[Blasting Releases] Full of Hell - "Garden of Burning Apparitions" (2021)

Full of Hell - "Garden of Burning Apparitions" (2021)

Gravadora/Selo: Relapse Records

Trilha sonora do apocalipse. Simplesmente não consigo imaginar outra forma de descrever a sonoridade do Full of Hell, um dos expoentes mais intrigantes da música extrema da década passada. Após o excelente "Weeping Choir" (2019), particularmente estava na expectativa de um trabalho de inéditas que soasse ainda mais claustrofóbico e anárquico que seu antecessor e, felizmente, fiquei plenamente satisfeito com o novo lançamento do grupo.

"Garden of Burning Apparitions", o oitavo álbum de estúdio dos estadunidenses oriundos de Ocean City, Maryland/Pensilvânia é uma progressão natural de tudo o que esse magnífico e indispensável representante da barbárie sonora nos brindou até hoje. Sim, todo o caos, noise, demência, abordagem empírica e elementos que caracterizam a banda estão em plena forma nesta nova entrega, bem como a duração primordialmente curta das faixas. Aliás, apenas 2 sons ultrapassam pouco mais de 3 minutos de duração. A mistura estridente e perfeitamente abrasiva de grindcore, noise, death e black metal está de volta — do jeito que deve ser —, entretanto evolui para um novo patamar, mais maduro e singular do que nunca.

Produzido por Seth Manchester (Churchburn, Hadean, High Command, The Body), nos estúdios Machines With Magnet, em Pawtucket, Rhode Island (EUA) e com uma ilustração de capa igualmente deslumbrante de Mark McCoy (Charles Bronson, Absolute Power — EUA , Das Oath, Suburbanite e selo Youth Attack), "Garden of Burning Apparitions" não é apenas atraente de um jeito brutal, como também nos traz uma proposição lírica à altura de todo o restante. A (anti)religião, a impermanência da vida, bem como o pavor de saber que a morte é um destino inevitável são pautas colocadas sob a mesa pútrida oferecida pelo frontman Dylan Walker.


Dissertando bem brevemente sobre alguns conteúdos líricos aqui presentes, "Industrial Messiah Complex" promove uma hostilidade corrosiva e veemente, em pouco menos de um minuto e meio de duração, à mercantilização da religião/espiritualidade e como essa organização vigarista é a antítese daquilo que supostamente deveria ser a legítima religiosidade. Em contrapartida, "Reeking Tunnels" aborda uma intensa parábola para o espaço físico e mental em que ficamos presos quando vivemos em um estado perpétuo de medo e ódio. A oclofobia — o medo mórbido de multidões, tema esse que cai como uma luva para os dias atuais —, é retratada em "Eroding Shell", composição que captura cirurgicamente esse temor.

Dentre os 12 cânticos desgraçados e aberrantes presentes nessa pérola, destaco algumas perversidades como "Asphyxiant Blessing", que de fato abençoa e asfixia simultaneamente o ouvinte com seus desdobramentos e camadas sonoras dignas dos mais lisérgicos dos pesadelos, além de "Burning Apparition" e sua estrutura convulsiva e que, ao ser iniciada, permite que cada um de nós imaginemos uma entidade colérica e em chamas em nossa frente. Conhece a sensação do frio que gela a espinha até do mais incrédulo ser vivo? Digamos que seja algo dentro dessa natureza deturpada.

Além das 2 abominações caóticas — e maravilhosas — citadas acima, acho fundamental salientar outros pontos altíssimos, como "Urchin Thrones", "Industrial Messiah Complex" e seus grooves/balanços infernais que deixariam até o mais ímpio dos demônios orgulhosos, além da composição mais diferenciada do álbum "Reeking Tunnels", faixa esta que aposta numa abordagem mais cadenciada, porém não menos visceral ou imunda, se assemelhando muito a uma fusão surreal de Joy Division, Killing Joke e derivados, agregando ruídos, distorções e clima niilista com exímio mais uma vez.



Tudo aqui é tão milimetricamente calculado que, até mesmo as introduções que operam meramente como um fio condutor entre algumas faixas — "Derelict Satellite" e "Non-Atomism", pra sermos mais exatos — ecoam pelos alto-falantes como uma transmissão de alguma estação de rádio popular no oitavo círculo do inferno. Noise, experimentalismo e esquizofrenia se fundem com louvor, resultando em vinhetas tão profanas quanto as demais faixas excruciantes deste trabalho deliciosamente doentio.

Desde seu início cáustico que atende pelo nome de "Guided Blight" até seu último suspiro desesperado, "Celestial Hierarch", "Garden of Burning Apparitions" é uma obra tão desequilibrada quanto fascinante, novamente conduzindo o público ao limiar da aflição lamacenta. Em suma, é a prova cabal de como o Full of Hell é, definitivamente, um dos maiores nomes da anti-música feia, suja, transgressora e estupidamente subversiva da atualidade. 

Uma legítima força descomunal da natureza cujos trabalhos se comunicam grotescamente com nosso nefasto, angustiante e desolador momentum. E claro, este certamente é um dos lançamentos mais indispensáveis do ano dentro de seu circuito. Audição obrigatória a todo entusiasta de musicalidades tanto experimentais quanto descontroladas que se preze. 







Integrantes:
Spencer Hazard (guitarra e eletrônicos)
Dylan Walker (vocais e eletrônicos)
David Bland (bateria e percussão)
Sam DiGristine (baixo e saxofone)

Artistas convidados:
Ryan Bloomer (eletrônicos em "Derelict Satellite")
Shoshana Rosenberg (clarinete baixo em "Murmuring Foul Spring"

Faixas:
1. Guided Blight
2. Asphyxiant Blessing
3. Murmuring Foul Spring
4. Derelict Satellite
5. Burning Apparition
6. Eroding Shell
7. All Bells Ringing
8. Urchin Thrones
9. Industrial Messiah Complex
10. Reeking Tunnels
11. Non-Atomism
12. Celestial Heirarch

Redigido por David "Fanfarrão" Torres

Comentários

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