Eskröta - "Atenciosamente, Eskröta" (2023)
2023 mal se iniciou e já fomos presenteados por uma quantidade invejável de lançamentos de alto calibre, tanto no celeiro internacional como nacional. Aqui, em terras tupiniquins, nomes intrigantes da música pesada como Test, Aphorism, Infortuno e Expurgo já entregaram pérolas indispensáveis neste primeiro semestre, sendo um mais notável que o outro e agora, fomos atingidos com sucesso por mais uma belíssima obra, mais especificamente o novo trabalho de uma das bandas mais legais e que mais admiro nos últimos anos.
Sucintamente, a Eskröta é uma banda que acompanho desde o seu surgimento, com o lançamento do EP "Eticamente Questionável" (2018) e que, com toda certeza, evolui gradativamente à cada lançamento, não somente em sonoridade e aspectos técnicos, como também liricamente falando, sempre destilando verdades tão brutais quanto obrigatórias de serem transmitidas. Como sempre ressaltamos, a música, principalmente a pesada, é um constante e interminável instrumento de mensagens que, não apenas podem ser altamente transgressoras como incisivas. É uma ferramenta sempre afiada e à disposição no incessante combate a intolerância e mazelas sociais, a voz dos "invisíveis" que são calados diariamente.
Ainda sobre a evolução da banda, seja em "Cenas Brutais" (2020) ou mesmo no EP "T3rror" (2022), o posicionamento político e antifascista, devidamente alinhado com o viés progressista, sempre se fez presente, seja explícita ou metaforicamente falando, bem como o sentimento de sempre entregar trabalhos tão ferozes como inventivos e com um aspecto singular, o que possibilita que o power trio jamais soe genérico, muitíssimo pelo contrário. Personalidade, feeling e atitude é o que mais tem de sobra por parte das meninas.
E eis que chegamos em "Atenciosamente, Eskröta", o mais novo full-length da banda, cujo título, capa e principalmente conceito e pautas abordadas nas músicas indicam uma preocupação ainda maior com a clareza na transmissão de seu recado. Gravado em diversos estúdios, com destaque para Estelita, TOTH — onde mix/master foram realizados —, além de Refúgio Cultural e Estúdio Katharsis, produzido por Danilo de Souza e Fe Uehara (ambos do Bullet Bane), este segundo full-length foi lançado oficialmente em 20 de abril e, francamente, podemos assegurar de imediato que temos um trampo realmente intrépido em mãos.
Compilando 9 cânticos tão sinceros quanto subversivos — tudo no melhor sentido da expressão, o novo álbum ecoa como um registro ainda mais maduro, pessoal e até mesmo mais experimental, tendo em vista sua inclinação acentuadíssima para o hardcore punk, algo que se reflete nos primeiros instantes da audição. Dissertando sobre a ilustração de capa e o título, a arte foi desenvolvida por Hueller Figueredo e retrata uma protagonista feminina, vestindo um traje de proteção nuclear/radioatividade, coberto de patches antifascistas/antinazistas e feministas e que também está escrevendo em um diário. O título, aliado ao conceito tanto da arte como das letras, constrói uma unidade artística muito consistente, algo que se comprova ao término da audição.
Uma respiração ofegante ecoa, preparando assim o terreno para "Cena Tóxica", a tônica faixa de abertura. Aliás, o recurso introduzido para criar todo o clima inicial é simples e igualmente genial, fazendo alusão direta aos primeiros versos da letra — "Não quero respirar essa cena tóxica!" —, tal como a proposta da canção. A letra, parafraseando o Surra, é legitimamente uma bica na cara da galera peçonhenta e atitudes zeros de plantão que contaminam a cena e o rolê.
Os covardes e falsos que se escondem através de máscaras e discursos falaciosos, bem como os valores morais e padrões normativos, além de toda a conduta duvidosa presente na cena pesada são questionados em um frenesi enfático e hipnótico. O direcionamento e escola hardcore punk à lá Bayside Kings, Statues on Fire, Questions, Turnstile e afins pode ser sentido de imediato, tanto nos arranjos como nos backing vocals intensos e na sonoridade da produção e mixagem. Há ainda um espaço para um solo econômico e muito bem encaixado.
Jamais desperdiçando tempo, a audição prossegue com "Fila do Osso", que desperta um autêntico sentimento de ódio, desespero, drama e revolta. Seu início é cadenciado e rapidamente ganha contornos mais vertiginosos e babélicos, tudo embalado por uma letra que é autoexplicativa e tece uma crítica voraz a um dos episódios mais desprezíveis do (des)governo de Bolsonaro. Também há um coro polifônico tipicamente hardcore punk e variações rítmicas inseridas com sagacidade.
Por sua vez, "Pentencer e Conquistar" possui uma pegada mais cadenciada e marcada por elementos mais melódicos, porém sem jamais abandonar a agressividade. Uma levada percussiva nos conduz a mais uma canção que clama pelo desejo de reconhecimento e conquista perante a coletividade individualista e autocrática em que sobrevivemos. Na bridge, há uma sensibilidade punk genuína, um toque especial que apenas agrega mais valores ao produto final. Também é de suma importância mencionar a participação especial de Milton Aguiar (Bayside Kings, Mar em Fúria) nos vocais, igualmente excepcional e que amplia a escala de impacto.
"Fantasmas" não deixa a peteca cair e novamente, combina a sensibilidade do hardcore punk com a crueza e rispidez do thrash. Sua introdução já traz uma levada empolgante e bastante convidativa, pulsante e dinâmica. Cada verso é vociferado novamente com muito sentimento, contextualizando sobre traumas e conflitos dos tempos de infância, culminando num confronto interno e vigoroso para vencer esses espectros e pôr um fim às tribulações. Outra prova cabal de como este registro é o mais íntimo das meninas até o momento.
Na sequência, "Parece Fácil" se inicia com aqueles acordes harmônicos caprichados. O andamento é mais groovado/cadenciado, o que destaca a lírica, que ironiza tão sabiamente a auto superioridade e à isenção de autocrítica que muitos contemplam tão depravadamente. A forma como a melodia, o ritmo e até mesmo a métrica é distribuída — e claro, os incisivos backing vocals — corroboram para a eficiência do recado.
Dispensando explicações e floreios desnecessários, "Instagramável" evoca uma estrutura mais selvagem e urgente, não apenas sonora como liricamente falando, refletindo sobre o comportamento imediatista e de manada tão predominante em nossos tempos mais recentes, onde o Instagram e as redes sociais banalizaram absolutamente tudo ao nosso redor. "Tudo é Instagramável". Ainda há espaço para um solo bem encaixado e que em momento algo soa como firula ou algo do gênero. Na realidade, apenas adiciona camadas ainda mais encorpadas de intensidade e claro, sentimentalismo.
Os riffs thrashcore na melhor tradição de Surra, DxFxCx, RxDxPx e afins nos conduzem a "Combater Seus Atos", outra composição estabelecida nos melhores moldes de palavras de ordem, enfática em sua proposta musical subversiva e em sua mensagem extremamente indispensável, uma voadora sem misericórdia em todos os "passadores de pano" e "senhoras e senhores" que possuem memória curta para episódios deploráveis, sempre despejando panos quentes sobre aquilo que é controverso, varrendo a imundície para debaixo dos tapetes e, certamente, tapando o sol com suas peneiras. Seus refrão e backing vocals entoam o clima de emergência e os riffs, solo e cozinha complementam com exímio todo o resto.
Chegando na reta final, "Homem é Assim Mesmo", como já é de se imaginar, exterioriza um protesto sincero e com o intuito genuíno de tocar na ferida. Aliás, essa canção também foi o single de estreia do novo álbum e, levando em consideração a sua temática, foi uma escolha muito assertiva. Atroz, visceral e impetuosa em toda sua concepção e execução, a sua mensagem é muito clara e cirúrgica, jamais tecendo meramente uma crítica necessária ao machismo, como incentivando a luta interminável do público feminino contra a opressão e subserviência dos adeptos dessa postura abominável que, mais do que nunca, se instaurou e disseminou drasticamente em nossa sociedade. Em tempo, pros otários de plantão que sempre surgem nessas horas, não é mimimi porra nenhuma, é a realidade e a verdade é crua e dói pra caralho.
"Mosh Feminista" encerra o disco com aquele gostinho de "Quero Mais", preservando a mesma essência das canções anteriores, em especial da faixa anterior. Honestamente, essa faixa já nasceu um hit/hino da banda, evocando uma letra puramente feminista e, novamente, extremamente necessária, na mesma escola de "Mulheres", clássico presente em "Eticamente Questionável".
De cara, já é possível imaginar o público feminino arrebentando tudo tanto no moshpit como em cima do palco, como deve ser. Sempre comento seja em resenhas ou conversas minhas com amigos meus e até com minha mãe e minha ex noiva que é muito bom ver as mulheres agitando e sendo cada vez mais ativas nos shows no decorrer do tempo, entretanto ainda vivemos em uma sociedade machista/sexista e, por consequência, o rolê de som pesado e o moshpit ainda são territórios onde o preconceito e a intolerância prevalecem.
Muitos podem questionar que tudo isso soa óbvio e até mesmo clichê, no entanto tudo isso é um ledo engano. Enquanto toda forma de intolerância existir, é nosso dever acabar com isso pra ontem, não existe diplomacia com atitudes repulsivas e inaceitáveis. Respeitem as minas, o moshpit, o rolê e absolutamente tudo mais é delas também. Aliás, o rolê é para todes, menos pra intolerantes e cuzões que jamais estarão dispostos a compreender valores tão simples e indispensáveis. Lembrem-se: "Abre o mosh/Mulheres na frente".
Após o término da audição, é notório que temos em mãos o registro mais maduro da Eskröta até agora. Nunca soando panfletário ou pretensioso e sim, muito ousado, diversificado, honesto e obrigatório em toda sua essência, "Atenciosamente, Eskröta" prima em absolutamente cada intuito possível. Existe experimentalismo, porém jamais há perda de identidade, pelo contrário, todo o espírito do grupo prevalece mais vivo do que nunca, entregando uma coleção de faixas tão diretas quanto necessárias de serem escutadas com muita atenção, principalmente em tempos onde a intolerância, em cada espectro de sua existência, persiste e se esconde em cada meio, especialmente no meio da música pesada e claro, ao nosso redor.
Trata-se muito mais do que apenas música pesada bem feita, mas uma ode à luta feminista e ao combate contra o totalitarismo social que corrói a nossa sociedade de dentro pra fora, palavras de ordem que ecoam pelos alto-falantes com o pleno desejo de vencer e obliterar quaisquer ideias tortas que se prezem. Portanto sim, ouçam no volume máximo, contudo prestem muita atenção nas letras e debatam sobre. Que essa mensagem seja captada com o máximo de respeito e atenção, pois conforme reforçamos tanto à essa altura, tudo isso jamais soou tão essencial quanto agora.
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