[Live Noise] Jane's Addiction - Audio Club - 23 de março

Dentre as grandes bandas de rock dos anos oitenta e noventa que sempre almejei prestigiar ao vivo, definitivamente o Jane's Addiction sempre foi uma das que mais desejava. Formada em 1985, em Los Angeles, Califórnia (EUA), a banda foi responsável por registrar dois dos trabalhos mais instigantes e emblemáticos de sua safra, sendo eles os álbuns "Nothing's Shocking" (1988) e "Ritual de lo Habitual" (1990), legítimos clássicos imortais do frutífero cenário alternativo que emergiu com força total no fim da década de oitenta e início de noventa, à exemplo de nomes igualmente louváveis e inesquecíveis, como Red Hot Chili Peppers, Faith No More, Living Colour e Smashing Pumpkins. 

Verdade seja dita, quem acompanhou a MTV Brasil nos anos 90 e até mesmo durante o início dos anos 2000 se recorda muito bem que a emissora veiculou à exaustão incontáveis videoclipes do grupo californiano, algo que inquestionavelmente moldou o caráter e o gosto musical de toda uma geração de fãs. Até então, nunca havia tido a oportunidade de assistir a um show de Perry Farrell e Cia. — até o mês de março chegar, é claro. Quando este Fanfarrão que vos escreve se deparou com o anúncio de que o Jane's Addiction realizaria, além de um show no Lollapalooza, em 25 de março, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo (SP), uma apresentação solo também em solo paulistano, em 23 de março, na Audio Club, é claro que jamais poderia cogitar a hipótese de perder essa festa, não é verdade?

Coincidentemente, faço aniversário em 14 de março e já havia celebrado com força e fanfarronice total na edição de 20 anos do Kool Metal Fest, que ocorreu em 12 de março, no Carioca Club, também em São Paulo (SP), entretanto agora era a vez de apreciar uma experiência diferenciada e igualmente arrojada para mim. Criei uma expectativa indescritível e honestamente, todas elas foram superadas com sucesso. O que testemunhei naquela noite foi pura e simplesmente uma aula de rock'n'roll subversivo, fora da caixinha e de proporções tão sobrenaturais quanto ilimitadas. Duvida disso? Oras pois, pois bora embarcarmos em mais uma eletrizante e fanfarrônica leitura recheada de loucuras, estripulias e devaneios mil!

Por volta das 19h30, as portas da Audio Club já estavam abertas e uma fila de entusiastas da banda veterana estadunidense já se aglomerava. Para nossa total felicidade, não havia Pista Premium, o que foi um deleite formidável para se conseguir um bom lugar para assistir ao show, um feito muito raro nos dias atuais, visto que a maioria dos eventos, em especial os que envolvem artistas aclamados, costumam ser dividido entre setores pra lá de tenebrosos, que além de atrapalharem a experiência, a tornar extremamente cara e desagradável, graças aos preços exorbitantes dos ingressos cobrados e tudo mais. Vale mencionar que a Audio Club, cada de shows selecionada para o show e localizada na região da Barra Funda, também foi uma ótima alternativa, possuindo fácil acesso para locomoção, além de um amplo espaço para todos os presentes.

Sem bandas e/ou artistas de abertura, pouco mais de 21h30 uma introdução tribal, hipnótica e crescente preparava progressivamente o clima da apresentação que estava prestes a se inicial, quase como um ritual, algo que faz alusão direta ao título do segundo álbum de estúdio do grupo californiano. Uma névoa de gelo seco desfila pelo palco, ampliando a ansiedade da plateia, cada vez mais eufórica e inquieta. Então, é possível ver um grupo de dançarinas devidamente caracterizadas transitando pelo fundo do palco, enquanto o quarteto Stephen Perkins (bateria), Eric Avery (baixo), Perry Farrell (vocalista) e o músico convidado Josh Klinghoffer (guitarrista) entram em cena, seguindo aquele tom surrealista e dramático.



Um ponto muito importante de ser destacado é que a banda prometeu realizar uma apresentação mais "intimista" na Audio e olha, o objetivo foi atingido com sucesso. "Up the Beach", a antológica e atmosférica faixa de abertura de "Nothing's Shocking" inicia o show da forma mais lisérgica possível, levando todos a cantarem suas melodias tão mesmerizantes quanto deslumbrantemente excêntricas. Logo nos primeiros arranjos e instantes, era nítida a expressão de felicidade nos olhares e expressões contagiantes do inigualável frontman Perry Farrell, que além de elegante pra altos "caralhos voadores", parafraseando outro rei da "porralouquice" alternativa e experimental, Mike Patton, esbanja simpatia em cada trejeito e ação. As jurássicas "Trip Away" e "Whores", ambas do álbum ao vivo autointitulado, "Jane's Addiction" (1987), foram executadas em seguida, com toda maestria e controle que se espera de uma banda tão madura quanto habilidosa.

Se "Trip Away" despertara aquela aura old school típica de lançamentos clássicos de bandas que apreciamos incondicionalmente, "Whores" terminara por acender o fogo no pavio daquele canhão não de guerra, mas de incontrolável poderio sônico e artístico. As dançarinas ali presentes, sendo uma delas Etty Lau Farrell, também cantora, atriz asiática-americana e esposa de Farrell, deixaram a performance ainda mais rica e teatral, ao mesmo tempo que as linhas vocais e o instrumental espantosamente sideral ecoava como uma massa sonora imensurável. 

À título de informação, para aqueles que desdenhavam da capacidade de Josh Klinghoffer (ex-Red Hot Chili Peppers) de suprir o guitarrista Dave Navarro, apenas posso dizer que o cara arrebentou e fez um trabalho à altura. Para quem desconhece, Navarro passou por problemas de saúde ligados à Covid-19 desde dezembro de 2021 e Klinghoffer foi o escolhido para substituí-lo nos shows destes primeiros meses de 2023. Diga-se de passagem, Josh possui um currículo igualmente invejável, colaborando com bandas e artistas como Pearl Jam, John Frusciante, Butthole Surfers, PJ Harvey e Gnarls Barkley, além de ter colaborado anteriormente na carreira-solo do próprio Perry Farrell. Ou seja, era o cara certo na hora certa, sem mais. 


Representando o estupendo "Ritual de lo Habitual", "Ain't No Right" botou geral pra cantar a plenos pulmões, bem como dançarem, pularem e agitarem incessantemente, seja pela sua letra e métricas empolgantes, como pelo seu ritmo e gingado recheadíssimos de um groove entrondoso e incapaz de se ficar indiferente. Aquele clima de festança prevaleceu com o balanço deliciosamente funkeado de "No One's Leaving", já altamente viciante em estúdio e que, ao vivo e em cores, ecoa de maneira ainda mais entusiasmada e impagável. Como toda banda profissional que se preze, os caras não sabem brincar e já apelaram com outra pérola inesquecível, "Ted, Just Admit It...", cujas harmonias iniciais foram o bastante para preservar a flama que acendia sobre as cabeças e expressões faciais sorridentes de cada um ali presente. Novamente, a performance das dançarinas, aliadas ao desempenho descomunal da banda e ao climão da apresentação em si renderam uma explosão de sensações que beiram o indescritível. 

Ao questionar se o público estava feliz e desfrutando toda aquela curtição maravilhosa, Farrell, no auge de seus 64 anos de idade, mas ainda transparecendo ser um garoto de 18 anos, respondeu em tom de muito bom humor que estava confuso com o feedback, culminando em risos e comentários gerais pra lá de descontraídos. "Todos nós gostamos de festejar", ele disse e emendou dizendo que a próxima canção seria dedicada a todos os entes queridos e perdidos que cada um de nós partilhamos, ao mesmo tempo em que empunhava uma garra de vinho e caminhava pelo palco. Então, ele anuncia a belíssima "Then She Did...", que trouxe aquele tom melancólico tão sincero que apenas os grandes nomes do rock alternativo como eles são tão eficazes e cirúrgicos em proporcionar. Aliás, o carisma não apenas de Perry como de todos da banda é estupidamente nítido, tão cristalino quanto o pleno estado de euforia provocado em cada fã.


Tão esbelta e fascinante quanto divertidamente sarcástica e autêntica, "Obvious", mais uma vez, manteve o clima de descontração e hipnose sonora/artística nas alturas. É simplesmente impressionante como as canções da banda possuem vida própria, especialmente ao vivo, conduzindo a experiência a um amálgama magnético e provocantemente sinestésico, um efeito narcótico tão raro e brilhante. "A vida é trabalho em progresso", declama Farrell, com seus olhares penetrantes fitando a plateia com aquele ar tão misterioso quanto reflexivo. O vocalista brinca com a expressão de ficar chapado e então, anuncia "Chip Away", cuja proposta tribal e experimental era a melhor pedida para aquele momento tão peculiar e viajante. Durante este som, todos os integrantes, com exceção de Perry, assumem os tambores e percussões. Trata-se de um daqueles momentos tão singulares que fazem total diferença numa performance magistral como essa. Ao término do som, o baterista Stephen Perkins entregou as suas baquetas a um dos fãs que estava ali na grade, que evidentemente delirou completamente. 

Em seguida, a igualmente avantgarde e fora da curva "Kettle Whistle" prosseguiu com aquele frenesi ressonante, jamais reduzindo o padrão de excelência, no entanto sempre entregando vibrações inéditas e inimitáveis. Na sequência, Perry alega que irão tocar uma de suas primeiras músicas, uma canção sempre solicitada e claro, para a alegria de todos, era o tão aguardado momento de conferirmos o hino "Mountain Song". Se a banda já estava com o jogo ganho até aquela altura, agora não tinha pra ninguém. A performance deste clássico indispensável foi algo de proporções celestiais, aquele tipo de experiência insólita e formidável ao extremo. Se a energia do show já estava nas alturas, agora havia atingido um efeito tão extraordinário que mal cabem expressões e termos para definir. 


"Vocês estão felizes?", diz Farrell e então, dá-lhe "Three Days", outro clássico que levou a plateia a cantar junto e entrar naquele transe sônico mais uma vez. As dançarinas voltaram ao palco, complementando aquele tom tão teatral e garboso que compreende a estética do Jane's Addiction ao vivo. E quando você imagina que não dá pra melhorar, eis que ecoa pelos P.A.s a seguinte introdução/sample:

"Señores y señoras

Nosotros tenemos más influencia con sus hijos que tú tiene, pero los queremos

Creado y regado de Los Ángeles, ¡Juana's adicción!"

Sim! Era a vez da magnânima "Stop!" entrar em cena e o resultado, como devem imaginar, foi uma coqueluche dançante daquelas, com geral cantando, dançando e pulando como se não houvesse amanhã. Aquela vibração tão única e distinta dos anos noventa pairava em todo o ambiente, operando de maneira similar a um túnel do tempo, que sonoramente teletransportava cada um dos presentes ao auge tanto da banda como da cena de rock alternativo que eclodiu naquela época. Pense numa experiência tão delirante quanto brilhante! Pois é, a parada conseguiu atingir dimensões ainda mais astronômicas e estupidamente fanfarrônicas!

Alguns instantes de silêncio e burburinho e então, chegava o momento do encore. Com outra garrafa de vinho em suas mãos, Perry descreve como o vício em cocaína desencadeia consequências gradativamente mais desastrosas. O que se inicia como um subterfúgio da fatigante e banal realidade para fugazes e desconcertantes episódios de euforia e alegria assustadoramente descontrolados, termina em um oceano de dor e dramas tão problemáticos quanto tétricos. Concluída o trecho inicial de seu discurso, sempre muito franco e íntimo, como uma prosa em uma mesa de bar entre grandes e verdadeiros amigos, Farrel anuncia que irão tocar uma canção sobre o famigerado "pó de anjo", uma composição lá dos primórdios da banda e claro, era a vez da encantadoramente e, simultaneamente soporífica, "Jane Says", um petardo tão imortal quanto gracioso, canção que sempre me remonta aos bons tempos de indeléveis videoclipes. 

Contando com o baixista Eric Avery no violão e uma ambientação tão minimalista, essencial e estonteante, a canção novamente levou todos a cantarem e apreciarem aquela brisa sonora que soprava e retumbava pelas paredes de som. A hipnose agora era mais coletiva do que nunca, com todos os presentes partilhando de uma conexão muito específica entre si, algo magistral e absurdamente fora de série, um deleite tão denso e sui generis. A impressão é a de a escala de espetáculo apenas cresceu mais e mais, um efeito progressivo radiante. 



Finalizando a apresentação da forma mais completa, honesta e apoteótica possível, "Been Caught Stealing", um dos maiores êxitos comerciais da banda, quiçá até o maior, dava ao de graça e, se o clima noventista já imperava por ali, agora era a consolidação de uma climatização tão extravagante quanto esplêndida. Após todos cantarem, dançarem e degustarem de cada nuance e traquejo, a satisfação pós-show era nítida, não apenas por parte do público, mas é claro, também pela banda, cujos membros demonstraram do início ao fim um entusiasmo e comprometimento ímpar em absolutamente tudo o que ali foi arquitetado. Vale mencionar que a maravilhosa "Ocean Size" também estava no setlist, entretanto não foi executada, muito provavelmente em função do horário. 

"Diga-si di passági", ainda falando sobre o horário tardio, acredito que a maior preocupação após o término do show foi justamente o fato dos metroviários estarem em greve, uma paralisação que certamente pegou muitos de surpresa na manhã daquele dia e que perdurou o dia todo, congelando a operação de diversas linhas, incluindo a vermelha. Apesar de todas as adversidades enfrentadas pelo Fanfarrão que aqui tagarela com vocês, tudo caminhou direitinho pra chegar em casa e, no final das contas, o investimento valeu completamente a pena, evidentemente.

Com toda sinceridade do universo, transcrever a experiência sonora, estética e até mesmo performática de uma apresentação deste cacife é uma tarefa pra lá de ousada e ingrata. São incontáveis camadas e sentimentos que exalam que, aparentemente, quaisquer tentativas de descrever se tornam sabotadas pelas nossas reações sensoriais. Todavia, apenas me resta dizer e também garantir que o Jane's Addiction ao vivo é pura e simplesmente isso: uma experiência verdadeiramente singular, tão formosa quanto transcendental. 

Cada elemento se funde. A banda, as dançarinas, as canções que possuem vida própria, sonora e liricamente falando, os experimentalismos percussivos, a mágica interação comunicativa entre os músicos e a plateia, a atmosfera disseminada pelas luzes e efeitos de palco, além da própria química e força transmitidas entre a banda e os fãs, enfim... Cada um desses ingredientes resulta numa experiência tão mítica quanto inacreditável, daquelas que é necessário ver para crer. Que o Jane's Addiction continue em atividade pelo máximo de tempo possível e claro, que retornem ao solo tupiniquim para nos brindarem com outras dessas experiências extraordinárias e hipnóticos. Indubitavelmente, os fãs aguardarão tão ansiosos como sempre. 


Integrantes:
Stephen Perkins (bateria/percussão)
Eric Avery (baixo)
Perry Farrell (vocalista/sintetizador) 

Artista convidado:
Josh Klinghoffer (guitarrista)

Setlist:
1. Up the Beach
2. Trip Away
3. Whores
4. Ain't No Right
5. No One's Leaving
6. Ted, Just Admit It...
7. Then She Did...
8. Obvious
9. Chip Away
10. Kettle Whistle
11. Mountain Song
12. Three Days
13. Stop!

Encore:
14. Jane Says 
15. Been Caught Stealing

Texto e fotos por David "Fanfarrão" Torres

Comentários