já hinos do grupo "Peso Morto", "Embalado pra Vender", a faixa-título "Tamo na Merda", "O Errado e o Certo", além das masterpieces igualmente obrigatórias "Daqui pra Pior" e "7 x 1", cujos títulos já falam por si. Bem dizer, todas as faixas mencionadas até agora, sem exceção, são provavelmente os pontos mais altos da obra, em todos os quesitos. Sonoridade, execução, atitude, estrutura, ritmo e claro, letras. E que letras, meus caros Fanfarrões e Fanfarronas! Sem falsa modéstia, alguns dos momentos de maior inspiração na carreira da banda até o momento se fazem presentes aqui, particularmente em todas as faixas citadas até agora.

Com relação às letras das faixas 2 a 7, o que não faltam são verdadeiros rolos compressores progressistas e precisos como um bisturi. A injustiça e a exclusão social, bem como o sistema são retratados sem moderação ou censura em "Peso Morto" e "Embalado pra Vender", a faixa-título "Tamo na Merda é a mais pura síntese não apenas de todo o conceito do disco e da banda, como de nosso atual contexto sócio-político e além de ser a menor faixa do álbum, um crossover/grindcore/powerviolence rasteiro e desmedido, sua letra combina perfeitamente com sua estética, espelhando todo o sentimento revoltoso contra os danos absurdos provocados pelo capitalismo, "O Errado e o Certo" trilha um caminho ligeiramente diferente, porém igualmente importante, abordando violência doméstica, autoridade paterna, submissão no seio familiar e similares.


Agora, a cereja do bolo vai para o hino "Daqui pra Pior", que violenta sem vaselina o capitalismo e o liberalismo, a religião cristã, a alienação em massa, o conservadorismo/reacionarismo e a "família tradicional", personagens repulsivos e completamente nefastos da política brasileira, como o atual presidente de nosso país, Jair Messias Bolsonaro, o deputado federal e pastor e fundamentalista cristão Marco Feliciano, o economista, professor, escritor, diplomata e político brasileiro Roberto Campos (1917 — 2001) e as autoridades em geral, além de atacarem veementemente toda intolerância contra às minorias, incluindo pobres e desabrigados, homossexuais e atos como o aborto e muito, muito mais.

A sétima faixa é "7 x 1" e claro, mais uma vez é um título que já fala por si e se inicia com um sample da vergonhosa partida de futebol da Seleção Brasileira contra a Alemanha, na Copa do Mundo FIFA de 2014, o maior vexame da história do futebol brasileiro. Obviamente, a melhor maneira de iniciar esse outro hino que representa de modo irrepreensível a atitude do povo de nosso país, com uma letra que aborda sarcasticamente o completo estado de inércia na qual a população se encontra, possivelmente um estado permanente e terminal. 



Como podem perceber, uma bordoada na fuça atrás da outra, todas caracterizadas por uma hecatombe de arranjos corrosivos, linhas vocais vorazes, estupidamente urgentes e encaixadas com precisão cirúrgica — a dicção e o timing de Leeo e Guilherme — vulgo "Guizão" — são inacreditáveis, além de andamentos contundentes e viscerais, onde agilidade, groove, breakdowns e variações rítmicas se fundem num amálgama histérico e invejável. E claro, todos esses elementos permanecem até o fim do álbum, sem exceção.

Além de todos esses fatores, observamos como esse singelo debut com menos de 30 minutos de duração — aliás, uma duração sempre muito sábia para trabalhos com essa proposta —, prima por nos entregar tantas faixas na sequência que retumbam como hits monumentais, um feito absolutamente fantástico e que denota mais uma vez a relevância do grupo dentro de seu tão concorrido nicho. Manjam aqueles trampos antológicos de nomes essenciais que amamos tanto e mais se assemelham a coletâneas de Greatest Hits/Best Of? Pois é, esse é exatamente o caso de "Tamo na Merda", que cospe clássicos com uma facilidade absurda.

Entretanto, é impossível e totalmente fora de questão falarmos sobre uma banda como Surra sem sequer destacarmos e analisarmos o seu conteúdo lírico, bem como as pautas, causas e ideais defendidos por esses caras. Ainda que em menos de meia hora nossos pobres e inocentes tímpanos sejam pulverizados por 13 imolações sonoras, garanto que esse notável estrago apenas atinge tamanha proporção graças às letras e críticas necessariamente ácidas e tão diretas como uma voadora concebidas pelo trio. 

Desde "Não Escolha" até a última faixa, "Não tem Boi", somos presenteados com golpes devastadores e sem qualquer misericórdia contra uma série de figuras asquerosas, acontecimentos repugnantes, atitudes, ideias e conceitos desprezíveis que assolam mais do que nunca o meio sócio-político atual. Aliás, o Surra é um dos representantes da safra mais recente da música pesada independente brasileira que menos tem papas nas línguas e não medem quaisquer esforços para violentar impiedosamente o sistema, a intolerância em geral e tudo aquilo que for mais nocivo a cada um de nós.


Ainda sobre o álbum, além das 7 primeiras faixas, as 6 restantes não carecem nem um pouco de qualidade e muito menos são meras "encheções de linguiça"/"fillers da vida, justamente o contrário. "Tô Fora Dessa Merda" é igualmente arrebatadora e ao mesmo tempo que aponta, sodomiza a propaganda e os danos provocados pela irrealidade ficcional, "Nasce, Cresce, Morre e Some" é outra faixa cujo título é "autoexplicativo" e promove julgamentos impetuosos novamente contra o capitalismo, a injustiça e injúria sociais, raciais, étnicas, etc e, evidentemente, contra a elite de forma majoritária, tudo em meio a um turbilhão anti-musical igualmente caótico e sabiamente construído.

Quase chegando na reta final, ainda temos a mortal "Faz o Fácil" e seu apetitoso e gratificante recado aos roqueiros que congelaram no tempo e são completamente presos ao passado e aos medalhões da música pesada, principalmente do mainstream, condenam absolutamente tudo o que é atual, na maioria esmagadora das vezes sem sequer se darem ao trabalho de tirarem suas próprias conclusões e todo o sectarismo musical que envolve essa turma. "Gratidão", por sua vez, questiona cruelmente o consumismo, o vício digital e tudo mais que engloba essas práticas e costumes.

Também temos a paulada que atende pelo título novamente autoexplicativo de "Aceitar é o Caralho", que incorpora o sentimento de não nos subjugarmos as falácias do mundo corporativo e claro, "Não tem Boi", a última faixa, traz uma saudável dose de sarcasmo logo em seus primeiros versos, explanando mais uma vez o capitalismo, a autoridade policial, a miséria social e tudo mais, encerrando assim um dos trabalhos mais icônicos do "rock veloz" dos últimos anos.


Em poucas palavras, "Tamo na Merda" é mais uma obra que já nasceu um clássico imortal de nossas terras tupiniquins, com letras 100% em português e uma atitude nua e crua que apenas o nosso povo é capaz de conceber tão genuinamente, porém não para por aí. Também é um ato sócio-político realizado por uma das bandas nacionais de som pesado mais engajadas sócio e politicamente falando, especialmente no meio underground. Representante esse que, sejamos francos, já se consolidou como um dos nomes mais importantes da safra de hardcore e metal das décadas mais recentes e não apenas cresce exponencialmente, como é um legítimo ato político em formato de grupo musical e cuja relevância se demonstra cada vez mais crucial mediante todo o cenário contemporâneo.

Numa data como essa, nada como publicarmos algo à altura de tudo o que estamos vivendo e dentro dessa premissa, espero de verdade que nós do BxNxFx tenhamos feito jus a isso. No mais, ouçam "Tamo na Merda" e todos os lançamentos do Surra hoje e sempre em volume máximo e, se necessário, ainda mais alto, para incomodar aqueles vizinhos reacionários ao nosso redor, apoiem a cena independente e os artistas que merecem nosso incentivo e reconhecimento — não apenas dentro do rock/metal, como em todos os gêneros e estilos musicais, diga-se de passagem — e claro, vida longa ao Surra e ao underground antifascista e por último, mas jamais menos importante, pau no cu do Bolsonaro e seus asseclas e apoiadores. 

Normalmente, costumo mandar a última frase em inglês, Blast it out loud!, mas neste caso... Toque bem alto, porra!


♫ "Sempre vendendo os seus ideais.
Batendo no peito “somos liberais!”
"Repúdio ao aborto e homossexual
Em prol da família tradicional

Discurso morto, reciclado e ultrapassado.
Diariamente prega o ódio atrás da tela e caga regra na maior
Tira ‘selfie’ com a PM e quer cadeia pra menor
Acabou a esperança é daqui pra pior

Sempre vendendo os seus ideais
Batendo no peito “somos liberais!”
Na igreja você pede “livrai-nos de todo o mal”
E no Datena aplaude a polícia sentando o pau

Antes Roberto Campos era o seu guru
Agora, Bolsonaro? Vai toma no cu
Marco Feliciano, num tem ninguém melhor?
Acabou a esperança é daqui pra pior" ♫

Integrantes:
Guilherme Elias (baixo e vocal)
Victor Miranda (bateria)
Leeo Mesquita (vocal e guitarra) 

Faixas:
1. Não Escolha
2. Peso Morto
3. Embalado pra Vender
4. Tamo na Merda
5. O Errado e o Certo
6. Daqui pra Pior
7. 7 x 1
8. Tô Fora Dessa Merda
9. Nasce, Cresce, Morre e Some
10. Faz o Fácil
11. Gratidão
12. Aceitar é o Caralho
13. Não tem Boi

Redigido por David "Fanfarrão" Torres

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