Dizer que os temerosos tempos de pandemia deixaram sequelas que repercutem ostensivamente até agora, definitivamente, é chover no molhado, no entanto é algo que é de extrema necessidade de ser enfatizado, principalmente quando nos lembramos de incontáveis eventos que tiveram suas datas drasticamente afetadas em função das complicações desencadeadas pela Covid-19. Um belo exemplo foi o show dos veteranos suecos do Opeth, originalmente agendado para 2020 e que, até finalmente ocorrer em fevereiro deste ano, foi adiado nada mais nada menos que três vezes. Sim, a banda fatalmente poderia solicitar não apenas uma música, como um álbum inteiro no "Fantástico", da TV Globo.
A espera para se assistir a apresentação da banda foi tão colossal que o evento teve que ser transferido para um local mais amplo e que atendesse à elevada demanda de público. Com uma data finalmente solidificada em 8 de fevereiro — uma quarta-feira —, na "nova" casa de shows Terra SP, em São Paulo (SP), finalmente havia chegado a hora de assistirmos em primeiríssima mão uma deslumbrante aula de peso, técnica e harmonias audazes do quinteto de Estocolmo. E oras, como foi tal experiência sônica? Caso queira descobrir, prepare-se para adentrar numa leitura tão soporífica quanto fanfarrônica, preenchida por uma sucessão alucinógena de riffs e solos tão virtuosos quanto hipnóticos e variações de andamento tão precisas quanto movimentos de dança sincronizados.
Conforme mencionei acima, a casa selecionada para sediar a apresentação foi o Terra SP – ex-Terra Country. Inicialmente, o grupo se apresentaria na Carioca Club, espaço familiar ao público-alvo, posicionado em Pinheiros, entretanto a exponencial venda de ingressos culminou na eminente alteração para este novo local, situado na zona sul da capital, algo que gerou uma série de reclamações através das redes sociais, uma vez que, embora possua fácil acesso via trem, o novo recinto se encontra muito mais afastado do centro da cidade de São Paulo. Apesar dos pesares, bola pra frente!
Deixando as circunstâncias de localização um pouco de lado, o Terra SP ao menos também oferece um espaço pra lá de generoso, que inquestionavelmente atendeu com competência a invejável quantidade de pagantes que lá se aglomerou, bem como apresentou uma qualidade de som acima da média, onde cada instrumento pôde ser compreendido com nitidez do início ao fim.
É importante frisar que a passagem da banda na capital paulistana, inicialmente, deveria ser focada em seu último trabalho de estúdio, "In Cauda Venenum" (2019), porém em função do adiamento e todo o atraso para que o show acontecesse levou a reformulação do repertório, que ao invés de basear naquele álbum, trouxe um compilado de faixas de todos os lançamentos de estúdio do grupo europeu, uma estratégia pra lá de inteligente.
Com início programado pontualmente para às 21h, os fãs aguardavam impacientemente por aquela pródiga aula de música extrema de altíssimo calibre. Dos P.A.s, ecoa um relógio tiquetaqueando, sucedido de um som de algo se quebrando violentamente. Então, ressoa um cântico taciturno, como uma ímpia e obscura missa. Para aqueles que desconhecem, esta nada mais é que a vinheta/canção "Seven Bowls", da banda grega de rock progressivo sessentista Aphrodite's Child, que exerce o papel de prelúdio das apresentações do quinteto.
Visto que toda a ambientação primordial estabelecida, os aclamados e tão aguardados membros Mikael Åkerfeldt (vocal/guitarra), Martín Méndez (baixo), Fredrik Åkesson (guitarra/vocal de apoio), Joakim Svalberg (teclado/piano/mellotron/vocais de apoio) e Waltteri Väyrynen (bateria) irrompem no palco, com o jogo ganho desde a fração de segundo zero. Estava marcado o início de uma festa fascinantemente extravagante e absolutamente inconfundível.
A primeira obra de arte em configuração musical oferecida é "Ghost of Perdition", de "Ghost Reveries" (2005). Notas sutis rapidamente são conduzidas a uma coletânea de rifferamas e versos perspicazes e galopantes, iniciando assim uma sinfonia que transmite exuberância e imponência com serenidade ímpar. Tal sortilégio convida os já extasiados entusiastas do grupo a "banguearem" e cantarem cada verso vociferado ou cantarolado suavemente por Mikael, tudo da forma mais apaixonada e ardorosa possível. Logo nesta primeira canção, cada nota, coro e ato ali praticado ecoava como uma hipnose coletiva, algo revigorante e espectral. Todas as linhas vocais e instrumentais se fundem, culminando numa simbiose supersônica capaz de surpreender até o mais cético dos ouvintes.
Emendados cirurgicamente no repertório idealizado pelo quinteto, os arranjos cadenciados e encantadores de "Demon of the Fall", de "My Arms, Your Hearse" (1998) prosseguem o espetáculo. Os intransigentes guturais, aliados às linhas harmônicas entregues por cada instrumento resultam naquela atmosfera lúgubre e portentosa que esperamos e profundamente desejamos, na qual as variações rítmicas ganham contornos tão vívidos quanto peculiares. As vocalizações melódicas, como sempre, resultam em trechos ainda mais lisérgicos.
De cara, me sinto no dever cívico de enaltecer a banda como um todo. Pense num grupo de artistas que extrapolam quaisquer expectativas. Sabe quando mencionamos que não é sobre a técnica e/ou quantos malabarismos e masturbações "guitarrísticas"/"baixísticas"/"baterísticas"/"tecladísticas"/"vocalísticas" determinados artistas podem desempenhar e sim, em como tamanha destreza e feitos se desdobram, priorizando a inventividade, o feeling e os valores que tornam obra e artista verdadeiramente exclusivos? Pois bem, tudo isso ainda é pouco para representar o que é o Opeth, especialmente ali, ao vivo e totalmente na nossa fuça, cru e vivaz como um arco-íris que se manifesta no longínquo horizonte.
Como uma diligência cautelosa e milimetricamente calculada, a banda esbanja técnica, feeling e carisma seja na sua atuação como na interação com o público, que vibra, corresponde à altura e roga por mais e mais. Mikael Åkerfeldt, o frontman, em compensação, é uma peça à parte. Um elemento que contempla para si uma atenção mais que especial, não meramente pelos seus vocais, que ora soam acetinados e em outros momentos, sarcasticamente dizimadores ou pelas suas habilidades com a guitarra, mas sim, pela sua radiante interação com os fãs, que sempre entregam aquele feedback fora de série. Cada palavra e sorriso de Mikael testifica o magnetismo do vocalista/guitarrista, atributos que se fomentam do início ao fim da apresentação.
Logo no início do setlist, durante suas trocas de palavras com os pagantes, o frontman ressalta como levou tanto tempo para voltarem para São Paulo, destacando também a imprevisibilidade do repertório selecionado para os shows, relatando o fato da turnê ser pós-pandemia, além de que o Opeth havia ficado algum tempo sem excursionarem após o fim do ano e período de Festas. Todo este discurso autêntico e cordial ampliou a energia dos presentes, que vibraram como se não houvesse amanhã. Em um determinado momento, Mikael ainda dissertou brevemente sobre um passeio que havia feito por uma loja de discos na capital no dia anterior ao evento, salientando que apenas escuta Spotify e serviços de streaming quando está em viagem.
Para quem acompanha vídeos e entrevistas do artista e até mesmo de outros grupos e bandas, é natural o conhecimento de que essa turma são ardorosos colecionadores de vinis, uma paixão que este que vos fala certamente também partilha. Particularmente, acho muito bacana quando músicos como Mikael comentam sobre suas experiências com a mídia físico, álbuns que adquirem e, consequentemente, fazem indicações pra lá de excêntricas/incomuns. É simplesmente bacana demais.
Devaneios fanfarrônicos à parte, voltemos a narrativa do show propriamente dito, oras pois! Tão exótica quanto única, a canção "Eternal Rains Will Come", de "Pale Communion" (2014), foi encarregada de dar sequência à performance. Sua introdução remete a jam sessions/ensaios/improvisos dos mais intricadas e ousados. Toda a receita de algo totalmente fora da curva possui presença obrigatória nesta pérola: acordes e fusão sônica mirabolantes, "quebradeira" jazzística, ares dançantes e surrealistas, tom misterioso e ao mesmo tempo envolvente. Subitamente, tudo é silenciado para dar início a um novo ato, agora mais progressivo e introspectivo, que vagarozamente ganha volume e novas camadas melódicas.
Circunspectos dedilhados acústicos denotam os segundos iniciais de "Under the Weeping Moon", do álbum de estreia "Orchid" (1995). Em questão de instantes, guitarras elétricas e uma nova e complexa compilação de notas são expostos, além de cantos ainda mais austeros e indômitos. Ainda assim, há mais espaço para ritmos e mudanças bruscas de andamento impremeditáveis e, consequentemente, climatizações que induzem efeitos alucinógenos em quaisquer plateias.
Um recurso que muitas vezes nos esquecemos a eficiência é a iluminação do palco. É realmente incrível como a escolha assertiva de luzes e paletas de cores é imprescindível. Quando todos esses mecanismos são escolhidos a dedo, exercem um resultado assustadoramente diferenciado em todo o experimento visual, sonoro e contemplativo de um show, absorvendo a dinâmica e intenção individual dos cânticos performados, garantindo assim uma vivência demasiadamente imersiva e inimitável. Tudo isso se aplica a maneira como as luzes e os padrões coloridos foram empregados naquela noite, amplificando a jornada sinestésica/sensorial com maestria.
Diante daquele festival de extravagância técnica, "Windowpane", de "Damnation" (2003) instaura um clima inédito na apresentação. Sua introdução progressiva e melancólica naturalmente descamba em harmonias vocais macias, instituindo por osmose um tom mais intimista, predominado por solos, dedilhados e uma "cozinha" contemplativos, tudo proporcionado de maneira intrigante e sábia. Por sua vez, a acústica introdução de "Harvest", música escolhida para representar o álbum "Blackwater Park" (2001) anuncia um clima ameno, projetando outra vez um sentimento de calmaria e, indubitavelmente, preservando a abordagem intimista da composição antecessora. Trata-se mais um canção belíssima, repleta de castas e nuances específicas, desde o instrumental aos vocais.
Temos um curto interlúdio e, durante a pausa, Mikael interage novamente com os fãs, sempre com muito bom humor, carisma e articulação, características que certamente são traços muito conhecidos do artista e que apenas se comprovam ainda mais presencialmente. O frontman menciona que elaboraram um setlist que reúne algumas composições jamais tocadas, incluindo uma música em particular, bastante longa, mas aparentemente não tão obscura como soa, dado que boa parte dos presentes clamavam por ela, algo que instantaneamente levou os apreciadores a darem boas gargalhadas.
O músico continua seu hilariante discurso, mencionando que a tal canção engloba espantosos 20 minutos e que seria a oportunidade ideal para quem desejasse usar o banheiro durante sua execução. E claro, dá-lhe mais risadas! "É uma música sobre uma flor", Mikael completa. Sim, meus caros e caras Fanfarrões e Fanfarronas, era declarado assim o início de "Black Rose Immortal", extraída do segundo trabalho da banda, "Morningrise" (1996). Trata-se da famigerada composição de maior duração de toda a discografia do Opeth. Um épico de exatos 20 minutos e 14 segundos de duração!
Delimitada por um valoroso peso, escala progressiva em plena forma, intrincada em sua essência visceral, além de consumar o grotesco e belo como nunca, numa miscelânea transgressora, altamente ambiciosa e interessante, a composição ainda prima pelas suas intersecções acústicas, suas alternâncias de andamentos e ritmos alucinantes e, em suma, por toda sua ousadia em formato musical. É aquele tipo de composição cuja escala megalomaníaca se amplia e intensifica gradativamente, atingindo um limiar inefável. Após a execução dessa inverossímil epopeia, Mikael satiriza o fato de que nem considera a canção tão "espetacular" e que a única razão pela qual desperta tanta atenção é justamente sua exorbitante duração, levando muitos presentes a gargalharem com o excepcional senso de humor e tiradas rápidas e sagazes do musicista.
Posteriormente, dedilhados sublimes estabelecem "Burden", uma faixa mais cadenciada, simbolizando o álbum "Watershed" (2008) que aposta, uma vez mais, numa veia melódica e acústica, com vocalizações limpas e, como sempre provocantes. A seguir, um aliciante crescendo apresenta "The Moor", exemplar de "Still Life" (1999). Após um início instigante e de cunho progressivo, todas as notas colidem numa fissão de arranjos contagiantes e célebres, ininterruptamente repletos de gradações abstratas, incapazes de serem descritas pelas ingênuas mentes humanas, mas que podem ser sentidas com todo o seu vigor irreal.
Os guturais dilaceram o ambiente, como urros de criaturas mitológicas desconhecidas que habitam nas entranhas do submundo, um coral de vozes tão atrozes que é habilmente acompanhado por um coro deliciosamente harmônico, que opera como um engenhoso contraponto, provando reiteradamente como este quinteto de musicistas transita astuciosamente entre o grotesco e o belo como poucos almejam ou sequer se submetem.
Outro ponto alto do show em matéria de sintonia entre os músicos e o público se deu em "The Devil's Orchard", de "Heritage" (2011). Seus arranjos introdutórios já são o bastante para cativar sem um pujante esforço, não obstante brotam os vocais de Mikael, que ganham cada vez mais forma e reverberações magistrais, cujo ápice é atingido nos versos cantados em uníssono por todos os presentes e sim, obviamente é de suma importância enfatizar o abalo sísmico emocional que os trechos "God is dead, God is dead" transmitem, especialmente ao vivo e em cores. Honestamente, é algo que jamais esquecerei, nem daqui a mil anos.
Incorporando ainda mais misticismo sonoro ao tempero de sua magnânima apresentação, os suecos prosseguem com uma faixa de seu material mais recente, "In Cauda Venenum" (2019), "Allting tar slut", cujo teor cabalístico implode num êxtase sensorial assustadoramente heterogêneo, daqueles capazes de drenar quaisquer desvios de atenção que se possa cogitar. É deveras impressionante como estes distintos cavalheiros conseguem contemplar um repertório tão diversificado, onde cada composição se torna brilhantemente incomparável e cada elemento não apenas possui vida própria como se destaca individualmente.
Fatalmente, chegava o momento do encore — famoso bis, o que significa que o show estava chegando ao fim, embora da forma mais exuberante e alto astral. Para comprovar meu argumento fanfarrônico, o prog/jazz é reencarnado quando as primeiras notas de "Sorceress" entram em cena, desfilando elegantemente, como o soberbo pavão que estampa a emblemática ilustração de capa do álbum homônimo na qual a canção pertence, realizado em 2016. Peso, harmonia, ambientações, fragmentações e mudanças engenhosamente bruscas de compassos. SxIxMx, tudo conforme manda o figurino e como deve ser!
Bom, quem conhece o mínimo que seja sobre as apresentações dos suecos é que Mikael e cia. frequentemente tocam uma cover pra lá de inusitada ao vivo, "You Suffer" (Napalm Death). Sim, a própria! O icônico hino dos pioneiros do grindcore, conhecida por entrar no Guinness Book como a menor música já gravada. Tendo isso em mente, Fanfarrão com F maiúsculo que sou, tratei de de escrever em inglês numa folha de papel canson "Por favor, toquem 'You Suffer', de Napalm Death. Obrigado!". Sim, com direito ao logotipo do ND e tudo mais. E não é que deu certo?!
Ao erguer o papel pela primeira vez, isso lá no começo do show e berrar "Play 'You Suffer'!" — junto do meu querido amigo e guitarrista da nossa banda, Ramon — vulgo "Ramones" —, Mikael bateu o olho, sorriu e disse "Mais tarde! Temos que estar preparados para essa grande música!", fazendo geral cair na gargalhada. Eventualmente, quando veio o encore, levantei a plaquinha de novo e então, Ramon e eu berramos insistentemente. Mikael olhou na nossa direção e comentou "Já ia me esquecendo! Agora vamos tocar uma cover de uma banda inglesa, de Birmingham." Nessa hora, um monte de roqueiro de shopping center pensou que seria Black Sabbath e, para a ingenuidade dessa galera, o riff inicial do hino de mr. Tony Iommi "Black Sabbath" foi executado brevemente, no entanto Mikael disse "Não é Black Sabbath, é de uma outra banda...".
Nisso, gritamos "Napalm Death!" e ele confirmou, continuando "É uma grande canção de uma banda chamada Napalm Death. Grande letra, grande mensagem. Pensem nela antes de dormir!", provocando ininterruptamente risos gerais. Mas a melhor parte é a seguinte: ao tocarem o som pela primeira vez, Mikael comenta que "Não foi uma boa versão, vamos fazer de novo!" e tocaram mais duas vezes, acelerando o ritmo ainda mais. Sim, meus car@s Fanfarrões e Fanfarronas, fizemos o Opeth tocar "You Suffer" três fucking vezes! Moral da história: "Como saber se o Fanfarrão foi ao show do Opeth? Veja se 'You Suffer' (Napalm Death) foi executada e, preferencialmente, não apenas uma única vez!". E é isso!
Depois de um belo momento de descontração pra lá de fanfarrônico, fruto de minha interferência nada divina, Mikael brinca que iriam tocar uma canção um "pouco" maior do que Napalm Death, provocando mais risos gerais, como devem imaginar. E podem apostar, bota um "pouquinho" maior nessa brincadeira aí! Ecoa uma introdução cavalgada, potente como uma marcha de corcéis indomáveis em um deserto escaldante, acompanhada por aquela saudável dose de dissonância e experimentalismo em seu DNA.
Mas é claro que era o momento de "Deliverance", do lançamento homônimo de 2002. Este épico com pouco mais de 13 minutos de duração foi encarregado de finalizar este espetáculo não apenas de técnica além da compreensão, como de feeling e inventividade sobrenaturais que fariam os "chatonildos" do Dream Theater e quiçá até mesmo a xexelenta fase atual da pomposa Donzelo de Ferro desfalecerem de vergonha alheia.
Antes que eu me esqueça, por mais que o tom da apresentação clame por algo no espírito mais contemplativo, aparentemente rolaram algumas rodas — ou ao menos, tentativas... talvez?! — de moshpit [sic] durante o show. Meu espanto se deve ao fato do som altamente "quebradaço" e mais recheado de camadas que bolos de aniversários de confeitaria de luxo pouco facilitar para que a prática atividade esportiva do mosh fosse, digamos, exercida com "sucesso" naquela noite, todavia alguns presentes ao menos tentaram e acredito que devo parabenizá-los pela tentativa. É como dizem, "Quem acredita, sempre alcança". Ou não.
"Digá-si di passági", além da já exteriorizada brincadeira com a "You Suffer" (Napalm Death), outra cena que não sairá da minha mente tão cedo é a de um fã que estava ao meu lado e de meu amigo. Próximo ao fim de "Deliverance", esse rapaz ficou "possuído pelo cão" e resolveu abrir um — de acordo com suas próprias palavras, ou melhor... berros — "bate cabeça"! "Rapeizes", eu juro que olhei para o meu amigo e ri alto! É por causa dessas paradas que não consigo levar o ser humano a sério, principalmente o fã de rock/metal (risos altos ecoando em minha cabeça rolando em 3, 2, 1...).
Devaneios fanfarrônicos à parte, a parte mais legal de toda essa experiência de frequentarmos shows e eventos, sejam eles de pequeno, médio ou grande porte é justamente essa, todas as lembranças icônicas e indeléveis que terminamos por colecionar, algo que simplesmente não tem preço, para o bem ou para o mal. Outro ponto que deve ser lembrado é que, independentemente de ter sido um evento de longa duração, a organização zelou para que o término da apresentação ocorresse a tempo de todos conseguirem retornar para suas casas em segurança, algo que é de extrema importância, acima de tudo se tratando de uma quarta-feira. Felizmente, ocorreu tudo muitíssimo bem.
Mesmerizante, singular e incansavelmente íntima, a apresentação do Opeth certamente ficará registrada nas memórias e corações de todos os presentes por todos os valores e conjunturas possíveis e imagináveis. Combinando uma ambientação arrebatadora, um repertório magistral e magnificamente executado, além de uma adorável interação entre os artistas e seu público, trata-se de mais uma daquelas incontáveis experiências sonoras e visuais que todo bom apreciador de boa música, não somente pesada, progressiva ou técnica, merece testemunhar pelo menos uma vez.
Foram duas horas e meia que foram percorridas com uma fluidez orgânica e afável, jamais soando como um espetáculo de virtuose burocrático engessada, muitíssimo pelo contrário. A espantosa seleção de composições do vasto catálogo do grupo, assim como sua aplicação performática de caráter completamente sobrenatural transcendeu todas as expectativas e percepções que nós, pobres e meros mortais sequer possamos sonhar em contemplar com vossas retinas e tímpanos. Verdades brutais e altamente fanfarrônicas sejam ditas: bandas como Opeth são como joias e esculturas inigualáveis e que se destacam na multidão. Tal proeza apreciável apenas é concedida para um seleto nicho de artistas, mais especificamente aqueles que jamais deixam de cometer riscos durante sua trajetória e sempre buscam por voos gradualmente mais intrépidos e incomensuráveis.
Que Mikael Åkerfeldt e sua tripulação de musicistas desta dimensão surreal não demorem para retornar para nossas humildes terras tupiniquins e nos presenteiem o mais breve possível com mais um festim harmonioso e de proporções exorbitantes e, evidentemente, que não tenhamos adiamentos, contratempos e outras circunstâncias igualmente indesejáveis nas próximas ocasiões. Cruzaremos nossos dedos com força para que o melhor esteja por vir.
PxSx: Por último, mas ainda mais importante: agradecimentos especiais, fanfarrônicos e em negrito para o "benino" "Ramones", que me convidou para o show na véspera do evento. Sem palavras até agora, maninho! Muito obrigado de coração mais uma vez! Como digo toda vez, é "NÓIZES" sempre!

















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