[Live Noise] Alcest - Carioca Club - 2 de abril


Após a confirmação da produtora Overload sobre o regresso dos franceses do Alcest ao Brasil, criou-se uma extensa expectativa, especificamente dentro da comunidade da música extrema e do nicho de apreciadores de post-black metal/shoegaze — ou mais especificadamente ainda, blackgaze. Com uma única data agendada para 2 de abril deste ano, em São Paulo (SP), o show integrou a turnê latino-americana dos compositores veteranos, sendo a última data da tour em si. Tendo em vista que a última visita dos artistas em terras brasileiras ocorreu em 2018, com a turnê do álbum "Kodama" (2016), era óbvio que os aficionados mais fervorosos passaram a contar os dias para que a tão sonhada data da apresentação chegasse.

Quem é do meu círculo de amizades mais íntimo sabe que ando priorizando mais eventos de bandas e artistas que ainda não tive a oportunidade de conferir ao vivo e que detém direcionamos artísticos desafiadores e, assim como no show do Opeth que resenhei anteriormente, fui convidado pelo meu grande amigo e guitarrista de nossa banda, mr. Ramon — "Ramones" para os íntimos — a comparecer na apresentação do Alcest, banda que já estava deveras curioso pra assistir. E cá estamos "nóizes" nessa análise inédita que, "digá-si di passági", assim como alguns reviews antecessores e os próximos dois que serão publicados no decorrer dos próximos dias, estava pendente há um tempinho. 

A demora foi tão monstruosa que nem farei cerimônia e já vou logo chutar o pau da barraca com gosto, no melhor sentido que a expressão possa ter: que showzaço/experiência sônica da porra, meus car@s Fanfarrões e Fanfarronas! Sem mais delongas, bora embarcamos em mais uma leitura recheadíssima de atmosfera e temperos ofuscantes e insólitos, daquele jeitão que tanto cobiçamos. Adianto que essa jornada será permeada por um clima mais gélido, portanto vistam seus moletons e vestimentas apropriadas mais confortáveis e/ou estilosas e "simbora" nessa bagaça fanfarrônica e lisérgica.


Escolhido para hospedar a apresentação do grupo, o Carioca Club é aquele típico ambiente que dispensa apresentações formais. Situado na região de Pinheiros, na capital paulistana, a casa é frequentemente selecionada para recepcionar os mais diversos shows de música pesada de alto calibre, seja pelo seu espaço apropriado como sua fácil localização. Com o Alcest não foi diferente. Meu amigo e eu chegamos relativamente cedo, por volta de 16h30 e uma generosa fila já aguardava de prontidão a abertura dos portões. Na multidão, era possível encontrar um pouco de cada tipo de visual e entusiasta de música extrema, desde os mais tradicionalistas aos mais improváveis e/ou exclusivos.

O tempo avança, atingindo a faixa das 19h00. As luzes agora se exibem baixas, enquanto a audiência fica paulatinamente mais inquieta. Dos P.A.s, ressoa "Miserere", a adaptação musical e a cappella do Salmo 51, produzida pelo compositor italiano Gregorio Allegri (1582 — 1652), durante o papado de Urbano VIII (1568 — 1644), por volta de 1630. Sua plácida estética é o prelúdio ideal para a proposta performática que estava prestes a se iniciar poucos instantes após. Eis que adentram ao palco os integrantes Neige (vocais/guitarra) e Winterhalter (bateria), assistidos pelos musicistas convidados Indria (baixo) e Zero (guitarra/vocais de apoio) e, em questão de segundos, a apresentação oficialmente tem início com "Les Jardins de Minuit", a esbelta faixa de abertura do último trabalho de estúdio do Alcest, "Spiritual Instinct" (2019).

Um provocante crescendo, composto por harmonias rebuscadas e estonteantes de teclado, acompanham a inicialmente tímida "cozinha" de baixo e bateria. Então, emana um coro tão belo quanto um gélido panorama europeu. Temos uma pausa e claro, blast beats alucinantes metralham incessantemente as paredes do recinto, agora fragilizadas pela suntuosidade orquestrada. Em contrapartida, as calorosas harmonias de guitarras estão ali, sempre presentes e assoviando como uma atraente sirene no meio da escuridão. 


E o que dizer a respeito daquele riff principal, que fixa em nossas singelas mentes e jamais nos abandona, a cereja deste bolo muitíssimo bem confeitado e saboroso. Os trilhos melódicos vocalizados são intercalados momentaneamente com passagens mais ásperas e desesperadas, que ampliam a escala de dramatização, acelerando os batimentos cardíacos e moldando sorrisos e expressões mais rígidas e definidas nos rostos dos presentes. Vejam só, um transe coletivo é testemunhado, uma comunhão soporífica, conduzida pela glacial atmosfera, contudo simultaneamente tão bonita quanto se pode imaginar. Uma beleza exótica e singular.

Os artistas prosseguem seu prodigioso espetáculo kafkiano com "Protection", a segunda canção de "Spiritual Instinct", cujas notas hipnóticas e igualmente pegajosas rapidamente envolvem cada um dos fãs. Quando os vocais entram em cena, com suas linhas suaves e mesmerizantes, a casa vem abaixo, com a plateia acompanhando cada verso e palavra. Outra vez, o grotesco e o belo se encontram numa miscelânea harmônica e transcendental, pela qual as paletas de cores e estratégias propostas pela iluminação do ambiente contribuem para a edificação de toda a atmosfera de cada canção oferecida, acompanhando suas respectivas proposições e temáticas. Sim, o capricho, em particular quando empregado com eficácia e planejamento dignos de nota, faz toda diferença, pura e simplesmente.



Dedilhados sutis, em companhia de um teor melancólico eclodem numa festa de acordes vivazes, iniciando assim "Écailles de lune - Part 2", composição que surge como a primeira representante do segundo registro do duo, "Écailles de lune" (2010). Compassos ganham impetuosidade, enquanto brados viscerais dilaceram as paredes da casa. Repentinamente, os tambores e percussões partem em disparada anárquica, sendo interrompidos pela calmaria pós-tempestade, um rumo mais melódico, acústico e sentimental, que cativa quem quer que seja num estalar de dedos.

Novamente simbolizando o último álbum dos franceses, o início incitante de "Sapphire" nos conduz a uma nova simbiose entre a banda e os fãs, uma inquietação telepática, na qual as vibrações de voz e instrumentais, somadas ao monumental feedback do público canalizam um experimento sensorial que beira a mais inexplicável paranormalidade. Se algum dos presentes jamais havia sido cobaia de uma hipnose antes deste evento, tudo mudou radicalmente após essa façanha tão massiva e extraordinária que surpreenderia até o mais fanfarrônico dos Fanfarrões.  




Como os "hómi" jamais estavam pra brincadeira e o lance deles era inegavelmente mesmerizar a tudo e a todos com sua coleção extasiante de cânticos inigualáveis, foram executadas "Percées de Lumière" e "Sur l'océan couleur de fer", ambas do já mencionado "Écailles de lune". A primeira possui uma pegada mais dançante e ritmada, mas não menos crua, onde o seu eufônico revestimento ainda traz vociferações frígidas, daquelas que paralisam até uma sacrílega criatura de terras geladas. Não obstante, também há espaço o suficiente para as odes limpas e aprazíveis, além de dedilhados auspiciosos. Ao mesmo tempo, a segunda canção aposta numa trilha acústica e introspectiva, abundantemente afinada e encantadora, originando uma aura espontaneamente reflexiva.

Extraída do full-length de estreia homônimo, concebido em 2007, "Souvenirs d'un autre monde" nos transporta para uma ambientação esperançosa e deliciosamente viajante. Todos os ingredientes de sua fórmula proporcionam uma viagem sem volta ao mais desconhecido universo harmônico. Pois é, esses caras jamais estão pra brincadeira, sempre com novos truques na manga, um mais sagaz que o outro. Por outro lado, "Oiseaux de proie" evoca os caminhos orientais de "Kodama" (2016). Seus arranjos ecoam como uma chuva torrencial de notas surpreendentemente surreais, ora melodiosas e meditativas, ora atrozes e obscuras, apesar disso sempre resultando nessa fusão muito bem equilibrada entre a beleza e a ira grotesca, atingindo o seu clímax numa torrente de notas tão belíssimas e indescritivelmente satisfatórias.




Logo na sequência, "Autre Temps", de "Les Voyages de l’âme (2012) circula de novo por esses vales sônicos mais brandos e de climatizações otimistas, ricocheteando como uma encorpada hipnose musical, como já é de praxe, comprovando que os habilidosos musicistas jamais se cansam de nos impressionar e banquetear com seu repertório além da imaginação. Como tudo que é bom dura pouco, chega o momento do encore e, para este segmento final da apresentação, Neige e seus companheiros executam "Kodama", na qual as harmonias envolvem os presentes com uma profusão ainda mais sublime e transcendental. A atmosfera desencadeada pelas composições dos caras é algo completamente fora da curva e a execução crua, ao vivo e em cores seletas, dilata tal retumbância radiante e imaginária, onde nem mesmo o céu é o limite. Na realidade, o limite simplesmente deixa de existir, tornando as possibilidades sensoriais astutamente amorfas e imponderáveis.

Ainda que a interação entre a banda e a plateia tenha se manifestado mais através do feedback em cada composição, o frontman Neige esbanjou um honroso carisma e apreço do início ao fim, sempre lançando seus olhares e sorrisos modestos e muito cordiais aos fãs, enquanto tocava, cantava e admirava os presentes degustando da apresentação. Entre algumas canções, ele também trocou algumas palavras com o público, sempre de maneira serena e amigável. Próximo ao encerramento, Neigel agradece a presença de todos e enfatiza que a banda deseja retornar em terras brasileiras assim que possível, quem sabe até mesmo no ano seguinte. Vamos aguardar pra ver se tudo isso se concretiza, mas adianto que a reação dos presentes foi a mais afetuosa que se possa idealizar.




E por fim, a conclusão apoteótica se pronunciou através de "Délivrance", composição que emana a estética shoegaze/post-rock do lançamento na qual pertence, "Shelter" (2014). Com o sentimento de esperança e determinação mais preponderantes do que nunca, trata-se de um hino que, naquela circunstância, operou como aquela complacente e fabulosa despedida, recheada de ostensivas camadas, componentes que nos permitem que viajemos pelas melodias que persistem em nos entorpecer os sentidos até os últimos arranjos serem entregues. Não é um "adeus", mas um "até breve" para todos os presentes. 

Um detalhe muito notável é que, após concluírem o set, Neige levantou suas mãos e a guitarra para cima e, a silhueta formada em função das luzes do palco resultou numa cena que, coincidentemente ou não, remeteu e muito a própria fotografia que estampa a capa do disco "Shelter". Meu amigo Ramon e eu conversamos sobre isso após o show e realmente não sabemos se foi algo intencional da parte de Neige, mas indubitavelmente foi sensacional de qualquer forma.




Tal como já é habitual nos shows que são sediados no Carioca Club, o evento acabou dentro das expectativas, cerca de 20h30, o que é sempre encarado com extrema felicidade por nós, pobres proletários que precisamos nos deslocar até nossos humildes lares para descansarmos e acordarmos cedo para trabalhar. Ao término do rolê, todos os fãs nutriam aquele sentimento de satisfação pelo que acabaram de testemunhar. Alcest é aquele tipo de banda cujo catálogo já é cintilante por natureza, mas que ganha novos contornos quando se apresentam ao vivo, entregando não apenas um típico show de música pesada meramente genérica e sem qualquer identidade e sim, uma legítima experiência autoral, apaixonante e de atributos tão ímpares que, por mais que tentemos encontrar os termos e adjetivos mais apropriados, creio que, no fim das contas, falharemos miseravelmente. 

Há vivências que realmente dispensam palavras, os próprios sentimentos e variáveis comportamentais irão falar por si próprios, uma vida própria tão sumptuosa quanto a sinfonia de arranjos arquitetados por Neige e Winterhalter. Além disso, sabem aquele tipo de banda/artista que consegue não apenas reproduzir o seu trabalho com eminência em performances ao vivo, como superar essas expectativas, entregando algo além do que os sentidos mortais são capazes de captar e traduzir de modo categórico? Pois bem, posso assegurar que o Alcest deve estar, no mínimo, infinitos anos luz a frente e contando. Que essa entidade do blackgaze e música extrema divisora de águas sempre retorne para nosso modesto solo tupiniquim, sem mais. 

PxSx: Brigadão mais uma vez ao grande "Ramones" pelo convite e pela companhia sempre muitíssimo bem-vinda e maravilhosa! TxMxJuntaço, maninho! É "NÓIZES" sempre, não apenas quando se trata de barulheira e música/anti-música/arte extrema e/ou fora da curva, como em absolutamente tudo na vida. 


Integrantes:
Neige (vocais/guitarra)
Winterhalter (bateria)

Artistas convidados:
Indria (baixo)
Zero (guitarra/vocais de apoio)

Setlist:
1. Les Jardins de Minuit
2. Protection
3. Écailles de lune - Part 2
4. Sapphire
5. Percées de Lumière
6. Sur l'océan couleur de fer
7. Souvenirs d'un autre monde
8. Oiseaux de proie
9. Autre Temps

Encore:
10. Kodama
11. Délivrance

Texto e fotos por David "Fanfarrão" Torres

Comentários