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O icônico festival brasileiro de música barulhenta, grotesca, imunda, transgressora e deliciosamente subversiva que atende pelo nome de Kool Metal Fest — KMF para os íntimos — chegou à sua 20ª edição, um feito pra lá de estarrecedor, se considerarmos a premissa do evento. Os feitos de seus organizadores são dignos de imensuráveis aplausos, especialmente se levarmos em consideração a variedade de grupos, sejam nacionais ou internacionais, que já transmitiram o seu recado sonoro nos palcos do fest.
No domingo de 12 de março, tivemos a vigésima e excruciante empreitada em solo paulistano, sendo na noite anterior a comemoração do festival rolou em solo mineiro. Para sediar este espetáculo anárquico de porralouquice, o local escolhido foi o Carioca Club, situado em Pinheiros, na zona sul de São Paulo. Nesta data tão aguardada pelos aficionados por música — e também anti-música — feia, suja, veloz e completamente delinquente, rolaram as apresentações de cinco bandas tupiniquins, sendo elas Vermenoise, Trovão, Facada, Violator e Ratos de Porão, além de uma atração gringa que dispensa apresentações, os pioneiros mundiais do crossover, Dirty Rotten Imbeciles — ou simplesmente D.R.I., é claro.
Como podem perceber, uma baguncinha daquelas completamente fanfarrônicas e sobrenaturais era eminente e abaixo, convidamos vocês, carxs amigxs a embarcarem conosco nessa jornada textual recheadíssima de sequências animalescas de bicudas, giratórias, além de moshpits, stage dives, crowd surfings, circle pits e "bateções de pentagrama" e, muito, mas muito mais. Portanto, vistam seus acessórios e visuais preferidos, agarrem suas pranchas de surf e venham com "nóizes". Aviso: não nos responsabilizamos nem um pouco por quaisquer danos que sejam provocados às suas integridades físicas ou mesmo espirituais. Simbora!
A data selecionada para o rolê foi um daqueles dias onde a chuva torrencial castigou a cidade. Afinal, seria um sinal dos deuses da podridão sonora evidenciando o quão (agua)rdado era o evento? "Trocadalhos do carilho" tosquíssimos à parte, o Carioca Club é uma casa deveras apropriada para apresentações deste porte e claro, sua reputação o precede. Desde o inicio, já era possível se deparar com as indispensáveis e convidativas banquinhas de merch devidamente instaladas e, como bons apreciadores e colecionadores de bugigangas maneiras que somos, não poderíamos deixar de conferir cada um deles. Pra variar, um simplesmente mais lindo e estiloso que o outro, como manda o figurino.
Se tratando de merchs, um destaque imenso foi a barraquinha da instituição tupiniquim Ratos de Porão — vulgo R.D.P., que sempre brinda seus fãs com uma infinidade de masterpieces. De cara, é impossível não mencionar a emblemática peita "Patriota Idiota", com o rato/mascote dirigindo um caminhão e o "patriotário" sorridente colado em sua frente — a rima não foi intencional, que fique bem claro! —, simplesmente épico e assertivo, fazendo menção autoexplicativa aos episódios mais recentes das vergonhas-alheias promovidas por bolsonaristas nas estradas. Além de todo o merch, também havia uma banquinha dedicada exclusivamente a lanches veganos, algo que certamente muito nos agrada e, obviamente é sempre um imenso prazer consumirmos algo não apenas delicioso como saudável, uma excelente pedida pra dar aquela forrada marota no bucho.
O rolê começou pontualmente às 14h00, com a performance corrosiva do power trio de Sorocaba (SP) Vermenoise. A proposta da banda é um grindcore não apenas brutal e visceral, como também incisivo sonora e liricamente falando, como um bisturi afiadíssimo cravado nos miolos, tudo na medida para os amantes de anti-música. Introduzindo os guturais apropriadamente grotescos da frontwoman Chris Justtino, que esbanjou um show a parte em termos de performance, o grupo ainda conta com Master (guitarra) e Rafaela Bega (bateria). Cada um deles demonstrou a mais genuína competência na execução de seu ligeiro repertório, que contemplou o material dos trabalhos "Inimigo Fidagal" (2016) e "O Outro" (2020), além de uma cover da instituição tupiniquim do mesmo gênero, Plague Rages, banda essa da qual Chris integrou em 2019.
Aliás, a destreza do trio se tornou ainda mais nítida quando o primeiro circle pit do dia teve início. Claro que, como toda banda que se preze do nicho, não poderiam deixar de enfatizar o seu posicionamento sociopolítico com plena proficiência, em especial quando a Chris ressaltou a importância de não ser permitido sob hipótese alguma a presença de machismo, sexismo e todo tipo de intolerância e preconceito dentro do meio. Direto e reto, uma excepcional maneira de iniciar o evento, deixando aquele gostinho de "Quero mais", tamanho o ritmo absurdamente atroz da apresentação — e como deve ser, convenhamos!
Em seguida, às 15h20 foi a vez do sexteto paulistano Trovão apresentar o seu heavy metal tradicional cantado em português. Composta por Alexander Vasiliev (baixo, teclado e vocal de apoio), Alan Caçador (bateria), Gustavo Trovão (vocal), Alexandre Gatti (guitarra/vocal de apoio), Lucas Chuluc (baixo) e Igor Senna (guitarra), a banda promoveu o repertório de seu álbum de estreia, "Prisioneiro do Rock 'n' Roll" (2021) e levou os entusiastas deste tipo de proposta retrô ao delírio, algo que se comprovou com a quantidade invejável de fãs aglomerados na frente da pista, todos extasiados, com os punhos para o alto, "bangueando", cantando as letras e demonstrando um feedback absurdo para o grupo. Confesso que a sonoridade praticada não é algo que nos agrada tanto, entretanto é inegável que os caras fizeram o seu trampo com o máximo de competência dentro do que se propõem a fazer. Um prato cheio para os apreciadores dessa premissa, como devem imaginar.
No horário mais sugestivo possível, às 16h20, era a vez da imundície crocante, lamacenta, tempestuosa e anticomercial do grindcore retomar aos palcos com a entidade de Fortaleza (CE) que atende pelo "delicado" nome Facada. Cá pra "nóizes", estaríamos sendo muito desonestos e mentirosos se omitíssemos o quanto desejávamos rever estes senhores veteranos em ação. Na modesta opinião dos resenhistas que vos falam, ao lado dos igualmente gigantes absolutos do Rot, se trata pura e simplesmente de outra das maiores bandas dentro do estilo em terras brasileiras. Quando James (vocal/baixo), Danyel (guitarra) e Vicente Ferreira (bateria) subiram ao palco e iniciaram a apresentação com a dobradinha "Genital Grinder" (cover delicioso da clássica instrumental do Carcass, em seus pútridos anos de goregrind/splatter) e "Tu Vai Cair", a pista se tornou um território desconhecido e hostil, onde o moshpit se tornava cada vez mais truculento e intenso à cada faixa executada, acompanhando o ritmo trovejante e maravilhosamente anti-musical do power trio cearense.
Já tivemos o privilégio de conferir esses ícones em ação anteriormente, contudo é inevitável ficarmos completamente boquiabertos e sem quaisquer reações ao acompanharmos tamanha performance voraz e precisa, cujo efeito se equipara a ser atropelado impiedosamente por uma manada ensandecida de búfalos altamente furiosos. A forma como James não apenas vocifera no microfone, como também palheta as cordas de seu baixo beira uma ferocidade indescritível. Os riffs e linhas do guitarrista Danyel compõem uma parede de som absurdamente volumosa, que implode à cada "bate-estaca" e blast beat de Vicente, que substituiu o exímio Wilker D'Angelo com muita atitude, respeito e claro, profissionalismo.
O setlist apresentado pelo grupo incluiu inúmeras canções emblemáticas de todo o seu invejável catálogo, em especial de seu antológico segundo álbum, "O Joio" (2010). Além da já mencionada "Tu Vai Cair", "Descendo Sangue Igual Torneira", "Podem Vir", "O Joio" e "Chovendo Baratas" foram apresentadas para relembrar aquele trabalho espetacular. Também rolaram os petardos "Amanhã Vai Ser Pior", "Nadir", "Cidade Morta" e "Guarda Esse Mantra Pra Ti" — que encerrou o show com aquele climão fúnebre e funesto —, de "Nadir" (2013), "Tudo Me Faltará" e a já clássica "Feliz Ano Novo", de "Quebrante" (2018), bem como "Socorro", "9mm de Redenção", "Falta Excesso" e claro, o hino dos hinos, "O Cobrador", sendo essas últimas representantes do álbum de estreia, "Indigesto" (2006).
Ainda rolaram espaço para canções da demo tape de 2004, "Apocalipse Agora", "Playing With Souls" e "Emptier" e, vejam só, até mesmo para outras releituras de primeira, sendo elas "Tourette's" (Nirvana) e "Deaththrash" (Sarcófago), ambas registradas no álbum de covers "Nenhum Puto de Atitude" (2016). Até mesmo uma composição inédita foi executada, "Instagrinder", faixa essa que opera como uma crítica ácida e mordaz aos "viciados digitais" de plantão na qual nos deparamos por aí, inclusive nos shows. Segundo as palavras de James, a banda já está trabalhando em novas músicas/demo tapes e a proposta é retomarem às suas raízes, o que aponta que teremos um enxame de canções pra lá cavernosas pela frente. De fato, a seleção do setlist diz muito a respeito desse sentimento de se produzir algo à moda antiga, sejamos bem francos.
Dando sequência ao baile e diversão violenta dos "chovens" e "jovelhos" de plantão, às 17h20 foi a vez dos thrashers maniacs do Violator mandarem o seu recado e claro, o público já estava pra lá de ansioso, visto que thrash metal é o equivalente ao "churrascão de domingo" do entusiasta tupiniquim de metal e som pesado e, nomes como o Violator figuram no topo do cardápio dessa turma. Diretamente de Brasília (DF), que como bem diz os conterrâneos do D.F.C., é a "cidade oriunda dos políticos e cidadãos mais filhas das putas do país", o "Violas" sobe ao palco e já nos apresenta aquela dobradinha infalível e de lei, composta pela instrumental moshante "Ordered to Thrash" e pela "crássica" "Atomic Nightmare", que já levou fãs ao palco para promoverem não apenas stage dives esquizofrênicos como atordoantes e raivosos backing vocals em vários trechos memoráveis de sua letra.
E tome chuvas torrenciais de "balões de camisinhas", mosh/circle pits desequilibrados, crowd surfings e stage dives frenéticos, incluindo a presença de uma inesquecível prancha de surf que circulava de mão em mão e, pasmem, até mesmo rolos de papel higiênico foram conhecer e desbravar o teto do Carioca Club, provocando risos e gargalhadas que, quiçá se propagam até este presente momento em que você está lendo esta linha. Logo de cara, o carismático e impagável vocalista e baixista Pedro "Poney Ret" Arcanjo brincou com a postura totalmente descompromissada e antiprofissional da banda, algo que já é uma característica peculiar e charme das apresentações desconcertantes dos caras.
Inquestionavelmente, os shows do Violator são legítimos espetáculos de baderna, onde o som ultraviolento e cru se une aos discursos sociopolíticos de forma muito bem-humorada e branda. Tudo isso se reflete com a entrada do grupo ao palco, a transição de feições e comportamentos do público beira o sobrenatural durante a apresentação do quarteto. Para essa festa de ode à subversão e balbúrdia, além de Poney, Marcio Cambito (guitarra) e Batera — melhor apelido possível — (baterista, é claro), o show contou com a participação do guitarrista e velho amigo de longa data Felipe Nizuma (Urutu), este veio para substituir Capaça, que no momento está indisponível para se apresentar com o grupo.
De cara, é importante pontuar que, se você está em um rolê como esse e é o típico "isentão" ou "direitista", não é por nada, mas está no lugar errado, especialmente durante a apresentação de uma banda tão direta ao ponto em seu discurso como o Violator. Definitivamente, ouvir e colar em shows como este única e exclusivamente pelos "rinfes" é uma péssima ideia, sem mais. Dentre as muitas palavras trocadas por Poney, devemos destacar a saudade que ele e seus companheiros de banda estavam de se reunir novamente e trombar velhos amigos e amigas, dar aquele abraço caloroso e valorizar ainda mais as coisas e momentos mais simples da vida.
Ele também ressaltou os danos irreparáveis provocados não somente pelo nefasto período de pandemia, como também as atrocidades cometidas pelo (des)governo do "messias decrépito". Após relembrar o saudoso Alex "Bucho" (ex-Rot, ex-Cruel Face, ex-Social Chaos, ex-Bandanos etc), uma das incontáveis vítimas do tirano genocida que atende pelo nome de Jair Messias Bolsonaro, não demorou nem muitos segundos para que o coro "Ei, Bolsonaro! Vai tomar no cu!" fosse entoado com força total e repetidamente por todos os presentes.
Falando sobre o repertório em si, além das duas faixas esmagadoras citadas anteriormente, ainda tivemos as obrigatórias "Respect Existence or Expect Resistance", "Endless Tyrannies" — onde a crítica voraz ao militarismo foi muito bem reforçada antes de sua execução, com foco ao coro "Sem anistia!" — e "Death Descends (Upon This World)", de "Scenarios of Brutality" (2013), "False Messiah" — "canção de amor" para Bolsonaro e "Infernal Rise", do EP "The Hidden Face of Death" (2017) e "Futurephobia", do EP "Annihilation Process" (2010), cuja introdução e atmosfera old school sempre me remete a uma vibe saboroso e muito similar a abertura de outro hino do thrash metal mundial, "Inner Self" (Sepultura).
Aliás, após tocarem essa última "delícia das delícias" que todos estavam procurando, Poney ainda comentou sobre o calor escaldante que castigava tudo e todos e, honestamente, foi algo que realmente estava bem complicado de suportar. Por se tratar de um evento que começou bem cedo e o local estava mais abarrotado que estação de trem/metrô em horário de pico, faltou um suporte por parte dos organizadores da casa no que tange a refrigeração de ar e condições mais agradáveis aos pagantes, algo que só piorou no decorrer do evento, maaaas... como dizem, "vida que segue" e "bola pra frente"!
Ainda dissertando sobre o setlist, jamais poderiam faltar os clássicos obrigatórios do memorável debut "Chemical Assault" (2006), "Toxic Death" — este som foi tocado logo após um probleminha com a batera ser corrigido e, antes de executarem essa "belezura da disgraça", Poney demandou que o público abrisse o maior circle pit possível, "After Nuclear Devastation" e "Destined to Die", onde o discurso antifascista foi novamente pontuado com vigor. Por fim, é claro que o gran finale é sempre a execução do hino "UxFxTx (United for Thrash)", momento este que é sempre o mais aguardado de qualquer apresentação do "Violas" e, como sempre, uma multidão de fãs subiu ao palco para agitar e cantar junto com Poney e cia., concluindo assim essa eletrizante performance e aula de thrash metal, sempre da maneira mais apoteótica e divertidamente insana possível.
É importante ressaltar que Poney aproveitou para dar uma bronca nos "mosheiros inconsequentes" do rolê, que acabam se entusiasmando demais e machucando alguns presentes. É interessante mencionar que Poney já cantou sobre o tema na clássica "Mosh Jocks", em seu projeto de crossover/hardcore Possuído Pelo Cão, porém é algo que, fatalmente, sempre se torna importante de ser discutido. Pra quem possui o hábito de frequentar shows e participar de moshpits e afins, é muito perceptível que a galera anda violenta até demais após o término da pandemia, algo que realmente deve ser controlado. Um dos fãs que estava no palco até complementou o discurso de Poney utilizando as clássicas palavras dos thrashers estadunidenses do Exodus, "Good friendy violent fun", ou seja, agite pra caralho, mas não seja cuzão, no bom e velho português.
Estava mais que estampado na face de cada membro da banda, bem como nas emocionadas falas de Poney o quanto eles estavam totalmente felizes por estarem tocando ali, sem grades, sem seguranças, sem frescuras ou firulas desnecessárias, algo muito bem enfatizado pelo frontman durante o show, à propósito, sempre destacando o poder que o underground possui. É surreal como, embora a banda não lance um novo álbum de inéditas há um tempo considerável, a força do fandom e relevância do grupo é simplesmente surpreendente. Tomara que sejamos presenteados com algum material de inéditas num futuro não tão distante, de preferência um full-length, levando em consideração que o último, "Scenarios of Brutality" (2013), está prestes a completar uma década de existência. Os fãs e apreciadores de plantão merecem e aguardam ansiosamente!
Ainda um bônus sobre o "Violas": coincidentemente, há quase 10 anos, no fim de 2013, rolou em São Paulo uma edição do festival Open the Road, onde o cast foi composto por Violator, Ratos de Porão, Benediction e D.R.I. Embora os mestres ingleses do death metal — vulgo "Benedito" — não tivessem sido escalados para essa edição do KMF, tivemos um pequeno easter egg, já que o guitarrista Cambito vestia uma peita com o logotipo da banda. "Se fosse combinado, não daria certo", não é verdade?
Sem jamais perder tempo, às 19h era o momento de outra instituição subir ao palco e claro, falamos de Jão (guitarra), Boka (bateria), Juninho (baixo) e João Gordo (vocal), ou simplesmente Ratos de Porão — R.D.P. para os mais íntimos, é claro. Elogiar uma apresentação desses veteranos do metal punk nacional é chover no molhado demais. Desde os primeiros acordes, já sabemos o que esperar. Entretanto, como todos os mestres que se prezam, sempre somos surpreendidos muito positivamente com a qualidade da performance entregue pelos mesmos. Trata-se de uma experiência muito similar a degustar aquele bom e velho vinho na qual conservamos durante anos e cujo sabor soa cada vez melhor no decorrer do tempo. Apesar de não serem mais tão joviais como outrora, ledo engano de quem imagina que os "véios" não aguentam o tranco.
A banda passeou pela maioria as fases de sua vasta carreira, iniciando o show com as recentes "Alerta Antifascista" e "Aglomeração", ambas do último álbum de inéditas, "Necropolítica" (2022). Em seguida, ainda rolaram "Amazônia Nunca Mais", "Farsa Nacionalista" e "Lei do Silêncio", da obra-prima atemporal "Brasil" (1989). Sem perder o fôlego por um segundo sequer, "Ignorância" entrou em cena para representar "Cada Dia Mais Sujo e Agressivo" (1987), enquanto a pungente "Morte ao Rei" evocou os tempos de "Anarkophobia" (1991).
Tal como nos shows anteriores, a roda estava completamente insana — pra surpresa de zero pessoas, e claro —, novamente preenchida pelos "balões de camisinha", que desfilavam de um lado para o outro, ditando a vibe extremamente bem-humorada e tresloucada que um evento deste porte tanto exige. 40 anos não são 40 anos, portanto reverenciar uma entidade tão sagrada quanto o R.D.P. é o mínimo que podemos fazer. Trata-se de um legítimo patrimônio tanto do hardcore punk como da música extrema tupiniquim, sempre se mantendo relevante, não apenas sonora como também liricamente, um tremendo porta-voz de mensagens sociopolíticas tão brutais quanto perspicazes, sempre trazendo à tona a realidade dura, nua e crua do feudo brasilis.
Leu tudo até agora e ainda tá achando pouco? "Guenta" aí que vem mais "disgraceira" de alto nível, oras pois! O moshpit se converteu em um rolo compressor em alta velocidade assim que o hino "Crucificados Pelo Sistema", do histórico álbum de estreia homônimo de 1984 foi anunciado. Nem mesmo o fato da pista estar completamente abarrotada em níveis sobrenaturais ou o bizarro e insuportável calor que ali fazia impediu que geral se matasse na roda como se não houvesse amanhã. Diga-se de passagem, algo que deve ser dito com todas as letras é que foi muito gratificante ver uma quantidade admirável de mulheres participando de praticamente todas as rodas do evento. Por mais que soe clichê ou talvez até relativamente repetitivo destacar isso, é de suma importância cravar que o rolê é de todxs e não há espaço para nenhum tipo de exclusão, muitíssimo pelo contrário. Digo isso, tem mais é que aumentar gradativamente o número de moças no meio de toda essa baguncinha.
Preservando o clima crocante e obliterador como uma voadora direto na fuça, "Descanse em Paz" trouxe aquela veia de hardcore punk/d-beat europeu do início dos anos oitenta, cortesia do homônimo e emblemático segundo disco, lançado em 1986. Retomando a veia crossover, a implacável "V.C.D.M.S.A. (Vivendo Cada Dia Mais Sujo e Agressivo)" fez o moshpit soar tão psicótico quanto divertido, graças a abordagem sarcástica dos vocais e presença de palco de Gordo, uma figuraça. Gordo e cia. fazem uma breve pausa para anunciar que irão tocar três faixas do EP "Isentön Päunokü", trabalho este que não apenas foi batizado como uma sátira cirúrgica contra os "reacionários enrustidos", como também engloba releituras de canções dos pioneiros do hardcore punk finlandês oitentista Terveet Kädet, todas elas adaptadas para português e com novas letras, conteúdo lírico esse que abraça totalmente as vibrações "necrochorumosas" dos últimos anos de nosso país, pavimentadas pela mais nojenta "esbórnia câncervadora". Novamente, outras performances admiravelmente belicosas e muitíssimo bem-recebidas pelo público mosheiro, que simplesmente não se cansava nem a pau.
A pequenina, cruel e mandatória "Caos" manteve a fétida chama da anti-música/hardcore punk viva, levando a massa de maníacos a devastarem ainda mais brutalmente pela pista. Cada membro girava como rodas de tratores de demolição, uma loucura contagiante daquelas que "nóizes" tanto apreciamos e jamais nos enjoamos. Simbolizando uma de nossas épocas prediletas da banda, foi a vez da divertidíssima "Difícil de Entender", de "Carniceria Tropical" (1997) botar geral pra dançar e cantar violentamente. O mesmo pode ser dito da trinca seguinte, composta por "Engrenagem", de "Onisciente Coletivo" (2002) e o "maravilindjo" ataque sonoro terrorista que atende pelo "fofo" título "Toma Trouxa", direto do EP "Guerra Civil Canibal" (2000).
Algum ponto negativo? Na verdade tem sim. Ao contrário dos shows anteriores, durante o show do R.D.P., foi a primeira vez em todo o evento que tivemos a presença nada amigável de seguranças no palco, que impediam a galera de subir ao palco para "lançarem a braba" e mandarem stages dives e afins. Uma tremenda pena, já que grade e segurança em show de hardcore punk e seus derivados é algo tão frustrante e desnecessário quanto transar de roupa, mas vida que segue, né?
Há incontáveis maneiras de se descrever uma apresentação tão afiada e na fuça como a do D.R.I., porém se você quer ser econômico, pode sintetizar tudo com "aula de crossover/hardcore", pura e simplesmente. O "crème de la crème" de todo bom show com essa proposta se faz total e completamente presente por aqui: crowd surfings com prancha voando pra todo lado feito um bumerangue, moshpits que não param nem nas músicas ou partes mais lentas, uma plateia tão louca e implacável como a sonoridade da banda e por aí vai. Aliás, nomes como o D.R.I., muito embora sejam parte de um nicho tão singular, possuem a moral de atrair tantos seguidores e isso se torna nítido tamanha a quantidade não somente de peitas, patches e adereços visuais, como até mesmo tatuagens com o icônico mascote "mosheiro". Rei que é rei jamais perde a majestade e, definitivamente, isso tudo capta o que D.R.I. pra cada um de seus respectivos fãs.
Assim como o R.D.P., os estadunidenses também completaram quatro décadas de pura porralouquice e dedicação ao roque veloz, "antistablishment" e transgressor, algo que certamente faria aqueles seus conhecidos de nariz empinado e metidos a besta expressarem uma belíssima careta, em sinal de pura reprovação. A idade claramente chega a cada um de nós e, dessa vez, a banda não nos presenteou com um setlist beirando 30 ou 40 e poucas músicas como de costume, porém entregaram 21 hinos de toda sua trajetória monumental, tudo exercido com puro feeling e capricho que se espera desses senhores grisalhos. Taí uma banda que integra facilmente aquele seleto grupo que sempre brinda seus entusiastas com uma extrema maestria. Ver os caras ao vivo é sempre um sentimento de dever cumprido, é praticamente um manual primário para todo ouvinte do estilo que se preze, um ritual obrigatório.
Também é extremamente importante salientar que, como o guitarrista Spike Cassidy está se recuperando de uma cirurgia em seu olho, para substituí-lo na turnê sul-americana, foi recrutado o amigo de longa data Bryon "Yapple" Ruelas, dos igualmente ícones do hardcore punk/crossover da Baya Area Attitude Adjustment. Uma vez explicado isso, adianto que Bryon mandou muito bem, algo que não tinha a menor dúvida, já que esses músicos desse celeiro crossover/hardcore punk oitentista — especialmente do totalmente excelente Attitude Adjustment — simplesmente não tem erro, é sempre tiro certeiro. Completando o line up, tivemos Greg Orr (baixo), Rob Rampy (bateria) e o inigualável Kurt Brecht (vocal), sempre com seu tom vocal que opera como um grito de guerra hipnótico.
Tambores e riffs muito bem marcados dão início ao show, com a avassaladora "The Application", do subestimado "Definition" (1992). A entrega absurda de pancadaria sonora pôde ser comprovada desde as primeiras frações de segundo dessa execução moedora de ossos. Os senhores do "roque rápido" não brincam em serviço e já emendam com o hino "Violent Pacification", do homônimo EP concebido em 1984, botando todos pra girar e cantar a plenos pulmões. "Mad Man" e "Couch Slouch" evocaram a "era punk" e primórdios do crossover, cortesia das masterpieces "Dirty Rotten EP" (1983) e "Dealing with It!" (1985).
O groove corrosivo "Acid Rain" ditou o pogo, assim como o clássico thrashpunk "Argument Then War", que tal como a composição antecessora, sempre rende momentos tão energéticos quanto inesquecíveis nos shows. A quadra "Who Am I", "Slumlord", "Dead in a Ditch" e "Suit and Tie Guy" — essas três últimas de "4 of a Kind" (1988). "Suit and Tie Guy", por exemplo, certamente deve trazer aquela nostalgia dos tempos de MTV pra muitos que já passaram dos 40 anos e cresceram assistindo a videoclipes a banda e tudo mais. O clima "for fun" que esses sons proporcionam ao vivo é digno de uma viagem transcendental para um planeta desconhecido e divertidamente hostil. Aliás, algo bem legal é que, por mais que o diálogo entre a banda e o público seja bem econômico, o frontman Kurt Brecht se deu ao trabalho de agradecer às bandas que se apresentam, enfatizando os velhos amigos Violator e Ratos de Porão, evidentemente.
Chegando a reta final, um nova trinca de canções da série "Piscou? Perdeu!" foi oferecida, sendo ela composta por "I'd Rather Be Sleeping", "Equal People" — eu, Fanfarrão Torres, queria muitíssimo ver essa ao vivo, já que não a tocaram nas ocasiões anteriores em que vi os caras — e claro, o "crássico jurássico" "I Don't Need Society" resultaram naquela "disgraceira" linda de se ver. Pra fechar a apresentação de modo magnífico e triunfante, é claro que tivemos o hino "The Five Year Plan", da obra-prima "Crossover" (1987), cuja performance tanto da banda como do público é uma avalanche de proporções absolutamente descomunais. Se ficou aquele gostinho de "Ah, quero mais"?. Claro que sim, mas isso faz parte de todo evento dessa magnitude, evento este cujas expectativas não apenas foram totalmente correspondidas, como completamente superadas.
Sem mais delongas, enrolações, firulas e descrições viajadas e altamente fanfarrônicas ocasionadas por delírios tão imaginativos quanto desvairadamente psicóticos, só nos resta agradecer ao KMF e sua organização, que não somente acertarem em cheio mais uma vez na escalação das bandas, como nos proporcionaram uma senhora comemoração aos 20 anos do fest, tanto pelo cast estelar como pela baguncinha divertidamente insana promovida em parceria do público com os artistas. Sem palavras e que venham incontáveis edições pela frente e de quebra, possamos ser ainda mais surpreendidos, no melhor sentido da palavra.
Redigido por David "Fanfarrão" Torres e Alan Campos
Fotos por David "Fanfarrão" Torres e Alan Campos














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